Charles Bradley dá soul, suor e lágrimas na Praça da República

Estadão

07 de maio de 2012 | 23h00

Roberto Nascimento

A Virada Cultural deste ano acertou em cheio ao escalar uma programação afrocêntrica em seus palcos de destaque.  Na Júlio Prestes e na Praça da República, o suingue imperou noite adentro e se esticou tarde afora.

Não fez diferença que os gêneros escolhidos -soul, jazz e afrobeat- tenham públicos segmentados e não toquem no rádio. Ao vivo, de graça, tocados para gente de todas as esferas sociais, o ritmo falou mais alto.

Foi comum ver seguranças balançando ao groove do soulman Charles Bradley, cantor de qual provavelmente nunca ouviram falar, ou vendedores de cerveja interessados pela poliritmia africana de Seun Kuti.

Charles Bradley

 Tais ritmos, quando bem feitos e tocados em alto e bom som para o grande público, deixam de ser privilégio dos descolados. Também trazem frescor às  escalações dos últimos  anos, que trouxeram samba rock e funk soul genérico em demasia aos palcos.

Neste ano, os destaques desta porção ficou por conta da trinca de afrobeat na Julio Prestes, e do soul na República. Ebo Taylor, do Gana, esquentou a pista para o lendário baterista Tony Allen, parceiro de Fela Kuti, que trouxe déjà vus dos grandes discos de Fela. Seun Kuti foi o ápice da noite, com presença de palco memorável acompanhada pela magistral banda de seu pai, a Egypt 80. Na República, McCoy Tyner, Charles Bradley e Larry Graham agradaram.

O carismático soul man Charles Bradley cantou sobre dor e superação para uma plateia receptiva nesta tarde de domingo.

Charles Bradley, por sua vez, agradeceu o público por tê-lo tirado das ruas (era mendigo antes de assinar com a famosa gravadora Daptone), e exprimiu a mesma sinceridade em baladas românticas durante o show.

Sua voz quase destroçada cai bem com os momentos de entrega visceral, em que Bradley ajoelha e confessa sua dor. Lembra Otis Redding em Tenderness; urra com uma imponência de fazer frente a cantores de black metal.

Em seus melhores momentos, Bradley é pura catarse feita de sangue, suor e lágrimas. Assim como os Dap Kings, de Sharon Jones, a banda de Bradley é excelente. Faz soul vintage com cadência, raramente deixa o ímpeto esfriar. Despontam como os coadjuvantes de um dos grandes shows desta Virada Cultural.

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