Cássia Eller: uma década sem malandragem

Estadão

07 de janeiro de 2012 | 06h59

Pedro Antunes

Eram 18h quando uma multidão formada por 85 mil pessoas assistiu àquela mulher subir no palco, com uma faixa no cabelo, acompanhada por seu inseparável violão. O ano era 2001. Cássia Eller, aos 39 anos, estava no auge. Ela abria a segunda noite da terceira edição do Rock in Rio com a missão de tocar rock – no dia anterior, Gilberto Gil, James Taylor e Sting tiveram seu apelo, mas falharam no quesito roqueiro.

Meio travessa, meio ensandecida, a cantora não poupou esforços para fazer valer o rock que dá nome ao festival. Até os seios mostrou. Fez versões pesadas de Partido Alto, de Chico Buarque, a Come Together, dos Beatles. Contou com a participação especial da Nação Zumbi, para dar o tempero brasileiro na festa toda, que, naquela noite, teve também Fernanda Abreu, Barão Vermelho, Beck, Foo Fighters e R.E.M.

Dez anos depois, o festival voltou ao Rio. Mas Cássia, não. No fim daquele ano, em 29 de dezembro, há exatos 10 anos e dois dias antes de se apresentar na virada de ano na Barra da Tijuca, a carioca não resistiu a um fulminante enfarte do miocárdio – as suspeitas do uso de cocaína e álcool foram rechaçadas pelos médicos legistas. O mundo perdia aquela que talvez só fosse uma garotinha crescida.

Cássia Eller se foi quando vivia a melhor fase da carreira. Além do show irrepreensível no Rock in Rio, em 2001, a cantora lançou o seu mais rentável disco, Acústico MTV, que vendeu 1,1 milhão de cópias. Foram 95 apresentações em um ano.

Para lembrar uma década sem Cássia Eller, a MTV – que, aos poucos, volta a focar no melhor da sua programação, ou seja, na música – dedicará 24 horas da sua grade a ela. Das 7h de hoje até 7h de amanhã, serão exibidos o Acústico e o programa Luau MTV, gravado pouco antes de sua morte e exibido apenas em 2002, além de outros programas e entrevistas.

Tributo maior, no entanto, vem da gravadora Universal, ao colocar nas lojas o box Caixa Eller – O Mundo Completo de Cássia Eller, uma compilação com seus seis discos de estúdio, de Cássia Eller, de 1990, ao póstumo Dez de Dezembro, lançado no ano seguinte à sua morte. Há também dois discos ao vivo, o Acústico e um DVD, Violões, uma reunião de suas aparições em programas da TV Cultura entre 1990 e 1999.

É a melhor maneira de conseguir entender como funcionou a meteórica carreira de Cássia Eller. Do som cru, uma voz ainda vacilante. Era mais rock, menos violões. Mais gritos, menos melodias. Ainda assim, logo a cantora chamou a atenção. O ponto de mudança veio em Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo, de 1999. Graças ao filho Chicão, que disse que ela mais berrava do que cantava. Rapidamente, Cássia se tornava pop, suave, sem perder sua ousadia.

Documentário e ‘Relicário’

Inspirado na história da cantora, o documentarista Paulo Henrique Fontenelle, diretor de Loki (que levou para as telonas a história de Arnaldo Baptista, em 2008), agora se prepara para registrar fatos, facetas e lugares marcantes para Cássia. O trabalho ainda está em processo de pesquisa de imagens e entra para roteiro em janeiro.

Outro material que chegou às lojas no fim de novembro foi o disco Relicário (R$19, também da Universal), agrupando canções escritas pelo ex-Titãs Nando Reis para a voz da amiga Cássia. A cantora colecionava parceiros, indo até o hip hop de Xis, mas foi Nando que se tornou seu principal compositor e amigo.

Os versos de All Star não poderiam ser mais perfeitos. “Estranho mas já me sinto como um velho amigo seu / Seu All Star azul combina com o meu preto de cano alto / Se o homem já pisou na lua, como eu ainda não tenho seu endereço? / O tom que eu canto as minhas músicas / Para a tua voz parece exato.”

Há dez anos, Nando perdia a sua segunda voz, Chicão perdia a mãe, e a música brasileira perdia um pouco da sua malandragem

LANÇAMENTO
Caixa Eller
Universal
Preço: R$150

CONHEÇA OS DISCOS
Cássia Eller (1990)
A carioca ainda procurava o seu estilo, com um trabalho cru e experimental, como ‘Eleanor Rigby’, dos Beatles, em ritmo de reggae.

O Marginal (1992)
Ainda roqueira, mas mostrou uma faceta funk com canções de Luiz Melodia. Voltou a interpretar a vanguarda paulista de Itamar Assumpção e Paulo Barnabé.

Cássia Eller (1994)
Veio o primeiro grande sucesso interpretado pela cantora. O megahit ‘Malandragem’ era uma composição inédita de Frejat e Cazuza.

Cássia Eller Ao Vivo (1996)
Primeiro sucesso de vendagem e sua estreia com gravações ao vivo. Ela deixou os instrumentos elétricos de lado e experimentou o formato acústico.

Veneno Antimonotonia (1997)
A cantora fez as pazes com as guitarras interpretando Cazuza. Tem gostinho dos anos 80, com a voz feminina
da década seguinte.

Veneno Vivo (1998)
No registro do disco com repertório de Cazuza, Cássia acrescentou outros hits oitentistas, como ‘Geração Coca-Cola’ e ‘Vida Bandida’.

Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo (1999)
Depois de um puxão de orelha do filho, Cássia se entregou à MPB, em disco recheado de parcerias com seu amigo Nando Reis.

Acústico MTV (2001)
Grande sucesso de Cássia Eller, que teve seu ápice na apresentação explosiva no Rock in Rio. Essencial na sua discografia.

Dez de Dezembro (2002)
Dirigido por Nando Reis e lançado um ano após a morte da cantora, quando ela completaria 40 anos. São belas gravações de arquivo.

Violões (2010)
Um DVD que traz a cantora, ao vivo e com seu inseparável violão. À vontade no palco e em entrevistas ao programa ‘Metrópolis’.

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