Caravana cigana arma festa no Rock in Rio

Estadão

22 Setembro 2013 | 16h53

Jotabê Medeiros

Sempre dionisíaco, a caravana do grupo multiétnico e multicultural Gogol Bordello tradicionalmente se apresenta com o intuito de instaurar a anarquia sonora, com uma avalanche musical fornecida por guitarra, bateria, baixo, acordeão, violino, violão, percussão, eletrônica. O pacote é completado por uma performance “insana” dos músicos, que se postam em cima das caixas de som, escalam equipamentos, batem no peito, pedem interação.

Essa performance deu muito certo nas três vezes anteriores em que se apresentou no Brasil – uma delas no Parque do Ibirapuera, outra no antigo Via Funchal, outra no Lollapalooza. É difícil escapar de sua convocação, que é extremamente politizada – como a música de Manu Chao ou do Clash. Sua máxima filosófica é brutalmente simples: se somos todos cidadãos do mundo, então o mundo é nosso, vamos desfrutar dele.

Mas dessa vez, com uma performance fortemente baseada num disco novo, Pura Vida Conspiracy (lançado este mês no Brasil pela Som Livre), o grupo não emplacou um quarto tratamento de choque numa plateia brasileira. Seu show foi convocatório como de hábito, mas não foi tão bem-sucedido. Em parte porque as canções novas, como We Rise Again, que abriu o seu show no Palco Sunset, e Lost Innocent World e Malandrino, têm um componente de maior ambição melódica – certo que em seguida, a banda emendou dois petardos de gipsy punk, Not a Crime e Wonderlust, que causaram certo clima de carnaval pernambucano.

“Tudo bem, companheiras?”, indagou o líder da banda, Eugene Hütz, em português, antes de mandar um dos seus raros hits, Companjera, mais antiga. Aí a plateia caiu em sua trama, e os fãs reiniciaram pequenas rodas de dança comunitárias, mais ainda esteve longe do engajamento de sua última apresentação, quando tomaram de assalto o Jockey Club de São Paulo.

Lenine, que fez uma participação no seu show, não conseguiu encaixar-se tão bem em sua noção de caos sonoro – Lenine é mais técnico, mais chegado às nuances, não foi bom seu dueto ao violão com Eugene Hütz, então não restou outra coisa à organização senão anunciar, minutos antes do show do Gogol Bordello, que Lenine teria direito a uma apresentação só sua, às 21h30, no mesmo palco, com seu show solo.

“Amamos Brasil. É por isso que vamos tocar em Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. Mas agora estamos aqui, no Rock in Rio”, explicou o percussionista equatoriano Pedro Erazo (a banda tem ainda ucranianos, alemães, russo, uma chinesa e um etíope). Ainda há um percurso a ser percorrido para que o Brasil diga o mesmo, mas o fato é que o acampamento dos ciganos não deixou marcas mais profundas dessa vez.

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