Capital Inicial retoma veia contestadora em disco que tem como ápice 'Saquear Brasília'

Estadão

18 de dezembro de 2012 | 17h00

Emanuel Bomfim – ESPECIAL PARA O ‘ESTADO’

 

Dinho (à esq.) torce por um 'novo' Renato Russo - Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão
Dinho (à esq.) torce por um ‘novo’ Renato Russo

Dos quatro integrantes do Capital Inicial, o vocalista Dinho Ouro Preto é o último a chegar à entrevista, realizada na sede do Estado na última quinta, 13. Apesar da simpatia, não esconde curiosa aflição. Quer saber se o São Paulo, o time para qual torce, corre riscos de perder o título da Sul-Americana. “Nunca vi aquilo”, comenta sobre o abandono do adversário argentino no intervalo da partida. Logo, o assunto futebol é trocado pela política. Lembra e ri do senador José Sarney, que lhe me mandou uma longa carta que continha os dizeres “Ilustríssimo Artista” dias após Dinho ser ovacionado em discurso contra a censura no Rock in Rio. Mais tímidos, os companheiros de banda – os irmãos Fê (bateria) e Flávio Lemos (baixo) e o guitarrista Yves Passarell – acompanham atentamente a prosa, não negam fogo e dão pitacos valiosos. Os mais diversos temas prolongam a conversa, mas nenhum deles, nem mesmo o das fervorosas paixões futebolísticas, ganha tanto brilho nos olhos quanto Saturno, o mais novo álbum de estúdio do grupo. A empolgação com que falam não parece combinar com os quase trinta anos de estrada e 16 álbuns nas costas. Lembram rapazes que acabaram de gravar seu 1º trabalho.

“O espírito é o mesmo de quando você tinha 22 anos”, defende Yves. É na sua guitarra que as novas canções se mostram urgentes. O peso e a sujeira remontam os tempos de Aborto Elétrico, quando o punk rock em Brasília mobilizava futuros ídolos nacionais, como Renato Russo e o próprio Dinho. “Volta e meia eu acho que uma banda precisa ser sacudida. O risco é a autoindulgência ou a preguiça. Queríamos que soasse nervoso”, explica Dinho.

Nem precisa botar para tocar para perceber como o Capital está em ebulição. Os títulos já denunciam o teor da bronca: Saquear Brasília, Apocalipse Agora e A Valsa do Inferno. “Foi assim desde o começo. O engraçadinho nosso era: ‘quero soltar bomba no Congresso’. Sempre com ironia e sarcasmo”, comenta o baixista Flávio Lemos, ao valorizar a pegada engajada da banda nos primórdios, um contraponto à cena mais pop do período, protagonizada por grupos como a Blitz. Indignado, Dinho vê o cenário se remontar nos tempos atuais. “É incrível como o rock se afastou dos temas políticos e sociais. Quem pegou a bandeira é o hip hop. O rock não era alheio a isso. Qual é o motivo? Falta de inspiração?”, provoca o frontman.

De fato, Saturno é um alento para quem aprecia discursos mais engajados e menos românticos. É o disco mais bem resolvido do Capital Inicial nos últimos dez anos. Enquanto a maré oitentista indica o revisionismo, com shows voltados para relembrar os 30 anos de carreira, o quarteto liderado por Dinho tenta mais uma vez garantir vida longa no iPod da molecada. Poucas bandas conseguiram renovar seu público como eles. “Se você pegar o Ramones e o AC/DC, eles continuam tendo apelo para os adolescentes, mesmo que os mais velhos não os abandonem. Parte da resposta está em você se manter fiel às suas raízes, eu acredito. O rock é para garotada e deve ser mantido simples”, teoriza o vocalista. 

Simplicidade essa, segundo eles, que não deve ser confundida com a massificação de hits. A banda não espera emplacar nenhuma das novas faixas nas rádios FM. Com agenda cheia e contrato fixo com uma major (a Sony), fatos cada vez mais raros, eles se dão o direito de só atender as próprias expectativas, mesmo que não resultem em projeção e vendas volumosas. “Hoje, para tocar no rádio, você precisa fazer um míssel teleguiado. Precisa tirar todas as guitarras, reduzir o tamanho da música… Os limites estão cada vez mais estreitos”, afirma Dinho. “Precisa surgir de novo uma Legião Urbana para quebrar esta moldura e colocar uma Faroeste Caboclo, de 9 minutos, para tocar”, completa Fê Lemos. 

Dinho não se vê como portador de uma revolução no BRock. Sonha com o surgimento de um novo Renato Russo, mas “tem que ser jovem.” Para ele, o Capital pode ser um exemplo de como envelhecer com dignidade. Saturno, nas mãos dos quase tiozinhos, é uma lição de jovialidade.

SATURNO

Capital Inicial

Preço médio: R$ 28

Tudo o que sabemos sobre:

Capital Inicial

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.