Cannibal Corpse ignora cidade sitiada e lança o Rio no inferno

Estadão

22 de junho de 2013 | 21h49

Marcos Bragatto – do site Rock em Geral – Fotos: Daniel Croce
Rob Barrett (guitarra), Alex Webster (baixo), Corpsegrinder (vocal) e Paul Mazurkiewicz (bateria)

Rob Barrett (guitarra), Alex Webster (baixo), Corpsegrinder (vocal) e Paul Mazurkiewicz (bateria)

A situação era tensa. Após uma manifestação, a polícia de choque vinha varrendo o centro da Cidade sem distinção. Era literalmente tiro, bomba e porrada. O Circo Voador poderia ser um oásis no meio do estado de sítio: centenas de camisetas pretas interessados apenas em sacudir a cabeça solenemente. Mas a fumaça das bombas lançadas na rua contaminou o ambiente e temperou o ar da lona voadora com pimenta, a ponto de os shows de abertura terem sido interrompidos porque não havia condições de cantar nem um guturalzinho básico. Havia relatos de que bombas foram lançadas até mesmo dentro do Circo, e um dos produtores, ao tentar fotografar, foi alvejado por uma bala de borracha. Até a chegada da atração principal ao local estava ameaçada.

A resistente e onipresente hélice de Corpsegrinder

A resistente e onipresente hélice de Corpsegrinder

Quando entrou no palco depois da meia-noite, porém, o Cannibal Corpsede nada quis saber. Subiu o volume da mesa de som, acendeu uma luz vermelha fixa, irritante e apimentada, e começou um verdadeiro massacre sonoro que desviou completamente o foco – aquele mesmo que falta aos manifestantes – para o esporro. Isso o modo de dizer, porque o death metal tipicamente americano do quinteto é técnico e rivaliza com o europeu em alto nível. O vocalista Corpsegrinder e seus quilinhos a mais logo liga a clássica hélice ao girar o pescoço numa frequência impressionante. Seguramente não seria o possível o vocal rasgado do rapaz não fosse uma caixa torácica das mais generosas. Difícil é encarar o sujeito, cuja face custa a sair debaixo da cabeleira farta.

Numa tacada só a banda solta três porradas de dar gosto, com destaque para o solo matador de Patrick O’Brien em “Staring Throught The Eyes Of The Dead”, o que seria uma constante durante a noite, nas músicas que, em meio à selvageria extrema, têm solo. O repertório é uma espécie de folha corrida da carreira do Cannibal, com todos os álbuns contemplados com ao menos uma música. A lista, no entanto – veja no final do texto – é montada de modo a permitir que o início e o final tenham passagens velocíssimas (muito por culpa do baterista Paul Mazurkiewicz, em grande forma), e a meiúca fique com as músicas mais cadenciadas. O que não quer dizer sem peso. “Scourge Of Iron”, por exemplo, é lenta e tão pesada que vai minando os ouvidos e trincando o pescoço da plateia rumo ao caos. A dobradinha “Disfigured”, com um belo trabalho de guitarras, e “Evisceration Plague” soa como tortura não só sonora, mas flagrantemente física.

 

Vista do palco vermelho infernal (ou pimenta)

Vista do palco vermelho infernal (ou pimenta)

Não por acaso o disco mais recente do Cannibal Corpse é “Torture”, e dele, três faixas são tocadas: a genial porrada “Encased In Concete”; a já citada “Scourge Of Iron” e “Demented Agression”, enraizada no hardcore. O gogó de Corpsegrinder vai bem em todas, incluindo as mais antigas, da fase com Chris Barnes, que saiu do grupo há quase 20 anos. O vocalista ignora o clima de tensão nos arredores, pouco fala, a não ser para anunciar músicas e sugerir – como se fosse preciso – roda e bateção de cabeça. Mas, no final, depois de hora e meia de show, dedica toda a apresentação ao guitarrista do Slayer, Jeff Hanneman, morto em maio. É quando o público se acaba pra valer em “Hammer Smashed Face” e expele todo o gás do mal ingerido desde cedo, em rodas de pogo intermináveis. Volta, Cannibal, que a coisa pode ser ainda melhor.

A noite era também a do lançamento do suado DVD “Desagradável”, do Gangrena Gasosa, e não ia ser uma bombinha de gás lacrimogêneo que ia fazer os guardiões do saravá metal desistir. Afinal, os caras precisam ter o corpo fechado para levar à frente uma banda como essa. Além de reunir ex-integrantes como Ronaldo Chorão e o impagável Paulão, dessa vez até os bateristas Magrão e Cid, fundador do grupo, vestido à caráter como um Zé do Caixão de branco, participaram. O resultado foi uma espécie de comemoração nesses quase 25 anos de banda, incluindo clássicos como “Surf Iemanjá”, “Pegue Santo Or Die!” (uma das preferidas da casa), “Centro do Pica-pau Amarelo”, que o público adora, e a oportuna “A Supervia Deseja a todos Uma Boa Viagem”. No final, como não se via há muito tempo, os despachos foram lançados deliciosamente ao público. Mais cedo, quem abriu a noite foi o metal extremo do Fórceps, que, segundo relatos, também teve que parar a apresentação duas vezes por causa do gás e da pimenta.

Dupla do mal ocando o terror: Omulu e Zé Pilintra

Dupla do mal tocando o terror: Omulu e Zé Pilintra

Set list completo Cannibal Corpse:

 

1- A Skull Full of Maggots
2- Staring Through the Eyes of the Dead
3- Edible Autopsy
4- Addicted to Vaginal Skin
5- An Experiment in Homicide
6- Sentenced to Burn
7- Gutted
8- Demented Aggression
9- Scourge of Iron
10- Disfigured
11- Evisceration Plague
12- Dormant Bodies Bursting
13- Disposal of the Body
14- Decency Defied
15- Dead Human Collection
16- I Cum Blood
17- Encased in Concrete
18- Make Them Suffer
19- Hammer Smashed Face
20- Stripped, Raped and Strangled

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