Bruce Springsteen ensaia show da estreia da turnê sul-americana

Estadão

11 Setembro 2013 | 17h04

Jotabê Medeiros / Santiago – O Estado de S. Paulo

A política ocupou grande parte da conversa no primeiro contato de Bruce Springsteen com a imprensa sul-americana. Uma instituição da música norte-americana, ele chegou ontem a Santiago, no Chile, onde se apresenta amanhã – chegou um dia antes de uma data de triste memória para o país, os 40 anos do golpe que derrubou Salvador Allende e colocou o ditador Augusto Pinochet no poder. “É muito importante estar aqui neste momento, muito poderoso”, afirmou o cantor.

Aos 64, o Boss está em forma impecável - Jotabê Medeiros/Estadão
Jotabê Medeiros/Estadão
Aos 64, o Boss está em forma impecável

Havia 25 anos que Bruce Springsteen não pisava no continente para tocar. A última vez que esteve na América do Sul, em 1988, em Buenos Aires (no estádio do River Plate e em Mendoza, na Argentina) e em São Paulo (no velho Parque Antártica), Springsteen fez apenas um pocket show beneficente em prol da Anistia Internacional (numa comitiva composta ainda por Peter Gabriel, Sting, Tracy Chapman e Youssou N’Dour, entre outros).

“Era um momento muito forte nos países que visitei. Na Argentina, foi impressionante ter contato com o relato de mães e avós cujos filhos e netos foram levados pela ditadura. Aqui no Chile, também havia uma realidade muito dura, triste. Era uma época em que a música e a arte representavam muito, conseguiam falar por muitos. Cheguei aqui e fiquei impressionado com o quanto lembro das coisas”, afirmou.

Sobre a possibilidade de os Estados Unidos invadirem a Síria, aventada pelo governo americano, Springsteen foi menos contundente. “Não sei qual será a atitude correta. Os russos fizeram uma proposta (de negociação para a vistoria das armas químicas do governo sírio). Se for séria, pode ser uma saída. Os EUA fizeram muitas intervenções militares nos últimos anos, no Iraque e no Afeganistão, mas não sei o que dizer, ainda estou confuso”, respondeu à pergunta do Estado.

O artista desembarcou com o circo completo, a sua mitológica E Street Band, com 17 músicos no palco. O primeiro ensaio na Movistar Arena, onde tocará, já foi um show completo – o homem é obsessivo e perfeccionista. Em Santiago, Springsteen chegou preocupado com o make-up: pediu uma manicure, uma cabeleireira e uma massagista para seu camarim. Ele completa 64 anos no dia 23 de setembro: “Nunca imaginaria que, 50 anos depois, ainda estaria vivendo com a música. Vocês podem pensar que se trata apenas de tolas canções de rock, mas elas têm uma poderosa capacidade de transformação, de transfiguração”.

Bruce fará seu primeiro show da turnê sul-americana amanhã e promete honrar uma tradição: tocar em torno de 3 horas (para cerca de 10 mil fãs). Ainda havia ingressos no dia anterior. O repertório foi parcialmente composto por músicas escolhidas pelo Twitter. “Somos essencialmente uma banda ao vivo”, explicou.

Com mais de 40 anos de carreira e 24 discos, The Boss, como o músico é conhecido, traz ao Rock in Rio (e a São Paulo, no dia 18, no Espaço das Américas) seu mais recente disco, Wrecking Ball, cuja turnê foi considerada pela edição americana da Rolling Stone como o melhor da atualidade. Há violinos, seção de metais, acordeom, e o grupo invariavelmente tem um sabor de brass band sulista americana. Bruce está em forma física estupenda, nada de barriga, nada de cansaço.

Curiosamente, Bruce chega na semana em que comemora os 40 anos do lançamento do primeiro (e crucial) disco com a E Street Band: The Wild, The Innocent and the E Street Shuffle, de 1973. Na época, contava com duas lendas na banda: Vini “Mad Dog” Lopez e David Sancious. Era então apenas um sonhador saído de uma vizinhança de baixa classe média de New Jersey. Músicas de mais de 5 minutos tornaram o disco um fracasso comercial, mas um artefato artístico sólido e influente pelos anos que se seguiriam.

Ainda ontem, Springsteen confirmou mais um show beneficente, o Stand Up for Heroes, que organiza com o baixista do Pink Floyd, Roger Waters, entre outros. Já é a sexta edição do evento, que levanta fundos para ajudar soldados que voltam feridos ou desajustados de intervenções militares dos Estados Unidos em países como Iraque e Afeganistão. Será no dia 6 de novembro, no Madison Square Garden.

Bruce Frederick Joseph Springsteen já foi declarado um “fenômeno nacional” dos EUA. Desde então, ganhou 19 prêmios Grammy e um Oscar (em 1994, pela canção Streets of Philadelphia). Habitou o topo das paradas de 16 países ao mesmo tempo.

Seu mais recente trabalho, Wrecking Ball, o 17.º disco de estúdio, é produzido por Ron Aniello e pelo próprio Springsteen. Trata-se de um álbum que analisa a desesperança de tempos duros na América, com crise econômica, desemprego, falta de perspectivas. A poética do Boss está dura e um tanto amarga. O disco traz convidados como o guitarrista Tom Morello, do Rage Against the Machine. Aos 63, The Boss também já olha para trás com nostalgia e revisita seus próprios clássicos, como Rosalita, que é rememorada na nova canção Easy Money.

A E Street Band desembarca com ausências sentidas: em 2011, morreu após um ataque cardíaco o saxofonista Clarence Clemons, o The Big Man. Era um grande amigo de Springsteen que o acompanhava desde 1972. Bruce disse que Clemons é “insubstituível”, mas elogiou o sobrinho dele, que ocupou seu espaço na banda. Antes de Clemons, em 2008, já tinha morrido o tecladista e acordeonista Danny Federici, um dos fundadores do grupo.

Springsteen pediu desculpas por ter demorado tanto para voltar à região: “Depois daquela vez (a vinda com a Anistia Internacional), a banda se separou e tive filhos para criar. Isso levou 20 anos. Já será maravilhoso se os fãs ainda se lembrarem de mim”.

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