Briga praticamente põe fim aos Garotos Podres

Estadão

15 Maio 2013 | 18h09

Marcelo Moreira

Uma notícia bastante desagradável para quem gosta de rock no Brasil. A banda punk Garotos Podres, do ABC paulista, praticamente acabou, e da pior forma possível, com desentendimentos graves entre seus integrantes. A notícia pegou de surpresa o meio musical de São Paulo e surgiu ontem, terça-feira, na página do vocalista Mao no Facebook.

Ao portal de notícias Whiplash, a banda enviou uma nota oficial informando sobre a saída de Mao e estabelecendo a nova formação, e com outro nome: passa a se chamar apenas Garotos, e a formação terá Sukata (Bass), Caverna (Drums), Gildo (Vocal) e Denis (Guitar).

José Rodrigues Júnior, o Mao, no Facebook, não economizou na contundência, embora tenha sido elegante e evitado detalhar mais a “disputa judicial” pelo nome Garotos Podres e a preservação do “legado” da banda. Veja a mensagem pública do vocalista na rede social:

É o fim dos Garotos Podres?

Não sei se pretendo voltar a tocar. Confesso que estou profundamente chateado com muitas coisas que ocorreram nos últimos meses. E se voltar – o que não pretendo fazer tão cedo – provavelmente não será como membro dos “Garotos Podres”, conforme assinalei nas notificações abaixo.
Atualmente o nome “Garotos Podres” está em disputa. Certamente esta pendência levará muitos anos para se resolver nas esferas administrativa (INPI) e judicial. Enquanto isto, se quiser voltar a tocar, terei que usar um novo nome (não importa qual).
Neste momento, a minha principal preocupação é não deixar que o nome “Garotos Podres” seja depreciado, caindo nas mãos de pessoas inescrupulosas que pretendem transformar os “Garotos Podres” num mero “caça-níqueis”. Lutei muito para construir a reputação da banda. Por trás do nome “Garotos Podres” existe todo um significado histórico construído ao longo de três décadas, e jamais permitirei que pessoas mal intencionadas se apropriem deste nome para jogá-lo na lama. Lutarei com todas as minhas forças para que isto jamais ocorra.

Mao

Os integrantes da nova formação ainda não se pronunciaram a respeito do texto publicado por Mao.

Importância reconhecida

Ponta de lança do movimento punk paulista no início dos anos 80, os Garotos Podres foram considerados a banda mais politizada e mais agressiva em termos líricos. Está no mesmo patamar que Olho Seco, Inocentes, Ratos de Porão e Cólera, os grandes nomes da cena.

Todas as bandas punks faziam da crítica social e de protesto o mote de seus trabalhos, mas as letras de Mao tinham um conteúdo mais ferino e elaborado. Professor de história e militante de várias causas sociais, o vocalista abusava da ironia e das referências políticas para criar alegorias violentas de uma sociedade que saía de um regime ditatorial militar e voltava às mãos dos civis representados pelo que de pior a política brasileira produziu.

Enquanto o movimento punk perdia a força inicial e se tornava cada vez mais underground, os Garotos Podres mantiveram-se fiéis à proposta original e radical como um grupo politizado e de violenta crítica social, de cunhjo socialista, enquanto o som seguia a cartilha punk tradicional dos três acordes e muita adrenalina.

Os contemporâneos foram trilhando outros caminhos. O Ratos de Porão caminhou em direção ao hardcore e ao heavy metal, fazendo um crossover fantástico, embora as letras não fossem mais tão contundentes como em meados dos anos 80. O Cólera adotou um perfil mais anarquista e ao mesmo tempo pacifista, enquanto que os Inocentes transitaram com sucesso entre o punk rock e o pop rock nacional.

Apesar da discografia não tão extensa e de ultimamente realizar shows esporádicos, a banda manteve o prestígio de ícone punk paulistano, com o respeito de músicos de várias vertentes roqueiras. A atitude e a postura militante, no entanto, não foram suficientes para evitar as famosas divergências comerciais e musicais, memso sendo uma banda totalmente underground. Um fim indigno para um grande grupo.
 

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