'Born Again': por que o álbum do Black Sabbath é venerado no Brasil?

Estadão

03 de março de 2011 | 08h35

Marcelo Moreira

“O pior disco da minha vida é o mais cultuado no Brasil. Não consigo entender isso.” A declaração é de um surpreendentemente bem humorado Ian Gillan em 1997, na entrevista coletiva em um hotel de São Paulo, às vésperas de mais um show do Deep Purple na cidade. Ele não se estendeu muito, pois a pergunta foi feita por um fã quando ele ia para o seu quarto.

Dois dias mais tarde, após a apresentação no antigo Olympia, em um bar rock que já não existe mais, ainda mais bem humorado, que era quase inacreditável, Gillan resolveu soltar os cachorros contra “Born Again”, seu único trabalho com o Black Sabbath, em 1983.

 “Tudo estava meio confuso, estava bagunçado, e sei que Tony (Iommi) não trabalhava daquela forma. Mas as coisas estavam esquistas, Bill (Ward) estava com seus problemas crônicos de saúde, Geezer (Butler) estava muito preocupado com coisas fora da banda. Algumas músicas eram realmente boas, mas a produção é muito ruim, há sons que não faço ideia do que são. Não sei se é o piode de minha carreira, mas não gosto dele. O tempo que passei no Sabbath foi maravilhoso, amo Tony e Geezer, mas o resultado não foi bom. Não consigo porque brasileiros, argentinos, mexicanos e gregos amam esse trabalho”, disse o vocalista.

Ian Gillan resumiu com sua perplexidade um fato que ninuém explica. “Born Again”, o disco que ganhou quase todas as eleições de capa mais feia e horrenda do rock, vendeu pouco, teve uma turnê complicada pela América do Norte e Europa e não pôde contar com Bill Ward nos shows, mais uma vez doente,  substituído pelo apenas correto Bev Bevan (ex-Electric Light Orchestra).

A produção realmente ficou aquém do que se poderia esperar de um álbum com a grife Black Sabbath. Abafada, a mixagem ressaltou demais o baixo, tornou a voz de Gillan estridente e soterrou, em algumas faixas, a guitarra de Iommi. Mas assim mesmo é considerado uma obra-prima do heavy metal.

Nem a banda sabe ao certo o que produtor Robin Black, amigo de Iommi, conseguiu fazer. Embora no primeiro mês de lançamento o álbum tenha chegado à posição nº 4 das paradas inglesas, teve desempenho muito discreto nos Estados Unidos no mesmo período, e depois acabou decepcionando os empresários do grupo.

Seja como for, o álbum causou um choque assim que chegu às lojas, em 1983. A expectativa era enorme. Dois gigantes se unindo em uma nova superbanda, uma espécie de Deep Sabbath. O estranhamento foi imediato na primeira audição, mas depois os fãs foram se acostumando com o peso absurdo e a sonoridade bem sombria.

Gillan (esq.), Geezer e Iommi em estúdio no País de Gales

O resultado é que no Brasil o álbum ficou por um breve período fora de catálogo em LP entre os anos de 1983 e 1993. Em CD sempre esteve nas lojas, até mesmo nas grandes lojas. Virou objeto de culto, e foram poucas as vozes que criticaram ou detestaram o álbum.

Mas o culto e a veneração fazem algum sentido? Totalmente. Apesar do processo caótico da gravação e da aparente informalidade e bagunça que dominavam o Black Sabbath, o grupo cometeu uma obra-prima. Por muitos anos foi sinônimo de heavy metal no Brasil. Se alguém qeria saber o que era som pesado, era só mostrar  álbum e afirmar: “Isso é heavy metal.”

“Trashed” é uma paulada na abertura, um heavy poderoso e acelerado, com Ian Gillan cantandom muito. “Born Again” tem  mesmo astral de “Black Sabbath”, com seu andamento lento e sombrio, riffs pesados e cortantes e uma dramaticidade assustadora. “Disturbing the Priest” é outra faixa assustadora, que não faria feio na trilha sonora do inferno, de tão pesada. “Keep It Warm” traz um excelente trabalho de guit antigas darras. “Zero the Hero” e “Digital Bitch” foram os hits, faixas pesadas e curtas.

A turnê que se seguiu teve bons momentos, mas não foi aquilo que todos esperavam. Gillan não cantou tudo o parecia poder cantar no Black Sabbath, as canções antigas da banda evidenciaram o desconforto do vocalista em interpretá-las – fato que ele confirmounaquele boteco em 1997: “São clássicos, é lógico, mas não eram minhas músicas, não gostava dos temas, era algo totalmente fora da minha realidade. Mesmo as músicas da época de Ronnie (Dio) me causavam desconforto.”

O Black Sabbath nos Estados Unidos em 1983: Bevan (esq.), Gillan, Iommi e Butler

Uma curiosidade, e que acabou virando raridade para colecionadores, foi a inclusão de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, no repertório da turnê. Iommi desconversa sempre e diz que foi uma gentileza da banda para Gillan, que gostaria de cantar a música. Butler disse uma vez que não gostou muito, mas que acabou sendo divertido. Nos bastidores, entretanto, a historinha era outra: teria sido uma exigência do vocalista.

Seja como for, nas gravações mais audíveis da turnê, escutar “Smoke on the Water” com o Black Sabbathé maravilhoso, com o timbre gordo e pesado da guitarra de Iommi e o baixo extremamente pesado de Butler. Não poderia haver coroamento para um período curto, mas vibrante do heavy mtal, onde foi produzidauma verdadeira obra-prima.

Apesar de ter adorado aquele período, Gillan não via muito futuro no Black Sabbath. O convite apareceu em um momento crucial, quando ele convalescia de uma cirurgia feita na garganta no final de 1982.

“Mas o fato é que eu não tinha certeza se queria continuar e se a banda comigo nos vocais teria condições de melhorar. Enquanto eu pensava, surgiram as negociações para a volta da formação clássica do Deep Purple, algo que eu não botava muita fé. Mas depois que vi que a reunião do Purple era para valer, no começo de 1984, ao final de nossa turnê pela Europa, nem pensei duas vezes. Agradeci a Geezer e Tony e voltei para minha banda de verdade”, disse Gillan em 1997.

O que pouca gente sabe é que Butler também estava louco para sair, mas não tinha coragem de decepcionar o amigo Iommi. A saída de Gillan foi o que Butler precisava para deixar a banda – embora ainda tenha permanecido, segundo uma entrevista de Iommi em 2003, nas audições para um novo vocalista em 1985 – primeiro Dave Donato, depois Jeff Fenholt.

Foto rara: Jeff Fenholt (esq.) ao lado de Iommi em 1985, quando parecia que realmente seria o vocalista do Black Sabbath

A história após isso todo mundo sabe: o Black Sabbath praticamente acabou, Iommi tirou férias e decidiu gravar um álbum solo tendo o amigo Glenn Hughes (ex-Deep Purple) ns vocais e eventualmente no baixo. As músicas tinham como base as demos de “Star of India”, aquele seria um disco do Sabbath de 1985.

“Seventh Star” chegou às lojas em 1986, mas sob o nome Black Sabbath. A mudança de última hora, segundo Iommi, foi uma exigência da gravadora: ou vira um álbum do Sabbath, ou não sai – fato que irritou muito Glenn Hughes.

Para encerrar, nas palavras de Gillan, como ocorreu a sua “contratação”, indicando que a coisa não poderia dar muito certo: “Ainda estava me recuperando da cirurgia em 1983 e não tinha mais banda solo. Sempre fui amigo de Tony e Geezer, nos falávamos sempre desde 1972. Um dia estava cansado de ficar em casa e fui tomar umas cervejas e jogar bilhar com Tony e o empresário do Sabbath na época em um pub – acho que Geoff (Nicholls, tecladista de apoio do Black Sabbath) estava também. Ficamos a noite inteira bebendo, rindo e jogando, e alguém falou que eu poderia substituir Ronnie Dio no Sabbath. Todo mundo riu da ‘piada’, menos Tony, que parou de falar por uns dez minutos. Ninguém entendeu. Aí, do nada, ele mandou, ‘Por que não?’. Todo mundo ficou cara de interrogação e ele insistiu, ‘Por que não Ian no Black Sabbath?’ Ninguém levou a sério. Só sei que, de manhã, com todos muito bêbados, eu já tinha aceitado, não sei como, ser o vocalista do Black Sabbath.Tinha até assinado uma espécie de ‘contrato’ no bar. E foi assim.”

Tendências: