Bootleg x pirataria: a diferença nem é tão grande assim

Estadão

23 Julho 2012 | 06h35

Marcelo Moreira

Bootleg não é pirataria. É comum vermos essa frase ser usada em diversos fóruns na internet e até mesmo em congressos de fãs de determinada banda como justificativa para a disseminação de conteúdo artístico e/ou intelectual sem a devida autorização do autor ou detentor dos direitos.

Os melhores argmentos de quem defende o bootleg são fracos: “não trazem prejuízo a ninguém” e “ajuda a divulgar o nome do artista, seja em qual ambiente for”. Pura balela.

 A divulgação de material não autorizado, em última instância, lesa o artista na medida em que. obviamente, ele não recebe nada pela divulgação/disseminação; e também causa lesão ao permitir que material de qualidade inferior, descartado seja lá qual for o motivo, chegue ao ouvinte, causando “má impressão”.

Bootleg é sim pirataria, mas desde os anos 90 deixou de ser uma preocupação para os artistas. Geralmente esse tipo de material só interessa a fanáticos ou colecionadores, daqueles que querem ter tudo de um artista, mesm que seja uma conversa de camarim ou som do artista vomitando.

Nos anos 70 e 80, o ‘Black Album’ foi considerado o LP (e depois CD) pirata mais caçado do mundo. Traz sobras de estúdio, ensaios e takes alternativos das gravações de ‘The White Album’, o LP duplo lançado em 1968. Entre outras coisas, traz versões ‘bêbadas’ para ‘The House of the Rising Sun’, dos Animals, e ‘A Quick One’, do Who. A lenda diz que só foram confeccionados 1,5 mil cópias em vinil.

O grande problema para o mercado cultural, para artistas e para as gravadoras, é a pura e simples clonagem de um CD/DVD/livro, sempre em qualidade inferior. Isso sim lesa o produtor de cultura.

Os bootlegs chegaram a preocupar as gravadoras no período entre 1985 e 1995, quando o CD ficou popular. Muitos bootlegs – a esmagadora maioria gravações de shows nunca lançados, sobras de estúdio, gravações alternativas de músicas de sucesso ou tediosos ensaios – foram produzidos em escala quase industrial em países como Itália e União Soviética (depois Rússia).

Nos dois países, a legislação a respeito de direitos autorais continha brechas que acabavam por estimular a criação e comercialização de tais produtos. Ficaram famosos no Brasil e na Argentina os “italianos” com um cachorro como “selo musical” contendo shows de artistas dos mais variados. As quantidades de cada um dos produtos eram sempre pequenas, nunca ultrapassando mil cópias.

Esse ficou bem popular em CD nos anos 90, e foi um dos mais procurados nas duas décadas anteriores. A capa, em prensagem de CD italiano, identifica o que seriam as gravações completas da sessão dos Beatles ao vivo feitas no telhado da gravadora Apple, em 30 de janeiro de 1969. É considerada a última e verdadeira apresentação ao vivo da banda. Surgiu no mercado em versões simples e dupla em CD.

Esse material geralmente era vendido às gravadoras piratas italianas, russas e até japonesas geralmente por intgrantes de fã-clubes ou até mesmo de equipes que faziam som nos shows, gravando muitas vezes o áudio direto da mesa.

A pirataria bootleg do tipo italiana perdeu força na segunda metade da década de 90 com o apert na legislação e fiscalização na Itália e na Rússia. A internet virou o paraíso para esse tipo de conteúdo, disseminado de graça, mas chamando a atenção somente dos fanáticos.

Contracapa de um dos CDs da série ‘Unsurparred Masters’, a mais famosa série de álbuns pitaras dos Rolling Stones, ao lado da série ‘Ultra Rare Trax’ (que também lançou gravações alternativas e não autorizadas de Beatles, Deep Purple e Led Zeppelin, entre outros).

Os artistas detestam, pois consideram que todo bootleg não passa de material ruim, sem qualidade necessária para se tornar um produto oficial. As gravadoras idem, porque bootleg em tese canibaliza um eventual lançamento de CD ao vivo.

Alguns artistas tentam tirar vantagem do fanatismo e aderem, até certo ponto, à estratégia: The Who e Pearl Jam, por exemplo, chegaram a colocar à venda mais de 130 shows, em CD e en DVD, diretamente em seus sites oficiais. Tiveram vendas satisfatórias, mas insuficientes para justificarem tal investimento. Fizeram u=isso por apenas uma turnê e depois abandonaram a ideia.

A prática mais comum no combate aos bootlegs, mas que não passa de oportunismo barato e imoral, é a reedição de CDs ou de discografias inteiras em CD com a inclusão de “bônus” – grava~ções ao vivo ou músicas gravadas mas nunca lançadas oficialmente. Quem tem todos os discos de uma banda e é fanático acaba por comprar novamente os álbuns com as “novidades”.

‘Cabala’ é considerado o melhor e mais cobiçado do Led Zeppelin. Traz músicas inéditas descartadas, ensaios, takes alternativos de sucessos da banda e colagens sonoras. Na versão mais conhecida, surgida no meio dos anos 80, é vendida em uma caixa com oito CDs.

Seja como for, o bootleg é pirataria sim, msmo que seja considerada por muitos do “bem”, já que normalmente não causa lesão financeira ou artística ao artista e muito menos às gravadoras.

 O mercado tem é de combater a pirataria verdadeira, que é a clonagemgrosseira e barata de originais, essa sim lesiva em todos os sentidos. Em tempos de todo tipo de download na internet, os bootlegs são os menores problemas para artistas, produtores e empresários do meio.

Outra raridade nos anos 70 e 80, ‘Tommy Demos’ traz as primeiras gravações das composições que viriam integrar o álbum duplo ‘Tommy’, de 1969. A maioria das músicas tem apenas Pete Townshend tocando todos os instrumentos, em gravações realizadas em seu estúdio caseiro entre novembro de 1968 e fevereiro de 1969. Muitas das faixas ainda nem traziam as letras definitivas.

 

Um dos mais famosos bootlegs do Iron Maiden, ‘Secret Gig’, como é popularmente conhecido, traz um show de uma banda de amigos liderada por Adrian Smith e Nicko McBrain. Em 19 de dezembro de 1985, com Smith nos vocais na maior parte do tempo, a banda executou diversos clássicos do rock, como ‘Tush’, do ZZ Top. Bruce Dickinson, Dave Murray e Steve Harris subiram ao palco somente ao final do show, no bis. O grande destaque é a música ‘Reach Out’, um dueto entre Smith e Dickinson, que acabou sendo lançada como lado B pelo Iron pouco tempo depois, com Adrian Smith cantando.