Bonamassa praticamente esquece o acústico, mas empolga o público paulistano

Estadão

13 de agosto de 2013 | 06h48

Marcelo Moreira

Joe Bonamassa, o grande nome do blues da atualidade, maravilhou e decepcionou o público do HSBC Brasil, em São Paulo, na última quinta-feira, 8 de agosto. Anunciado como um show acústico, na esteira da divulgação do combo CD/DVD “An Acoustic Evening at The Vienna Opera House”, lançado há três meses, o evento foi praticamente uma repetição da grande performance do final do ano passado na mesma casa: quase a mesma lista de músicas e os mesmos maneirismos e piadas com outros integrantes da banda. Tudo muito profissional, de alta qualidade. Mas o público que lotou a casa paulista esperava um pouco mais.

O nerd da guitarra, aos 36 anos, continua mais workaholic do que nunca. Saiu de uma rápida mas cansativa turnê europeia com a cantora Beth Hart – os dois acabam de lançar o segundo álbum da parceria, “Seesaw” – e já engatou a turnê sul-americana, que passou também por Buenos Aires. Ele não cansa, gosta mesmo do que faz e até consegue transmitir isso em alguns momentos do show, mas o que se destaca mesmo é a precisão e o profissionalismo, além da qualidade técnica absurda.

O começo parecia promissor, com a execução, sozinho ao violão, de cinco temas acústicos, com destaque para “Seagull” e “Athens to Athens”. Compenetrado e exímio instrumentista, encarnou um verdadeiro concertista e esbanjou competência ao extrair sons inimagináveis, aproveitando a boa acústica da casa e empolgando os espectadores mais acostumados com a sua obra.

Parte do público, no entanto, se empolgou quando as luzes se acenderam e a banda de apoio entrou, ao mesmo tempo em que Bonamassa apanhava uma das suas guitarras Gibson para injetar o rock no blues pesado que pratica. “Dust Bowl”, um de seus sucessos recentes, incendiou a casa, sendo executada muito alta e com uma pegada mais roqueira do que o normal.

A sequência foi praticamente a mesma do show do ano passado, com as mesmas músicas, na mesma ordem. O guitarrista parece não acreditar que já tem um público consolidado e cativo no Brasil, e preferiu jogar de forma segura, desfilando seus principais sucessos da carreira solo, ignorando as boas canções gravadas com Beth Hart e pinçando apenas “Song of Yesterday” do extinto grupo Black Country Communion – que teve uma homenagem no final ao The Who, com uma citação à mágica “Won’t Get Fooled Again”.

Joe Bonamassa em São Paulo

Se frustrou um pouco as expectativas com um show parecidíssimo com o de 2012, por outro lado agradou em cheio a todos com seu blues rock energético e pesado, contando com uma banda afiada e muito entrosada – agora com a participação especial do amigo Derek Sherinian nos teclados (ex-Dream Theater), com quem tocou recentemente no Black Country Communion.

O desfile de hits manteve a adrenalina em alta: “Dislocated Boy”, “Midnight Blues”, “Driving Towards the Daylight”, “Slow Train”, a belíssima balada “Mountain Time” e o bis repetido de 2012, “Sloe Gin” e “The Ballad of John Henry”, o seu principal sucesso. Mesmo sendo profissional ao extremo, é espantoso como o feeling do músico transforma canções simples em verdadeiras peças energéticas e transbordantes de melodias que fogem do óbvio.

Aclamado como instrumentista e como cantor, Bonamassa mostrou que não faz concessões. Atropela concorrentes como John Mayer no quesito blues genuíno e na pegada rock, assim como deixa para trás nas referências dos dois gêneros contemporâneos como Kenny Wayne Shepherd, Jonny Lang e Derek Trucks. Seus solos são inspirados e espalhafatosos sem que isso seja uma coisa ruim. É um dos seus diferenciais.

O jeitão nerd dá o tom da apresentação inteira. Óculos escuros, quase nenhuma interação com o público, Bonamassa estava preocupado demais em fazer música e desfilar sua classe, com total domínio do palco e do repertório, elevando a guitarra a patamares poucas vezes vistos em terras brasileiras. Até mesmo seus abusos e firulas fazem enorme sentido dentro do contexto a que ele criou. Tudo isso em duas horas que simplesmente se tornam poucas diante de tamanha qualidade e impacto no público. Ao final do show, a pergunta de todos: quando será a próxima visita do grande guitar hero do blues?

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