Bob Dylan, um gênio em constante mutação

Estadão

18 de abril de 2012 | 12h00

Pedro Antunes

O Bob Dylan que escreveu a clássica Like a Rolling Stone tinha 24 anos e não existe mais. Deu lugar a um homem de 70 anos, de movimentos vagarosos e difíceis, voz ainda mais desgastada e um tanto mais rabugento – apesar de ainda ativo e inspirado.

E a canção Like a Rolling Stone, que ainda toca nos fones de ouvido de seus fãs, atravessou os anos com seu mestre. Sorte que ele e sua obra se mantenham em constante mutação, como uma pedra rolando. Imprevisível e, por isso, tão magnífico.

Dylan chegou ao Brasil esta semana para cinco apresentações. Passou pelo Rio de Janeiro no domingo, ontem tocou em Brasília, depois seguirá para Belo Horizonte (amanhã), duas datas em São Paulo (sábado e domingo) e, por fim, em Porto Alegre. Na capital paulista, ele dará as caras no Credicard Hall, sábado às 22h e, domingo, às 20h. Ingressos, só para a segunda noite (em todos os setores, com preços que vão de R$150, com visão parcial, a R$ 900).

Cinco noites em que os clássicos (e outros nem tanto) serão revisitados por esse artista inquieto. Músicas lado A e lado B, em alusão aos antigos singles, em vinil. Da longa Tangled up in Blue, do disco Blood on the Tracks, de 1975, à atual Beyond Here Lies Nothin, lançada em seu último disco de estúdio, o inspirado Together Through Life, de 2009.

Idolatrado por gerações, desde a década de 1960, Dylan já foi proclamado o trovador da juventude. A voz de inquietos que, como ele, não gostavam de ver o futuro que se aproximava da sociedade norte-americana, com guerras e sangue derramado.

Mas de um jeito que só Dylan pode ter, ele refutou esse rótulo. Não quer ser voz de ninguém. Só a dele, mesmo. Inconfundível, mais esganiçada do que afinada, mais aguda que grave, e, hoje, acompanhada por rouquidão. Destas sete décadas de vida, há mais de cinco, ele se esgoela por aí. De Minnesota (EUA), onde nasceu, para o mundo.

Nascido em 24 de maio e batizado como Robert Allen Zimmerman, o pequeno Bob cresceu entre judeus de sua comunidade da cidadezinha portuária Duluth. É o cidadão mais famoso dentre seus 80 mil habitantes.

O tempo e as críticas fizeram Dylan amadurecer. Se em 1967, quando Dylan decidiu abandonar o violão e os tradicionais country e folk americanos para aventurar-se por instrumentos elétricos – ele já era um rapaz petulante, pouco amável com jornalistas e fãs ousados –, nos anos 2010, o músico é quase um recluso. Parece pouco se importar com o mundo de nós, mortais. Como os deuses da mitologia grega, quanto mais distante, mais é divino. Ele vive em seu próprio Olimpo.

Para iniciados

O JT assistiu a um show de Dylan em Londres, da mesma turnê interminável, a Never Ending Tour, em 21 novembro do ano passado. Uma performance sua pede um público experiente. É preciso alguma prática para decifrar algumas canções, até as clássicas Like a Rolling Stone ou Highway 61 Revisited.

Ele não é um showman, nem parece se esforçar para isso. Indiferente, ele exibe seu repertório de canções mutantes, pulando do teclado para a guitarra e a gaita. Dirige-se à plateia uma única vez, apenas para apresentar seus companheiros de banda. O chapéu dá um ar de caubói ao seu visual esportivo e casual.

O público londrino não é conhecido por ser muito enérgico, ainda assim, a vibração é contagiante – principalmente quando você percebe que o sujeito ao seu lado acabou de sacar Dylan ouvindo a clássica Desolation Row. O show é rápido e curto, sem o tradicional bis.

Dylan não é dado a seguir as convenções da indústria da música. Naquele show, antes do músico entrar, os falantes anunciaram: “Vocês estão preparados para ver Jesus?”. Não importa a religião ou mitologia, a divindade está ali, em constante mutação.

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