Bob Dylan estreia na China aos 69 anos e sem músicas de protesto

Estadão

07 Abril 2011 | 16h24

EFE

PEQUIM – Foi preciso esperar 50 anos de carreira, mas nesta quarta-feira, 6, Bob Dylan pôde finalmente se apresentar na China comunista, embora sem cantar seus hinos políticos mais famosos, The Times They Are A-changin e Blowin’ In The Wind.

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O veterano Dylan durante apresentação em Pequim

O público de Pequim, no entanto, pareceu não se importar. Vibrou emocionado e respondeu com aplausos, especialmente quando Dylan tocou outra de suas músicas mais populares, Like A Rolling Stone.

Cerca de 10 mil pessoas, aproximadamente 90% da capacidade máxima, assistiram ao histórico show no Ginásio dos Trabalhadores de Pequim, que não via tanta animação desde quando acolheu as disputas de boxe nas Olimpíadas de 2008.

O público, formado em sua maioria por jovens e estrangeiros, também se entusiasmou com outro de seus clássicos, A Hard Rain’s A-Gonna Fall, embora tenha se mostrado um pouco frio no início do show, quando Dylan tocou alguns de seus trabalhos mais recentes.

O artista, que no dia 11 de abril comemorará 50 anos de carreira, preferiu em boa parte da apresentação desviar o centro das atenções para seus companheiros de banda, tocando quase sempre o teclado em uma das laterais do palco, embora em algumas ocasiões tenha prendido o violão no pescoço e lançado mão de sua inseparável gaita, obtendo as mais entusiasmadas palmas do público.

Tudo isso em um cenário austero, no qual a longa sombra do cantor e seu chapéu foram, na maior parte do tempo, a única decoração.

Dylan quase não falou com o público entre as músicas, mas compensou dando o máximo de sua rouca voz em cada canção e pondo a plateia de pé no final da apresentação, algo raro em um país onde en todos os shows o espectadores ficam sentados.

No fim do espetáculo, ao contrário do que aconteceu em sua performance anterior – em Taipé, capital da ilha de Taiwan – Dylan não recitou sua ode contra a guerra, Blowin’ In The Wind. Optou por uma canção sem conotações políticas com a qual se declarou disposto a continuar na estrada por muitos anos: Forever Young.

A ausência de canções como The Times They Are A-changin’, que nos anos 1960 alimentou os sonhos revolucionários ocidentais, faz pensar se a censura chinesa, como ocorreu há meia década com os Rolling Stones, não teria enviado aos organizadores uma lista de canções ‘não permitidas’, embora a pergunta a esta dúvida, como diria Dylan, está pairando no vento.

Contudo, a apresentação do antigo ‘rebelde’, que será repetida dentro de dois dias em Xangai, é um detalhe, embora simbólico, da abertura do país ao exterior, em um momento especialmente difícil para as liberdades no gigante asiático, devido à perseguição e à dissidência elevada com a prisão do mais famoso artista nacional, Ai Weiwei.

O show desta terça-feira, 6, unido a outros apresentados recentemente em Pequim por artistas veteranos como The Eagles, levanta a hipótese de que as autoridades culturais chinesas abandonaram o receio sobre as estrelas de rock estrangeiras gerada depois de 2008, quando a islandesa Björk pediu a independência do Tibete em Xangai.

Dylan, por sua vez, tem nos próximos dias outro evento de grande importância simbólica para sua carreira: um show marcado para o próximo dia 10 de abril em Ho Chi Minh, a antiga Saigon.Será sua primeira atuação no Vietnã, um país cuja guerra foi condenada pela juventude americana enquanto ouvia as canções deste pai do rock alternativo.

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