Blueseiro velho é venerado, mas roqueiro velho é execrado

Estadão

06 de junho de 2011 | 07h15

Marcelo Moreira

A cada visita do astro do blues B. B. King ao Brasil, ele é tratado como um deus vivo, uma lenda, um mito, um super-herói. E não só no Brasil. Aos 86 anos, mesmo debilitado, encanta suas plateias que pagam bem caro para vê-lo. Nada mais justo. Ele é um dos músicos e artistas mais importantes da história.

O mesmo cartaz tinha John Lee Hooker, morto há dez anos, aos 84 anos de idade. Seus shows já ancião tinham aura de espetáculo messiânico, tamanha devoção de seus fãs e admiradores. Também nada mais justo, já que Hooker era a própria personificação do blues. Era venerado por gente como Jimi Hendrix, Jimmy Page, Eric Clapton, Jeff Beck, Keith Richards, Pete Townshend, Ritchie Blackmore, Tony Iommi, Brian May…

Se os músicos de blues e de jazz ainda são venerados aos 70, 80 e 90 anos de idade, porque os astros do rock não podem? Desde sempre ouço essa bobagem, em desde os anos 80.

O mestre B. B. King, mesmo debilitado, ainda toca muito aos 86 anos de idade.

Enquanto gente como B. B. King era tratada como divindade, Mick Jagger e Keith Richards, por exemplo, eram massacrados porque chegavam aos 40 anos de idade cantando “Satisfaction”, mas ainda gravando álbuns com músicas inéditas.

Fizeram trabalhos ruins? Sim, como todo artista e como todo mundo. “Undercover”, de 1984, “Dirty Work”, de 1986, e “Bridges to Babylon”, de 1997, são álbuns fracos, mas “Steel Wheels”, de 1989, e “Voodoo Lounge”, de 1994, são ótimos.

Por que exigir que músicos importantes e superfamosos do rock tenham de se aposentar aos 35 anos de idade, com 15 de carreira? Pois foi essa bobagem que proferiu Morrissey em 1987, pouco antes de a sua fraquíssima banda The Smiths implodir.

“Por que esses caras não somem? Por que eles ficam atrapalhando a vida de todo mundo? Por que não abrem caminho para gente que nova? São velhos que não largam o osso”, vomitou Morrissey na então descolada New Musical Express sobre os Stones.

Pois não é que o mesmo Morrissey não está colocando novo álbum na praça, uma coletânea com os seus maiores sucessos e ainda fazendo shows e locais menores pela Grã-Bretanha? E quantos anos têm Morrissey? Fez 52 no último dia 22 de maio. Que coisa, não?

Morrissey aos 52 anos e ainda na ativa, logo ele que bradou contra os 'velhos' Stones quando estes tinha 40 anos de idade

Essa mania de querer aposentar precocemente astros do rock ganhou corpo nos Estados Unidos nos anos 80 na esteira do movimento punk, então recém-enterrado e na intragável new wave. Só o que era novo era válido.

Até mesmo Ramones, aos dez anos de vida e a todo vapor, era considerada uma banda fora de moda em 1985, que deveria ser varrida para a lata de lixo da história. Esse pensamento idiota impregnou algumas mentes perturbadas que infelizmente escreviam em jornais e revistas de música no Brasil.

Só o que importava eram as tais “novidades”. No final dos anos 80, Eric Clapton, Jeff Beck, David Gilmour, Pete Townshend, David Bowie, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, Yes, Jethro Tull, Genesis, Jimmy Page, Dire Straits, Queen e muitos outros eram considerados lixo, coisa ultrapassada.

Jeff Beck em ação em Nova York, em outubro passado ( FOTO: REUTERS/Lucas Jackson UNITED STATES ENTERTAINMENT)

Eram então tempos “gloriosos” para porcarias como Sonic Youth, Pixies, Primal Scream, Happy Mondays, Housemartins, Jesus and Mary Chain e coisas parecidas, consideradas “mudernas”, de “vanguarda”.

A maioria delas não passou do terceiro álbum e sumiu sem deixar nenhuma saudade. Sonic Youth sempre ficou relegado ao underground, de onde nunca sairá, para nossa sorte – mas que, com 25 anos de carreira, tem todo o direito de continuar tocando por aí e lançando discos.

O que diriam hoje os idiotas que em 1989 chamavam os Stones de dinossauros a respeito dos 25 anos de carreira do Sonic Youth, com o guitarrista e vocalista Thurston Moore passando dos 50 anos de idade?

Essas bandas sumiram, assim como a imensa maioria das bandas punk e grunge, e os “dinossauros” continuam por aí, lotando estádios pelo mundo e mantendo-se no mercado com material inédito.

Fazem porcarias? Provavelmente sim, mas são porcarias um zilhão de vezes melhores do que a melhor coisa gravada por Radiohead ou Coldplay, por exemplo. Querer colocar prazo de validade em músicos de rock é uma das coisa mais estapafúrdias que existe.

Paul McCartney em show no Chile (EFE/Claudio Reyes)

Sorte do mundo que ainda tenhamos Paul McCartney tocando muito bem no Rio de Janeiro, assim como tivemos Iron Maiden mandando ver em turnê com ingressos esgotados no Brasil – idem para AC/DC, Rush, U2, Jeff Beck, Ian Anderson, Helloween, Rob Halford, U.D.O., Aceept e muitos outros.

Enquanto qualquer festivalzinho moderninho e com a bandeira da sustentabilidade sofre para reunir 30 mil testemunhas, dinossauros como U2, Stones, Paul McCartney, AC/DC, Rush e Iron Maiden, vendem 80 mil ingressos em poucas horas.

Impor prazo de validade a artistas não só é insano como é burro. A realidade sempre insiste em desmentir esse tipo de postura.

The Who em ação no Superbowl 2010, a decisão do Campeonato de Futebol Americano. A banda, reduzida a Pete Townshend e Roger Daltrey, continua na ativa 47 anos depois de sua criação, lotando arenas pelos Estados Unidos e Europa; O último trabalho com músicas inéditas, "Endless Wire", é de 2006 e é zilhões de vezes melhro do que 99% dos trabalhos de bandas novas deste século. Assim como B. B. King, que fiquem nos palcos até os 80 anos de idade.

Os Rolling Stones completam 50 anos de atividade ininterrupta em 2012. Assim como o Who, continuam lotando arenas no mundo inteiro. Cada show não sai por menos de US$ 5 milhões de cachê só para a banda. Os lançamentos com músicas inéditas estão cada vez mais espaçados, mas isso não importa. Assistir a um show dos Rolling Stones é zilhões de vezes mais prazeroso do que ver dois minutos de porcarias como White Stripes, Arcade Fire, Muse ou qualquer dejeto que toque em festivais moderninhos de "sustentabilidade" que andam infestando o Brasil ultimamente

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