Blueseiro brasileiro trabalha, e não reclama como os metaleiros

Estadão

25 de julho de 2011 | 07h00

Marcelo Moreira

O guitarrista Igor Prado é um cara simples, simpático e comunicativo. No palco é um exemplo de músico compenetrado e executa muito bem o que se propõe com a sua banda, a Igor Prado Blues Band. Não só gosta do que faz, mas faz questão de demonstrar que gosta do que faz.

Em uma quarta-feira perdida no meio da década passada, ele e sua trupe faziam o melhor blues em uma pizzaria lotada em São Bernardo do Campo, no ABC, apesar da barulheira da conversação e de altos brados de pelo menos duas festas de aniversário. Nada disso importou. Seu blues era de boa qualidade e contagiou expressiva parte do público.

Ao final do show, me aproximei e perguntei como estavam as coisas em termos profissionais, já que ele acabara de lançar novo CD. Resignado, mas de modo algum em tom de lamento, respondeu solícito: “Estão caminhando. Para nós do blues só resta trabalhar mais e mais. O maior reconhecimento é ver o público nos aplaudir, seja onde for. Já é bastante coisa.”

Essa é uma característica comum entre todos os blueseiros do país. Trabalhar muito e duro dentro de sua paixão. Reclamação? Quase não se ouve. Parece que os caras não têm tempo para isso.

“Tocar é fundamental, independentemente do que toca no rádio ou do que está bombando na TV e na internet. Cada um tem a sua recompensa, desde que se trabalhe bastante”, diz Nuno Mindelis, artista-símbolo do estilo no país, ao lado de Blues Etílicos e André Christóvam.

Mindelis é um guitarrista respeitado no cenário internacional e construiu sua carreira com muita dedicação e muito sacrifício. “Cansei de sair de show e ir direto para o trabalho. Levava uma muda de roupa, no carro, estacionava o carro e dormia ali mesmo por uma hora, uma hora e meia antes de assumir o batente. Foram tempos difíceis e exaustivos, mas ajudaram a me tornar o que sou hoje.”

Toda essa introdução para fazer uma pergunta simples, mas provocativa: por que alguns dos nomes mais estrelados do heavy metal nacional choramingam de tempos em tempos por causa da suposta “falta de apoio” do público e do mercado musical e da “falta de espaço” para tocar, enquanto não se ouve nada parecido em relação aos blueseiros?

É evidente que não dá para dizer que os músicos do metal não trabalham – trabalham e muito. A questão é a choradeira. Perdem tempo precioso reclamando da vida quando deveriam estar ralando mais e mais. Foi assim com o os gaúchos do Krisiun e está sendo assim com o Torture Squad e com o Hangar.

Os bluesmen do Brasil são exemplos de persistência e de postura de como encarar a carreira musical, independentemente do estágio em que estejam.

Não se trata de analisar aqui quais são as perspectivas de cada um ou de quão longe vai a ambição dos músicos de cada gênero. É questão de louvar a capacidade de trabalho de quem optou pelo blues e a sua persistência, sempre em silêncio, trabalhando cada vez mais.

Os blueseiros não reclamam de falta de espaço. Conseguiram o deles, que está sendo mantido, e, de certa forma, ampliado de forma lenta. Para os metaleiros que ainda reclamam de falta de união, de apoio do público e de espaço, o exemplo está bem pertinho: Nuno Mindelis, Igor Prado, Adriano Grineberg, Flávio Guimarães, Róbson Fernandes, Marcos Otaviano e muito mais gente que trabalha em silêncio, mas mantém vivo o blues nacional.

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