Blues Etílicos resiste e em alto nível

Estadão

05 de novembro de 2012 | 07h05

Marcelo Moreira

O blues brasileiro ganhou evidência de uma maneira de certa forma improvável em meados dos anos 80: um guitarrista com nítidas influências roqueiras e uma graduação no Guitar Institute de Los Angeles, mas que tocava em uma banda totalmente pop, mas que decidiu lançar um álbum de blues nacional, de muito bom gosto, mesclando letras em inglês e português.

André Christóvam fez parte, entre outras, da banda Kid Vinil & os Heróis do Brasil – Vinil integrou o Magazine, que estourou com os hits “Eu Sou Boy” e “Tic Tic Nervoso”. Mas sua praia era mesmo o blues, e se tornou referência para toda uma geração, principalmente quando gravou “Mandinga”, de 1989.

Na cola do paulistano Christóvam veio o Blues Etílicos, impulsionando ainda mais o gênero no Brasil. Se o guitarrista paulistano inaugurou uma cena interessante por volta de 1985 e 1986, o Blues Etílicos embarcou na onda e gravou primeiro, o ótimo “Blues Etílicos”, que completa 25 anos de seu lançamento neste ano.

“É difícil falar em marco do gênero, por mais distanciado que estejamos, mas não há dúvida de que foi um trabalho importante. Foi um dos primeiros discos de blues genuíno feito por artistas brasileiros”, afirma Flávio Guimarães, gaitista, vocalista e um dos fundadores da banda carioca.

A estreia do grupo em vinil (na época) causou certo estranhamento, mas logo ganhou espaço em emissoras importantes de rádio, como a 97FM, de Santo André (SP), e a rádio Fluminense, no Rio de Janeiro, em seus últimos momentos de linha editorial roqueira e alternativa.

Blues Etílicos

O primeiro álbum do Blues Etílicos ganhou um público e certa repercussão justamente porque tinha uma pegada mais roqueira. Músicas interessantes como “O Sol Também Me Levanta”, “Estudo em Vermelho” e “Auto-Suficiência” têm guitarras nervosas e um baixo pulsante, e são mais aceleradas do que o tradicional blues que as pessoas esperavam.

Nos clássicos revisitados, como “Key to the Highway”, o quinteto mantém a reverência ao estilo, mas adiciona elementos bem brasileiros, cortesia, em grande parte, do guitarrista e vocalista Greg Wilson, um norte-americano de alma bem carioca.

“Não tem como não destacar: Greg sempre foi um trunfo nosso, cantava blues sem sotaque e com pronúncia perfeita em inglês, e ainda adicionava um suingue brasileiro bem característico. Deu muito certo”, diz Guimarães.

O gaitista evita o saudosismo, fala com carinho dos anos 80 e 90, o pico de popularidade de artistas brasileiros do gênero, mas é bem crítico ao analisar o mercado a partir dos anos 2000. “A cena estava legal, muitos artistas de qualidade tocavam e gravavam no exterior, como André Christóvam e o Nuno Mindelis, o Blues Jeans, do Marcos Ottaviano, lotava as casas onde tocava, assim como o Big Allanbik, entre outros. Só que houve um esgotamento. Muita gente entrou no blues sem grandes ambições, quase como um hobby, e isso contribuiu para uma caída. Muita banda ruim ocupou parte expressiva do espaço em bares e casas noturnas, o que afastou o público.”

Mas o Blues Etílicos não tem do que reclamar: faz em média 60 shows por ano – o roqueiro Nasi (ex-Ira!), por exemplo, na ativa e com boa estrutura na carreira, faz cerca de 80 – e é uma banda frequente e cativa nos principais festivais de jazz e blues do país.

E Guimarães reconhece a importância de uma entidade na manutenção de uma carreira importante para artistas que têm um trabalho sério e de qualidade: o Serviço Social do Comércio (Sesc), vinculado às Federação do Comércio de cada Estado. “O Sesc salvou a música brasileira de qualidade por conta de sua programação eclética e democrática, além de uma visão de cultura condizente com a importância que o setor exige. A administração é competente, sobretudo em São Paulo. A política de escolha de artistas é transparente, há critérios bem definidos na hora de definir a agenda. E nós nos beneficiamos disso.”

Flávio Guimarães

 

O último CD foi “Viva Muddy Waters”, de 2007, e a banda já está reunindo material para um próximo trabalho inédito a ser gravado e lançado no primeiro semestre de 2013. Mas a agenda está cheia, pois o quinteto pretende continuar as comemorações dos 25 anos do primeiro lançamento.

Também vai tomar certo tempo as negociações para definir para breve o relançamento do DVD “Live at the Bolshoi Pub”, gravado em Goiânia, e dos álbuns “Água Mineral” (1989) e “San-Ho-Zai”(1990), considerados pela crítica como os pontos altos do grupo.

Ao mesmo tempo, Flávio Guimarães finaliza os trabalhos de seu próximo álbum solo, que deve sair pela Substancial Music ainda em 2012. “O trabalho que esta empresa está realizando resgatar álbuns importantes de artistas nacionais é estupendo, além de apoiar novos projetos, como o do André Christóvam, que está prestes a sair (“André Christóvam Trio Live in POA with Hubert Sumlin” será lançado ainda em outubro). A música de qualidade ainda tem bom público no Brasil.)

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