Black Sabbath no topo em reunião de fúria experiente

Estadão

23 de junho de 2013 | 22h13

ROBERTO NASCIMENTO – O Estado de S.Paulo

Muito respeito merece o Black Sabbath pelo que se ouve no disco 13, o primeiro com quase toda a formação original – Ozzy, Tony Iommi e Geezer Butler – em mais de 30 anos. Desde 2011, quando anunciaram turnê e novo álbum, Iommi, o lendário guitarrista do grupo, vem lutando contra um linfoma. O grupo abdicou de shows e gravações com o baterista Bill Ward, da primeira encarnação do Black Sabbath, por causa de uma disputa judicial.

Transcendeu até o desespero dos fãs com a notícia de que o disco seria gravado com Brad Wilk nas baquetas, músico do Rage Against the Machine e do Audioslave. Entretanto, os obstáculos parecem ter unido os veteranos do Sabbath, que passa pelo Brasil nos dias 9, 11 e 13 de outubro (o show em São Paulo está esgotado), e o resultado surpreende.

 Ozzy Osbourne - JF Diorio/ Estadão

JF Diorio/ Estadão – Ozzy Osbourne

Trata-se de um disco sólido, que chegou nesta quarta-feira ao primeiro lugar do Top 200 da Billboard (a primeira vez na história da banda), e tem momentos dramáticos equilibrados com peso despretensioso, curtido na considerável quilometragem dos três heróis do heavy metal.

13 é uma espécie de reformulação de qualidades distintas do Sabbath. Ecoa, principalmente, a escuridão arrastada com que a banda entrou para história, ditando os parâmetros do heavy metal em álbuns como Paranoid e Sabbath Bloody Sabbath, dos anos 70.

A idade e os excessos cometidos pelos músicos em outros tempos favorecem o aspecto enrugado do som, da mesma forma que um bluesman aprimora seu estilo com o passar dos anos. Ozzy e cia. são dinossauros do metal, mas poderiam ser múmias ou zumbis, pela lentidão mórbida com que conseguem imbuir uma faixa. Transformam a própria velhice em devaneios decrépitos e contagiantes, raramente alcançados por bandas menos experientes.

Cinco das oito faixas de 13 passam da marca dos sete minutos. Sugerem, em partes, tons de drone metal, o subgênero que surgiu da influência do próprio Sabbath em bandas alternativas no fim dos anos 80 (ouça Earth). Mas isto é apenas um lado do som Sabbathiano. 13 traz também riffs agitados, na onda de Paranoid ou War Pigs.

Ao centro do magnetismo veterano do disco está Ozzy Osbourne, que depois de todos estes anos ainda canta como se tivesse pesadelos existenciais, como se ainda trilhasse no limiar entre a loucura e a realidade sugerido por Paranoid.

Em God Is Dead?, Ozzy consegue colocar terror em letras que outros sexagenários jamais executariam com tal contundência. “De dentro da minha tumba, eu surjo da escuridão. Agora o meu corpo é o meu templo”, canta. Na página pode parecer um diálogo de um filme do Zé do Caixão, mas Ozzy acredita na catarse de seus demônios através do terror, e isto faz com que nós acreditemos nela.

O cantor declarou esta semana que passou os últimos 18 meses perdido em uma orgia de drogas e álcool. O motivo seria a notícia do linfoma de Tony Iommi. “Estava em um lugar muito escuro e fui um c… com a minha família. No entanto, estou feliz de poder declarar que estou sóbrio há 44 dias”, disse, em sua página do Facebook, além de declarar que seu casamento de 31 anos também voltou ao normal.

Portanto, o que transparece no som da voz são dramas de consciência de um cantor que ainda tem recaídas com o vício em drogas, uma oscilação justificada pela fúria sombria que ainda conseguem alcançar juntos no estúdio. Talvez seja egoísta do ponto de vista dos fãs, mas é provável que 13 não seria um disco tão bom se Ozzy estivesse confortável e satisfeito com sua vida familiar de reality show.

Vide Damaged Soul (alma danificada), um blues viçoso em que a guitarra de Iommi e os lamentos de Ozzy culminam em catárticas interjeições de uma harpa. É a melhor performance do guitarrista no disco, e seu instrumento lembra o som debulhado dos amplificadores estragados que o grupo usava no início. Tira-se o chapéu, especificamente, para a profusão de riffs que costura as diversas partes da faixa antes de enveredar por uma jam session. É o mais próximo que um grupo que não toca junto há 35 anos consegue chegar, e faz de 13 um disco excelente, considerando as expectativas e a raridade de um disco do Sabbath.

O sucesso deve-se, em parte, a Rick Rubin, o fundador do histórico selo de hip hop, Def Jam, e produtor de discos históricos. O prolífico Rubin é elogiado por ressuscitar o som inicial de bandas veteranas como Metallica e Aerosmith, e parece ter obrigado o Sabbath a fazer a lição de casa: gravações do tempo em que ainda eram uma banda pequena em Birmingham sem dúvida reacenderam uma macabra chama na alma do trio.

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