Black Sabbath ensurdece São Paulo em apresentação de gala

Estadão

13 de outubro de 2013 | 18h35

Marcelo Moreira

Fotos: Luciano Piantonni

Os portões do inferno foram abertos e 70m mil atenderam ao chamados sinos das profundezas. E o mestre de cerimônias teve certeza de que ele e seus comparas estavam fazendo história. Desde o magnífico concerto de estreia do Rush no Brasil, em 2001, no estádio do Morumbi, que a capital paulista esperava por outro evento de tamanha importância. O Black Sabbath com Ozzy Osbourne superou até mesmo a fantástica aparição do AC/DC de 2008.

Tempo maravilhoso, milhares de fãs e praticamente nenhum problema. Tudo que o local não era o mais indicado: por mais que tivesse acesso fácil por metrô e ônibus, além de avenidas importantes nas cercanias, a parte desolada do aeródromo Campo de Marte, na zona norte, mostrou-se praticamente um pasto. Terreno irregular e esburacado, muito espaçado na largura, prejudicou os fãs que ficaram ao fundo e nas extremidades laterais, que sofreram com o som baixo e às vezes ruim. Celular? Esqueça, não funcionaram, já que o aeródromo funcionou normalmente até as 22h, o que acionou bloqueadores de sinal.

O público que lotou o Campo de Marte relevou todas as condições ruins, incluindo os banheiros insuficientes. O clima era de êxtase profundo, com todos, sem exceção, com a exata noção de que o evento era histórico, provavelmente o último grande show de rock do nosso tempo – The Who não virá à América do Sul, assim como o Van Halen não voltará ao Brasil.

A banda de Birmingham, que praticamente criou o heavy metal, sabia o que estava por vir. A abertura do Megadeth foi uma pequena amostra do gigantismo do evento, assim como do fanatismo do público exigente, mas extremamente ansioso por ver pela primeira vez o Black Sabbath no Brasil – para muitos, as duas vezes anteriores não contam, já que em 1992 a formação incluía Dio nos vocais e Vinnie Appice na bateria, enquanto que dois anos depois Bill Ward estava de volta às baquetas, mas o eterno estepe Tony Martin era o vocalista.

O que ninguém esperava era que o Black Sabbath com Ozzy iria entregar muito mais do que supostamente havia prometido. Qualquer adjetivo para descrever a qualidade da apresentação é insuficiente. Precisão, peso, inteligência, técnica impecável, profissionalismo extremo, perfeição. Qualquer um serve. E pensar que os shows na América do Sul deixaram o baixista Geezer Butler e o guitarrista Tony Iommi nervosos e ansiosos, justamente pela importância que os shows por aqui adquiriram, segundo declarações dos próprios músicos.

Mesmo para uma banda veteraníssima, e com a importância que tem para a história da música, espantou o nível de profissionalismo do quarteto. Extremamente concentrados, os músicos pareceram perceber a dimensão que os shows do Black Sabbath tomaram no Brasil e entregaram algo sublime. A tensão do início deu lugar rapidamente à segurança de quem sabe o que faz e sabe que faz de forma única e inigualável.

Os primeiros acordes de “War Pigs” provocaram um terremoto. Esbanjando uma vitalidade impressionante, Ozzy interpretou-a de forma épica, acompanhado por 70 mil vozes ensandecidas. Só com essa primeira música o ingresso já tinha valido a pena. Aparentemente mais relaxado que os companheiros, o vocalista fez as micagens e brincadeiras de praxe, mas demonstrou de forma inequívoca que estava curtindo demais estar ali. Iommi e Butler também, especialmente o guitarrista, que atacou solos imprevistos e de extremo bom gosto. Quem o conhece sabe que isso só ocorre quando ele está satisfeito. Sorte dos paulistanos.

Depois do megahit que estremeceu o Campo de Marte, o quarteto transportou o público para a primeira metade dos anos 70 apostando em “velharias” mais do que clássicas. “Under the Sun”, “Snowblind” e “Into the Void” fizeram a alegria dos fanáticos, mas impressionaram muito bem os mais jovens não tão versados na obra dos reis do metal. Pesadas e precisas, mostraram o perfeito entrosamento da banda e tornaram o show paulista inesquecível e inigualável.

A quinta música, “Age of Reason”, foi a primeira das três do último álbum, “13”, a ser executada. A animação no Campo de Marte era geral, mas a canção foi recebida friamente, assim como mais tarde ocorreu com “The End of Beginning”. Somente “God Is Dead?”, o maior hit do CD, teve uma recepção à altura.

Os anos 70 voltaram com tudo quando a introdução de “Black Sabbath”, com seus efeitos sinistros de mau tempo encheram as enormes caixas acústicas. Era o ápice de quem esperou por 45 anos ver ao vivo os mestres executarem ao vivo a canção que definiu um estilo musical. Ozzy esbanjou carisma e bancou o mestre de cerimônias que lavou a alma dos servos petrificados e extasiados com a execução do megaclássico.

“Behind the Wall of Sleep” e “Fairies Wear Boots” surpreenderam novamente, já que são faixas dos dois primeiros álbuns, ambos lançados em 1970, que jamais tinham sido executadas no Brasil, e que pouco frequentaram o repertório dos shows desde 1980. Os fanáticos foram ao delírio, já que os “velhinhos” desenterraram músicas históricas.

O solo de baixo de Butler, altíssimo e pesado, deu a deixa para a igualmente pesada e superclássica “N.I.B.”, cantada por todos, inclusive a parte instrumental. A precisão e a concentração dominavam os músicos, que emendaram “The End of the Beginning” e, antes do solo de bateria, uma pequena intro relembrando outra preciosidade do catálogo estrelado do Sabbath, a mítica “Rat Salad”.

Sobre Tommy Clufetos, o baterista que substitui Bill Ward, que ficou de fora da reunião por questões financeiras e contratuais, é necessário dizer que o cidadão é um monstro de seu instrumento.

Técnico ao extremo, preciso e detalhista ao extremo para reproduzir cada batida e cada virada que as músicas exigiam, o titular das baquetas da banda solo de Ozzy Osbourne impressionou a plateia o tempo todo, e mais ainda em seu longo solo, que permitiu aos velhinhos um pequeno descanso. Clufetos mostrou qualidade, mas os mais exigentes não deixaram de perceber: Bill Ward faz falta, e muita.

O baterista original, com seu background de jazz e blues, praticamente reinventou a maneira de soar pesado no rock, absorvendo a influência do amigo e conterrâneo de Birmingham John Bonham (Led Zeppelin) e do mago Ginger Baker (Cream). Enquanto Clufetos reproduziu com eficiência as músicas e mostrou muita qualidade, nos clássicos tão conhecidos faltaram a sutileza e a versatilidade de Ward, um músico dos mais criativos e de muitos recursos. Há coisas que são impossíveis de serem reproduzidas. Assim como ninguém será capaz nem de chegar perto da genialidade de um Ian Paice (Deep Purple), na bateria, ninguém conseguirá reproduzir a fantástica batida de Bill Ward.

O final do show reservou mais surpresas e coroou aquela que possivelmente será considerada uma das cinco maiores apresentações de rock já ocorridas em território brasileiro. “God Is Dead?” agitou bastante o público após o solo de bateria, aquecendo a banda e o público para o megahit “Iron Man”, em uma performance destruidora e pesadíssima – um som tremendo, precioso, gigante, deixando para trás qualquer tipo de comparação com outras bandas.

Ozzy novamente encarnou o mestre insano de cerimônias e levou o público à catarse total. E pensar que artistas como o estupendo Bruce Springsteen, em seu show maravilhoso de São Paulo, no Espaço das Américas, dias antes, colocou 17 músicos no palco e nem de longe conseguiu extrair algo parecido com o que o Black Sabbath tirou no Campo de Marte. Nem mesmo os monstros do Iron Maiden foram páreo em seus três shows recentes no Brasil.

“Dirty Women” veio em seguida e foi mais uma das antigas que satisfizeram os egos dos nerds sabáticos, mas que deu uma esfriada na galera. Mas parece que foi calculado, pois em seguida veio o fechamento do set normal com um verdadeiro hino do rock pesado, a gloria “Children of the Grave” e sua introdução colossal com baixo e guitarra cavalgando furiosos para demolir o que restou de tímpanos em São Paulo.

Por mais que parte expressiva do público acompanhe as listas de músicas que são tocadas nos shows das turnês – e que quase não mudam -, é sempre um choque escutar uma música grandiosa que não é executada com frequência, e que muitas vezes acaba se tornando sinônimo de heavy metal para fãs extasiados. Um gran finale mais do que adequado, mostrando que o show do Black Sabbath foi tudo o que se se esperava e muito mais. O bis com a obrigatória “Paranoid”, com a introdução de “Sabbath Bloody Sabbath”, foi o bônus perfeito em uma noite perfeita de um dos eventos mais importantes já ocorridos na história da música neste país.

Quem esperava por uma apresentação de uma hora e meia se espantou com as duas horas de espetáculo. Iommi e Butler mostraram que são mestres no ofício e que a reunião, ainda que sem Ward, foi a atitude certa para, quem sabe, coroar com êxito uma carreira de 45 anos em que a banda praticamente criou um subgênero musical.

O Ozzy aparvalhado de algum tempo atrás e que exibe bandeira do Brasil em Buenos Aires como se fosse a coisa mais normal do mundo ficou no hotel e nas imagens pouco lisonjeiras do seriado “The Osbournes”.

O que vimos no palco foi um vocalista que cumpriu bem o seu papel aos 65 anos de idade e com um histórico de abusos inacreditável. Ozzy correu, se movimentou e cantou muito bem, além de se mostrar um líder de banda fenomenal no palco, com domínio total sobre o público. Só o carisma do vocalista seria suficiente para conduzir uma apresentação genial, mas ele foi além de comandou um verdadeiro espetáculo. Muita gente saiu do Campo de Marte dizendo que demoraria bastante para que as pessoas entendessem o que realmente tinha acontecido ali. Uma imagem perfeita para exemplificar o poder mágico dos criadores e definidores do rock pesado.

Lista de músicas

War Pigs
Into the Void
Under the Sun
Snowblind
Age of Reason
Black Sabbath
Behind the Wall of Sleep
N.I.B.
End of the Beginning
Fairies Wear Boots
Rat Salad / Drum Solo
Iron Man
God Is Dead?
Dirty Women
Children of the Grave

Bis:
Paranoid
(Sabbath Bloody Sabbath Intro)

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