Black Country Communion: muita classe em possível despedida

Estadão

13 de novembro de 2012 | 17h00

Igor Miranda – publicado originalmente nos sites Van do Halen e Whiplash

Enfim, o novo trabalho do Black Country Communion. E, pelo o que parece, será o último. O supergrupo andou tendo alguns desentendimentos – para ser mais específico, entre Joe Bonamassa e Glenn Hughes. Enquanto Hughes afirma que quer um projeto em que os integrantes o levem de forma exclusiva, Bonamassa continua se dedicando à sua carreira solo, deixando a banda estacionada em alguns momentos. Em vários momentos, o frontman deu a entender que Afterglow fecha a discografia da banda.  

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O fato é que o quarteto preparou um trabalho formidável. Afterglow mantém a essência dos dois registros anteriores, mas tende para o Hard Rock direto dos anos 1970. O Led Zeppelin deixou de ser a influência princpal para que bandas como Bad Company, Mountain e Deep Purple (MK II) também deixassem sua contribuição moral no trabalho.

 Há outra diferença notável entre Afterglow e os álbuns lançados anteriormente. Aqui, os riffs orientam as canções, ao invés das canções orientarem os riffs. Ao meu ver, isso interferiu bastante na performance dos integrantes. A banda se mostra muito mais confortável e entrosada. Grandes músicos nem sempre conseguem realizar grandes uniões, mas aqui está um caso raro de experiência, técnica e química completamente aliadas.

“Big Train” tem um início truncada. Logo a faixa de abertura se revela um Hard Rock malandro e de qualidade. Tem até um momento melódico em seu meio, acentuado pela presença de Derek Sherinian. Mas em sua integridade, se trata de uma paulada. “This Is Your Time”, mais cadenciada, segue com um bom riff com linhas de guitarra e baixo sincronizadas. O refrão, grudento, é potencializado pela exuberante interpretação vocal de Glenn Hughes. Não dá pra acreditar que, aos 61 anos, ele tenha preservado sua voz tão bem. “Midnight Sun” é a cara do Hard Rock setentista. Tem uma visceralidade notável. Hughes aumenta o tom de sua voz e solta invejáveis berros em toda a canção.

“Confessor”, mais acelerada, tem um verdadeiro disparo de bons riffs. Joe Bonamassa, endiabrado, dá o comando instrumental aqui. Jason Bonham, cujo DNA atesta competência, também brilha. O refrão, que é metade coro e metade berro, é puro Rock n’ Roll. “Cry Freedom” é um Blues Rock genuíno. A presença de Derek Sherinian nessa canção é decisiva para dar o clima, mas também vale destacar a fluência de Joe Bonamassa para tocar Blues. Um dos maiores destaques até aqui. A faixa título tem a cara dos dois trabalhos anteriores. Aqui, a influência do Zeppelin toma conta: há uma certa complexidade na composição que remete ao renomado quarteto britânico.

“Dandelion” engana: parece que vai colocar o pé no acelerador novamente, mas o ritmo logo cai. Mas depois volta frenética. Daí cai, volta e por aí vai. Canção dinâmica, que alia tanto a faceta melódica dos registros anteriores quanto a cara roqueira explicitada aqui. A balada “The Circle” tem show particular de Glenn Hughes nos vocais, mas todos os integrantes brilham, só pra variar. Em “Common Man”, Joe Bonamassa divide os vocais com Hughes. Jason Bonham se mostra, mais uma vez, um grande baterista. Encarna o pai com uma pitada de Neil Peart.

“The Giver” é uma balada menos zeppeliana. Ou seja, tem uma cara mais comercial. A progressão melódica parece acariciar os ouvidos – muito dessa suavidade se dá pelo brilho de Derek Sherinian, mais destacado neste álbum do que nunca. “Crawl”, truncada e com um peso intrínseco de forma sedutora, fecha o trabalho com maestria. Destaque para o momento solo de Bonamassa. O guitarrista é realmente diferenciado.

Só o tempo dirá se o imbróglio vivenciado nas últimas semanas realmente findará o Black Country Communion ou se é apenas um drama. Se Afterglow for o bota-fora do quarteto, foi feito com classe, de forma impecável. Fechará o ciclo de quatro grandes músicos com chave de ouro. Se não, os fãs ficam no aguardo de um trabalho tão bom – ou até melhor – do que esse.

 

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