Bjork: arte e tecnologia em desafio lúdico

Estadão

03 Setembro 2011 | 16h01

Roberto Nascimento – O Estado de S.Paulo

A fusão entre arte, música e high tech em Biophilia, novo disco de Björk, tem múltiplas faces. É o primeiro disco aplicativo, disponível para iPad e iPhone e, de acordo com a cantora, fácil de piratear para outras plataformas. Traz novas possibilidades para o modo com que um artista pode se relacionar com o seu fã e novas ideias na área de educação musical.

Inez Van Lamsweerde e Vinoodh Matadin /Divulgação
FOTO: Inez Van Lamsweerde e Vinoodh Matadin /Divulgação

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Além dos túneis de Crystalline, em que o ouvinte busca colecionar cristais e transformá-los em estruturas complexas – uma bela sacada de Björk para mostrar como formas musicais se encaixam e crescem com a progressão de uma música -, há outras funções com viés lúdico. A canção Cosmogony traz uma animação que mostra como as notas da canção interagem no espectro entre o agudo e o grave.

A música Virus (a ser lançada) ilustra por meio de um jogo como frases musicais se multiplicam, como um vírus entre células. “Estou tentando descobrir, em 2011, qual o ponto mais simples em que música, tecnologia e natureza se encontram”, disse Björk, em junho, em entrevista à rádio BBC.

A ideia de visualização musical integra a parte educativa do projeto, que terá sequência durante as turnês do disco, nas quais, durante 3 anos, Bjork pretende passar dois meses em cada cidade, tocando em casas de show pequenas e pouco conhecidas.

Junto aos shows, a cantora quer reunir grupos de 30 crianças para que possam aprender, por cinco dias, sobre os elementos que compõem as músicas, com o auxílio de professores. “Procurei trabalhar com escalas, ritmos, acordes. Cada uma das músicas do disco aborda um desses elementos e os ilustra sempre da maneira mais simples possível para ensinar às crianças como música pode ser algo físico, tátil, em vez de teórico”, completou a cantora.

Biophilia é a readaptação de uma ideia que Björk trabalhou no álbum Volta, de 2007. Na época, cantora fazia turnê com um aparelho chamado Lemur, que representava sua música visualmente para que fosse remixada, passando os dedos pela superfície da tela.

Ela havia deixado de lado as ideias high tech durante a gênese de Biophilia, e queria traduzir a experiência de cada música para uma sala em uma casa na Islândia, sua terra natal. Mas a ideia logo virou o projeto de um filme 3D dirigido por Michel Gondry, que não teve tempo.

Com o lançamento do iPad, a ideia dos quartos voltou e a cantora pensou em adaptá-los a pequenos aplicativos que fossem unidos por um sistema interestelar, por onde o usuário navega em busca de cada música. A ideia de integrar música, tecnologia e natureza foi inspirada no best-seller Musicophilia, de Oliver Sacks, que investiga a forma com que o ser humano se relaciona com a música.

O appeal financeiro de Biophilia, numa época em que poucos ainda pagam pela música que escutam, é óbvio: o novo formato pode trazer o fã de volta ao mercado. “Do jeito que as coisas andam, com a indústria em colapso, isso parece ser a única saída. Eles já tentaram de tudo”, conta Snibbe.

 “Quando nos encontramos, Björk já tinha uma boa ideia do que queria. Ela nos deu as diretrizes e liberdade para criar o que quiséssemos”, conta. “Ela está mais interessada em educação do que percepção musical. Por isso a faceta lúdica de Biophilia.” As raízes desta tendência estão na infância de Björk, quando a cantora estudou piano e teoria em um conservatório de Reykjavik.

Na época, aos 11 anos, discutia com o diretor da escola sobre como abordar o ensino musical, declarando que era necessário haver mais prática, menos teoria e transformar a escola em um lugar para que instrumentistas pudessem encontrar sua própria voz, em vez de estudarem longas horas para algum dia talvez integrarem uma orquestra profissional.

O diretor a chamava para discutir o currículo, mas não deu o braço a torcer. No entanto, a determinação para criar fora dos moldes permaneceu e Björk chegou à fama, primeiro com a banda Sugarcubes, depois em carreira solo.

Alcançou a glória cinematográfica ao receber o prêmio de melhor atriz no festival de Cannes, em 2000, por seu papel em Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. Biophilia é seu sétimo disco. Ao todo, já vendeu 20 milhões de cópias. Seu conceito pode representar, como o 3D fez para o cinema nos últimos anos (e deixado de fazer recentemente) uma forma de aumentar a receita.

 

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