Beatles na versão do Duofel

Estadão

02 de novembro de 2011 | 06h35

Lauro Lisboa Garcia

A linguagem dos Beatles é universal, a da música instrumental também. Unindo o oportuno ao prazeroso e o novo ao consagrado, a dupla de violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno, que formam o Duofel, foram para Liverpool tocar no Cavern Club, onde a beatlemania começou, realizando um “sonho de adolescente”.

 O resultado pode ser visto no DVD Duofel Plays The Beatles Live (Finemusic), que a dupla lança com show grátis no domingo no Centro Cultural São Paulo.

Desde a gloriosa década de 1960, os brasileiros, como no restante do mundo, se aventuram a reinterpretar o cancioneiro dos Fab Four. Os resultados ficam entre o inventivo – caso de Os Sambeatles, do pianista Manfredo Fest, e de Beatles’n’Choro, série idealizada por Renato Russo e produzida por Henrique Cazes –, o divertido (Os Britos) e o bizarro, que vem desde as versões em português na época da jovem guarda, até o recente Zé Ramalho Canta Beatles. “Acho a maioria muito ruim”, diz Luiz Bueno.

No caso do Duofel, ele tem uma longa história para contar, que vai além do fato de ter decidido ser músico logo que ganhou do pai o primeiro disco de John, Paul, George e Ringo.

“Com essa mudança brutal no mercado da música, os primeiros a ser atingidos foram os instrumentistas, pelo novo paradigma de vida, pelas novas possibilidades do mundo virtual. Com a queda de vendas de discos, hoje está todo mundo fazendo tudo de graça, primeiro para aparecer, para depois tentar emplacar e fazer alguma coisa”, observa.

“As salas de espetáculos, os grandes espaços começaram a se esvaziar para a MPB. E a música instrumental, que sempre teve um segmento à parte, sofreu muito com isso também”, prossegue. Apesar disso, Melo e Bueno, que tocam juntos há 32 anos, mantiveram um público cativo. A dupla recebeu propostas de pelo menos três gravadoras pequenas para gravar um CD tocando Beatles.

Isso para eles era algo muito distante, embora já tivessem recriado Norwegian Wood em 1999. Três anos atrás, quando completaram 30 anos de dupla, fizeram uma enquete entre os fãs, perguntando o que eles queriam de presente, “já que são eles que mantêm a gente”. A sugestão foi Beatles.

Antes do CD veio uma temporada de grande sucesso no bar Ao Vivo Music, em São Paulo. “Aí percebemos uma coisa, que havia muito tempo estávamos procurando, mas não conseguíamos: como juntar pessoas novas no nosso som. Duos de violões são muito estigmatizados, mesmo no meio instrumental. Aí entramos nessa onde tocar Beatles para trazer um público novo para a música instrumental e para a nossa música.”

Surpreendentemente, os shows vêm ficando lotados com gente de todas as idades que, fisgados pelos Beatles, a maioria sem nunca ter ouvido música instrumental, e acabam se dando conta do enorme talento da dupla e se interessam pelo trabalho autoral, que eles vão também mostrar no CCSP.

Em Liverpool não foi diferente. A cidade vive em função da memória dos Beatles. O Cavern Club tem shows contínuos a partir do meio-dia, todos os dias, só com gente tocando música do grupo o tempo todo. “A maioria é muito ruim, tudo é feito na base do improviso, não tem o profissionalismo que temos em São Paulo”, diz Bueno. “Para podermos ajeitar o som melhor, escolhemos o primeiro horário de uma segunda-feira, dia que só tem turista lá. Bancamos toda a viagem, fomos pela curtição, nem anunciamos o show.”

Surpresas. O desfile de clássicos dos Beatles, que inclui In My Life, Here Comes the Sun e She’s Living Home, começa tranquilo, embora não convencional, mas depois a dupla extravasa a capacidade de improvisação e surpreende o público com versões arrojadas de A Day in the Life, Eleanor Rigby e Norwegian Wood, entre outras.

Presentes na plateia, um turista japonês comprou vários exemplares do CD, o dono do Hard Days Night Hotel sugeriu uma entrevista coletiva, concedida no dia do segundo show, e até beatlemaníacos radicais, brasileiros incluídos, que abominam qualquer regravação de seu repertório, acabaram aprovando as versões instrumentais do duo.

“Foi muito surpreendente, porque estávamos tocando Beatles sem cantar e recriando aquelas músicas em novo estilo e o público gostou”, conta Bueno. Além do show, o DVD traz um minidocumentário mostrando os bastidores da viagem e também contando um pouco da respeitável trajetória da dupla.

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