Beatles cada vez mais atuais, 50 anos depois

Estadão

07 de julho de 2012 | 22h35

Bolívar Torres (REPORTAGEM) e Carol Cavaleiro (INFOGRÁFICO)

No dia 4 de setembro de 1962, um quarteto de jovens desconhecidos entrava no estúdio para sua primeira gravação oficial. Um mês depois, chegava às lojas o primeiro compacto dos Beatles de John Lennon, Paul McCartney, Ringo Star e George Harrison, com Love Me Do e P.S: I Love You. O produtor George Martin e os executivos da gravadora não levavam muita fé. Nunca imaginariam que estavam assistindo a estreia do maior fenômeno da história da música popular.

Passaram-se 50 anos. Nesse período, os Fab Four rodaram o mundo, venderam 177 milhões de discos nos Estados Unidos, ajudaram a mudar costumes e até mesmo a derrubar governos totalitários. Os países pelos quais passaram nunca foram os mesmos, seja na Ásia, na África, na América Latina e até na União Soviética.

Em nações abertas ao Ocidente, como o Japão do pós-guerra, a beatlemania floresceu facilmente. Depois que o quarteto fez uma série de shows por lá em 1966, mudou completamente a maneira como os grupos musicais se juntavam e tocavam seus instrumentos.

Bandas como The Spiders, The Tigers e The Jaguars faziam o possível para absorver uma nova sonoridade e um novo estilo de vida. O único problema era na hora de pronunciar “rock’n’roll”, que em japonês sempre saía “lock‘n’loll”. A solução foi mudar o termo para Group Sounds.

Na Índia, o fenômeno foi adotado por Bollywood. Filmes como Janwar, com o emblemático Shammi Kapoor (o “Elvis indiano”), mostram como o país não escapou da febre por guitarras. As mudanças afetaram não apenas o vestuário – como os trejeitos e a linguagem corporal de Kapoor o demonstram.

Depois de Kapoor, toda uma geração de celebridades passou a cultuar e emular o estilo dos Beatles e do rock. Como resposta às influências estrangeiras, o filme Purab Aur Paschim, de 1970, criticou os indianos que se afastaram de suas origens – incluindo os que foram seduzidos pela cultura hippie – ao retratar um indiano na Inglaterra que redescobre a riqueza cultural de seu país.

A penetração dos Beatles não foi natural em todos os países. Em alguns lugares, gostar do quarteto inglês era considerado oficialmente uma contravenção.

Na União Soviética, por exemplo, era proibido possuir discos dos Beatles. Estranhamente, o mesmo não acontecia com os Rolling Stones e outras bandas. Para o Kremlin, ninguém personificava mais a ameaça capitalista do que o Fab Four e seu relaxamento nos costumes. Existia até uma palavra para fazer alusão a tudo que envolvesse a banda: “beatlyi”. É difícil encontrar covers soviéticos das músicas dos Beatles. Primeiro porque o contato com a fonte era limitado.

Segundo, porque os soviéticos que ousavam amar os Beatles os veneravam de tal forma que consideravam uma heresia subir no palco para imitá-los. Eram precisos enormes esforços para se ter acesso à música. As proibições eram desviadas com gravações ilegais em radiografias reaproveitadas da lixeira dos hospitais e revendidas por três rublos.

Não por acaso, muitos consideram as canções dos Beatles como o primeiro buraco na cortina de ferro. O documentário How The Beatles rocked the Kremlin, da BBC, mostra como o quarteto fez a juventude soviética se voltar contra o regime que queria proibi-lo.

Em 2008, Israel pediu desculpas a Paul McCartney por ter banido a música dos Beatles nos anos 60 por considerar um perigo à moral dos jovens. Depois de John Lennon dizer que o grupo era mais importante do que Jesus, os discos da banda também foram proibidos na África do Sul, com o pretexto de que os comentários de Lennon havia ferido o regime do Apartheid.

O veto durou cinco anos. Em mais uma recente onda de censura no Irã, os Beatles foram proibidos por Mahmoud Ahmadinejad junto com livros como O Código da Vinci e outras obras “assistentes do mal”. A revolução beatle, 50 anos depois, ainda está em curso.

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