Beach Boys: depois do nocaute, a volta por cima

Estadão

20 de junho de 2012 | 11h00

Marcelo Moreira

As origens da obra-prima dos Beatles estão em 1964, com a acirrada disputa pelos primeiros lugares das paradas de sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra. Os ingleses e os Beach Boys se revezam no topo, com canções cada vez melhores e mais elaboradas.

O panorama se mantém em 1965, mas muda drasticamente em 1966, quando os Beach Boys lançam “Pet Sounds”, a obra-prima de sua discografia até hoje. O verdadeiro catalisador para Pet Sounds foi a versão americana do LP “Rubber Soul”, dos Beatles, lançado em dezembro de 1965.

Brian Wilson, então líder dos Beach Boys, lembrou mais tarde as suas primeiras impressões do álbum inovador, em entrevista à ao jornalista e escritor Robert Stevens em 2007: “Eu realmente não estava completamente pronto para a unidade. Parecia que todas (as músicas) eram juntas. ‘Rubber Soul’ era uma coleção de canções que de alguma forma eram juntas como nenhum álbum já feito antes, e fiquei muito impressionado. Eu disse, ‘É isso. Eu realmente sou desafiado a fazer um grande álbum’.”

“Pet Sounds” elevou o patamar musical em todos os sentidos: boas letras, harmonias vocais primorosas, melodias perfeitas e uma produção caprichadíssima para pérolas como “God Only Knows”, “Wouldn’t It Be Nice”, “Pet Sound” e “I Konw There’s An Answer”.

Beach Boys em 1964

Amado pela crítica e venerado pelos músicos da época, o álbum dos Beach Boys pressionou os Beatles a responder à altura. E a resposta foi pesada, no mesmo nível: “Revolver”, de outubro de 1966. O contra-ataque foi forte e a pancada foi acusada por Brian Wilson.

O novo dos Beatles ia além de “Pet Sounds” em todos os sentidos, especialmente na questão de inovação na produção. As letras ácidas e mordazes de “Taxman”, “Dr. Robert”, “And Your Bird Can Sing” e “Got to Get You into My Life” inseriram componentes político-ideológicos à música dos ingleses, enquanto “Yellow Submarine” e “Tomorrow Never Knows” mergulhava a banda na psicodelia e na viagem literal em busca de novos sons – com uma pequena ajudinha dos amigos e de algumas drogas.

Brian Wilson, que havia abandonado os palcos para se concentrar apenas na composição e produção – e já manifestando os primeiros sinais de irritação e perturbação mental –, ficou chocado com “Revolver” e passou a ser cobrado pela crítica, pelos empresários e pelos companheiros para dar uma “resposta à altura”.

Segundo o primo Mike Love, também integrante dos Beach Boys, Wilson ficou deprimido e depois obcecado com o lançamento de “Revolver”. Obrigou a banda a se enfurnar novamente em estúdio em novembro de 1966, cancelando uma rápida turnê norte-americana, para a criação do que deveria ser “Smile”, a grande obra-prima da banda e do rock norte-americano.

Edição comemorativa de 'Smile', lançada em 2011

A pressão foi demais para o líder dos garotos da praia. Criativo e intenso, mas disperso e totalmente anárquico, o processo de composição e produção não avançava, com Brian Wilson cada vez mais nervoso e autoritário, querendo impor o que Love chamou de “grandes devaneios sem horizonte”.

Em meio a tudo isso, havia cobranças da gravadora e discussões cada vez mais pesadas a respeito dos rumos da gravação. As brigas eram cada vez mais intensas e Wilson frequentemente interrompia os trabalhos para se acalmar. O atraso foi inevitável.

Quando finalmente o clima melhorou um pouco e as brigas cessaram, já era junho de 1967 e “Sgt. Peppers” começou a tocar insana e intensamente em quase todas as emissoras de rádio dos Estados Unidos.

O nocaute foi violento e definitivo. Brian Wilson sofreu um colapso nervoso diante da grandiosidade do álbum dos Beatles. Na mesma entrevista de 2007, Wilson teve a grandeza de admitir que o impacto foi fulminante. “Não daria para superá-los.”

O líder dos Beach Boys se afastou definitivamente do grupo a partir de 1967, quando “Smile” foi abandonado e engavetado. A banda ainda manteve um pique forte e se manteve relevante até 1970. Nos dez anos seguintes o nível não foi mais o mesmo e os integrantes que sobraram vagaram pela nostalgia em shows pouco inspirados, com álbuns idem.

 

Capa de 'Pet Sounds'

Os anos 80 indicavam que os bons tempos poderiam voltar, mas foi alarme falso. Dennis Wilson, irmão de Brian, morreu afogado em 1983 ao cair aparentemente bêbado de seu iate. Outro irmão e também integrante do grupo, Carl, morreu de câncer em 1998. E a banda vagava como um eco dos anos 60, comandada por Mike Love.

Quanto a Brian, ensaiou um retorno ao show business nos anos 80, com alguns álbuns solo elogiados pela crítica, mas que venderam pouco. Nos anos 2000, voltou com mais força, lançando CDs muito bons e tentando resgatar “Smile” do limbo. Tocou parte do disco engavetado ao vivo em 2004, que virou um álbum ao vivo, e supervisionou o lançamento completo do trabalho em 2011, em vários formatos.

A aguardada volta por cima ocorreu neste ano, com a reunião de Brian Wilson com Mike Love e Al Jardine, outro integrante original, para a gravação de um novo álbum e uma turnê norte-americana para comemorar os 50 anos de fundação. “That’s Why God Made the Radio” é o novo trabalho recém-lançado, com quase todas as músicas de autoria de Wilson. Nada mal para um sobrevivente.

 

Continua…

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