Baratos Afins faz 35 anos tornando a música cada vez mais necessária

Estadão

12 de julho de 2013 | 06h30

Marcelo Moreira

O hobby de um farmacêutico se transformou em uma das mais interessantes e importants instituições culturais da cidade de São Paulo. A loja de LPs, CDs e DVDs Baratos Afins, um ds pilares da Galeria do Rock, completa 35 anos de atividades não só comercializando música, mas também produzindo e revelando novos artistas.

Passar uma tarde na ampla loja localizada no centro de São Paulo é um deleite – e são grandes as chances de encontrar artistas como Ed Motta, os integrantes do Made in Brazil e dos Paralamas do Sucesso, por exemplo, vasculhando as raridades em vinil por horas.

A Baratos Afins foi a segunda loja de discos a se instalar no centro comercial Grandes Galerias, na avenida São João, no coração do centro velho de São Paulo, bem em frente ao Largo do Paissandu. Ninguém entendeu direito a decisão de Calanca de ocupar m espaço amplo em um local que vendia de tudo, menos música – e que, além de tudo, era muito mal cidado e feito em 1978.

Luiz Calanca no balcão principal da loja (FOTO: PORTAL GALERIA DO ROCK)

A loja pioneira, a Wop Bop, penava paa atrair clientes e optou, anos depois, por se mudar para uma galeria comercial na rua Barão de Itapetininga, perto da Praça da República, dois quarteirões mais à frente das Grandes Galerias.

A Baratos Afins também sofreu um pouco, mas Luiz Calanca não tinha outra opção: já tinha largado a farmácia que administrava para viver do hobby que tinh desde o começo dos anos 70, que era vasculhar raridades musicais e trocar LPs.

As trocas deram lugar ao comércio puro e simples. Em pouco tempo o local se tornou ponto de encontro de músicos e colecionadores, raças à teimosia e à perseverança do baixinho amante do rock nacional, do chamado rock pauleira inglês e da MPB sofisticada da época.

“Eu conhecia todo mundo nas lojas de disco da cidade, fazia negócios bons e sabia garimpar LPs em ótimo estado mas que eram desprezados em saldões de grandes magazines. Modéstia à parte, eu tinha um bom conhecimento musical e também conhecia bastante gente nos meios culturais de São Paulo. Minha persistência valeu a pena: a loja começou a ficar conhecida e logo consegui contats nas gravadoras para vender catálogos oficiais também. Não trocaria minha trajetória por nada”, diz o proprietário da loja.

O negócio foi engrenando aos poucos, até que entre 1980 e 1981 a loja se tornou referência de qualidade de acervo e de raridades em São Paulo. Os bones ventos e a paixão pela música empurraram Calanca paa a produção cultural, sempre tendo como suporte o nome Baratos Afins.

Primeiro foram as festas embaladas peo amplo conhecimento do ex-farmacêutico, que rapidamente irou um requisitado DJ; depois, diante ds insistentes pedidos de amigos músicos, começou a arrumar locais para que bandas promissoras tocassem, desde que tivessem material próprio e de qualidade; finalmente, enfiou o nariz nos estúdios e se tornou produtor musical, com a loja agregando também um selo musical.

Foi Calanca que deu suporte para que o ex-mutante Arnaldo Baptista gravasse um álbum no final dos anos 70, após se retirar temporiariamente da música com sua saída do Patrulha do Espaço, em 1977. Foi ele quem selecionou e produziu as duas coletâneas “SP Metal” em 1984, que se tornaram marcos do heavy metal brasileiro. E foi das cinzas de uma das bandas da época do “SP Metal” que surgiu o Golpe de Estado, a mais importante banda de hard rock brasileira. O dedo de Calanca esava lá, no primeiro álbum do grupo.

Calanca ao centro, recebendo na loja os amigos Vitor Suman (esq.) e Kidi Vinil (dir.) (FOTO: ARQUIVO PESSOAL)

Surge a Galeria do Rock

As histórias envolvendo a Baratos Afins são incontáveis – algumas delas serão narradas no prorama de rádio Combate Rock 93, que ao ar ainda hoje no site Território Eldorado e aqui mesmo no blog Combate Rock.

Não bastasse a importância cultural da loja, Calanca pode ser apontado como o principal responsável pelo surgimento da Galeria do Rock. Como ponto de encontro de músicos e colecionadores, a Baratos Afins ampliou seu público e araiu  consumidor comum interessado em música de qualidade. Não encontrou? A Baratos Afins tem.  O slogan informal pegou e chamou a atenção de outros comerciantes (e aspirantes a) de discos da cidade inteira.

Enquanto o térreo começou a ser dominado por árabes (majoriariamente libaneses) e asiáticos que vendiam roupas e aparelhos eletrônicos, o primeiro andar rapidamene passou a ser território das lojas de discos por volta de 1985. O subsolo teve a predominância de lojas e empreendimentos voltados ao público negro.

O termo Galeria do Rock surgiu pouco depois disso, que foi largamente disseminado pelos comerciantes de música, e por um entusiasmado Calanca. “Em pouco tempo os pisos 1 e 2 foram tomados por lojas e a música era o que predominava. Era uma comunidade muito legal, encontrava-se de tudo.  O local virou referência na cidade e no mercado”, afirma Calanca.

Um pé no passado, dois ouvidos na alta qualidade

Do auge dos anos 90, quando Galeria do Rock chegou a ter 140 lojas dedicadas à venda de música em formatos físicos, ao processo drástico de queda nas vendas de CDs e DVDs por conta da disseminação da internet, a Baratos Afins conseguiu manter a dignidade. Mesmo quando Calanca desancou o CD quand surgiu, em nome de um purismo musical relativo à qalidade de áudio. “Fui chamado de louco e retrógrado, mas minha posição sempre foi muito clara: qualidade de som do LP é inigualável. Por isso nunca fui fã de CD e de formatos digitais. Mas aí alguém falou por aí que eu era contra o CD e que não ia vender CD. E nao é que pegou”, diverte-se hoje o lojista.

Ele pode até não gostar muito de CDs, mas sua ampla loja na Galeria do Rock está forrada de disquinhos nas prateleiras. São poucos os DVDs, mas são milhares os vinis à venda, muitos deles verdadeiras raridades, procuradas cada vez mais por estrangeiros ávidos por música brasileira.

Assim como na concorrência, o impacto das mudanças do mercado e da invasão da música digital – legal e  dos ilegal – teve grande impacto no negócio de Calanca. Mas o baixinho teimoso e apaixonado por música mais uma vez usou de sua persistência para perseverar e seguiu em frente, mesmo com o maremotodos downloads. Continua apostando na venda de formatos físicos de música e vez por outra retoma a sua veeia de produtor musical.

Alguns eleitos da atualidade para o selo Baratos Afins são a ótima banda de pop rock Fábrica de Animais, as nervosas garotas da banda Radioativas e a música mais experimental do grupo Messias Elétrico, entre outros. A loja também dá suporte para o projeto Rock na Vitrine, na vizinha Galeria Olido, onde bandas iniciantes e nem tçao iniciantes assim tocam em um espaço com vitrines que dão para a avenida São João.

O nome da loja é tão forte que deu nome a um palco da Virada Cultural 2012, que foi instalado bem próximo à Galeria do Rock, no Largo do Paissandu. Pena que a nova administração municipal de São Paulo não teve interesse em repetir a dose em 2013.

O comerciante Calanca prefere ressaltar a sobrevivência da Baratos Afins em tempos complicados de mudanças a falar em empreendimento de sucesso. Faz sentido, em razão das próprias mudanças culturais que atingiram a Galeria do Rock: se por um lado o local se tornou ponto turístico da cidade, “personagem” de novela da TV Globo e ganhou fama internacional, por outro rapidamente perdeu a essência de ser um pólo disseminador de música com a progressiva diminuição de numero de lojas de CDs, tomadas por lojas de roupas, bugigangas com motivos rock e estúdios de tatuagem, para desgosto do veterano Calanca.

E o processo de mudança não foi tranquilo, originando desavenças entre a administração da galeria e os comerciantes de música que ainda resistem, descontentes com o incentivo cada vez maior à “mudança de perfil dos visitantes” em detrimento do foco quase que exclusivamente na música. Das 140 lojas de música existentes no auge da Galeria do Rock, restam menos de 40.

“A Galeria do Rock só se tornou o que é graças à música, graças ao rock, graças aos empresários que apostaram na venda de música e transformaram um conjunto de salas comerciais decadents em um importante centro de compras nos anos 80 e 90. Antes a gente promovia festas e shos de rock no terraço, fazia lançamentos de CDs, trazia artistas internacionais para divulgar trabalhos. Tudo isso acabou e a administração prefere deixar o local mais parecido com um shopping. É uma opção, mas qem perde são os amantes da música”, dispara Fausto Mucin, um dos sócios da Die Hard, vizinha da Baratos e um dos entusiastas do trabalho de Calanca.

Os grandes magazines de rua se foram, assim como templos da música, como a Nuvem Nove, no Itaim Bibi, que fechou há alguns anos. Restam poucas lojas de música que ainda resistem ao futuro avassalador do som digital – e impessoal, para não falar da qualidade de áudio mais baixa.

A Baratos Afins não é um bastião de resistência – usar o termo é reduzir a importância do empreendimento. A loja/selo musical é uma instituição cultural sólida que se tornou referência musical em uma cidade que oferecer mil opções, mas maltrata as atrações e eventos alternativos. Mais do que longevidade ou eternidade, a loja conquistou algo mais importante: tornou-se necessária. São Paulo e os paulistanos agradece.

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