Baranga e Tomada: novos trabalhos de qualidade e força para ir na contramão

Estadão

06 Setembro 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

Baranga

Não existe mercado ruim para banda que vive na estrada e que precisa tocar de qualquer maneira. Mesmo enfrentando um mercado ingrato e escassez de público, bandas de rock pesado ainda veem alguma luz no final do túnel no Brasil e continuam investindo no sonho, agora mais modesto, de ao menos ver o trabalho reconhecido por um público novo, diferente. Baranga e Tomada, duas bandas veteranas de São Paulo, estão com novos trabalhos na praça buscando novas formas de superar as barreiras da concorrência extrema e da mudança de comportamento dos ouvintes.

Mais pesado, “O 5º dos Infernos” traz o Baranga mais irado. Tudo está mais “na cara”, propositalmente, não dando fôlego ao ouvinte. Com tempo para moldar as composições novas, os timbres de guitarra e baixo foram pesquisados com esmero. “Fomos bastante detalhistas neste álbum. Encontramos o equilíbrio que desejávamos e os timbres foram resultado de uma busca minuciosa. Acho que todos os músicos ficaram satisfeitos com o que conseguimos”, diz o baixista Ricardo Schevano.

Difícil não identificar no novo trabalho do quarteto paulistano uma tendência muito interessante, que vem pelo menos desde 2011, nas bandas que fazem um som mais rápido e denso no Brasil. O Carro Bomba, com “Carcaça”, conseguiu ótimos resultados, com uma sonoridade que transitava em um terreno que remete a AC/DC e Motorhead. As letras em português, muito bem feitas, deram mais força ao instrumental pesadíssimo da banda.

A mesma coisa pode ser observada em “O 5º dos Infernos”. O Baranga deixou o baixo mais “sujo”, mais gordo, quase como uma terceira guitarra, na busca de um modo de deixar a base mais poderosa. A ideia deu resultado, e o som da banda está muito mais encorpado e poderoso. As letras ainda têm um viés político de protesto, só que agora mais explícito, com um vocal berrado com raiva. “Chute na Cara” abre o álbum e dá o tom do que vem em seguida, um massacre dos ouvidos com guitarras ferozes, que não dão descanso. “Mantivemos nossas características, com som potente e letras irônicas. É rock na veia mesmo, para deixar todo mundo aceso e ligado”, diz o guitarrista Xande.

“Três Oitão” é uma crônica bem humorada sobre a valentia que anda dominando a nossa vida atual e também sobre a violência de algumas baladas. Veloz e furiosa, guarda algumas semelhanças com algumas das mais pesadas canções de southern rock à la Lynyrd Skynyrd. O humor e a ironia predominam também em “Limpa Trilho”, sobre os romances fugazes das baladas noturnas em locais esquisitos, enquanto as curtas “Menina de 16” e “Diabo, Teu Nome é Mulher” seguem na mesma toada, com letras engraçadas em ode ao sexo feminino, com letras menos machistas do que de costume.

O quinteto Tomada segue por outro caminho em 2013. Depois do ótimo CD “O Inevitável”, de 2012, o grupo acentua a mescla de influências ao hard rock setentista original no recém-lançado DVD “XII – Estradas, Sons, Estórias na Terra do Rock Tupiniquim”. É uma obra simples, que traz clipes, entrevistas e um quase pocket show com seis músicas gravadas na biblioteca do Centro Cultural São Paulo, tudo em clima de documentário para marcar os 12 anos de carreira do grupo.

Embora em alguns momentos o trabalho careça de um roteiro mais consistente, é justamente neste “espírito livre” de direção e edição que a obra se difere do que já foi produzido no rock nacional em termos de imagem e documentário. A descontração e a leveza da condução da narrativa compensam qualquer brecha que exista no roteiro (de autoria de Eduardo Donato, que também ajudou Marcelo Bueno na direção). No show, destaque para a perfeita captação das músicas e e para a sóbria iluminação, que conseguiu realçar a performance da banda.

De forma simples e sem enrolação, os integrantes da banda mostram a trajetória de 12 anos e contam “causos” da estrada de forma divertida e espontânea. E esse é um dos méritos do DVD: conseguir capturar a espontaneidade característica do quinteto. “Dentro de nossas possibilidades, conseguimos realizar um projeto que atendia aos nossos objetivos: contar nossa história, mostrar nossa música e se divertir bastante”, afirma Ricardo Alpendre, o vocalista.

Durante o processo de filmagem e edição, o grupo fechou um acordo com o selo Coaxo do Sapo, de Guilherme Arantes, astro da MPB dos anos 70 e 80, para fazer a distribuição do DVD. A parceria será estendida para o próximo álbum do Tomada, que terá a produção de Pedro Arantes, filho de Guilherme, com a possibilidade de ser gravado no estúdio do músico na Bahia.

Sobre o pocket show registrado, Alpendre disse que a banda teve de alterar um pouco suas características para poder usar o local escolhido, com um show semi-acústico. “Nosso som comporta esse formato, sempre usamos muitos violões e todos admiram muita coisa que foi feita no rock dos anos 70 mais voltado ao folk, além de grupos brasileiros da época que faziam um som parecido. Não foi difícil conciliar a pegada forte do Tomada com as levadas mais suaves de um acústico”, explica Alpendre.

Das músicas registradas, destaque para “Catarina”, um dos hits de “O Inevitável”, e “De Verdade”, uma música antiga da banda, mas que nunca tinha sido registrada em gravação, soando como novidade. O Tomada já mostra um pouco das influências que devem vir no próximo álbum, com pitadas de um rock nacional mais atualizado.

“Nosso som é orgânico e recheado de referências. Em alguns momentos requer uma pesquisa de timbres mais acurada, e este é um dos orgulhos que temos no Tomada, a qualidade técnica e o conhecimento que adquirimos para incorporar novos elementos a nossa música sem prejuízo de nossas características”, ressalta o baixista Pepe Bueno.

Para quem está acostumado com o trabalho do Tomada, o destaque provavelmente será o clipe de “Ela Não Tem Medo”, muito bem feito dentro de sua simplicidade, e que foi o primeiro single do álbum “O Inevitável” – álbum que transita entre o mergulho fundo na psicodelia e rápidas passadas por soul e blues, sempre tendo a levada de guitarra como o fio condutor. Um trabalho de bom gosto, fazendo com que não haja nada parecido no pop rock brasileiro da atualidade.

Capa de ‘O Inevitável’

Os arranjos são outro destaque do trabalho. Nada fica fora do lugar, tudo foi pensado exatamente para dar uma sonoridade moderna a temas que pedem acentos característicos de outras eras, com resultado surpreendente. “Ela Não Tem Medo” tem uma letra bem humorada e um ritmo rápido e marcante. “(Quero Ter) Uma Música Forte” também é rápida e mais pesada que o restante, mostrando diversas influências de um rock setentista mais pesado.

“Catarina” e “Blá Blá Blá, Blá Blá Blá” são rocks básicos e cativantes, resgatando um pouco da atmosfera de certa ingenuidade da primeira metade dos anos 60 – e remetendo, de certa forma, aos primórdios da Jovem Guarda. Já “Calor de Abril” é a que mais se parece com o que é feito atualmente no Brasil, o que erroneamente pode levar o ouvinte a colocar a Tomada em uma seara onde transitam bandas queridinhas do cenário alternativo, como Cachorro Grande e Vanguart.

Em breve o programa de web rádio Combate Rock, hospedado no Território Eldorado/Estadão.com, colocará no ar interessantes entrevistas com integrantes das bandas Baranga e Tomada, que darão mais detalhes sobre seus novos lançamentos.

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