Banda Nada Surf mostra novo álbum em shows no País

Estadão

25 de abril de 2012 | 14h01

Pedro Antunes

Um roqueiro filho de um professor de filosofia. Analisar a obra de Matthew Caws, voz, guitarra e cabeça pensante do Nada Surf, sem essa referência é superficial. Suas letras, aparentemente fáceis, vasculham porões mais sombrios e inconscientes da sua – e da nossa – mente. Foi assim nos sete discos: desde “High/Low” (1996), passando pelo álbum “The Weight Is a Gift” (2005) até o novo trabalho, “The Stars Are Indifferent To Astronomy”, elaborado com mais intensidade.

 

 

Lançado em janeiro, o disco com a nova safra de canções da banda chega agora ao País, junto com sete datas de shows, incluindo São Paulo, nesta quarta, às 23h, no Cine Joia. O trabalho propõe, logo no título, uma reflexão que Caws leva consigo, dita pelo pai nas aulas de filosofia: as estrelas são indiferentes à astronomia. “É uma ideia que mostra o quanto somos insignificantes”, diz o músico. “Os cachorros não sabem que nós os chamamos de cachorros, os pássaros também não sabem que são pássaros. As estrelas e os planetas também não fazem ideia. E não importa para ninguém. Você consegue perceber isso? A nossa insignificância?”

 

Quando se colocou sob esta perspectiva, Caws passou a colocar em xeque sua própria obra. “Um dia, depois de lançarmos If I Had a Hi-Fi (o disco de covers de 2010), fizemos um show tocando canções dos outros álbuns. Tive de ouvir músicas mais antigas e percebi que eu havia escrito a mesma coisa de formas diferentes”, confessa. Para “The Stars Are Indifferent To Astronomy”, Caws fez questão de se aventurar de novo como compositor, mas sem esquecer a nova sonoridade da banda.

 

Desde a sua primeira gravação, em 1993, a versão de estúdio das canções incomodava ele. “Eram duas bandas, uma de palco, outra de estúdio. Queria que fôssemos uma só.” O resultado é o disco mais feroz do Nada Surf, mantendo os pés no power pop de Teenage Fanclub, com pinceladas psicodélicas de The Byrds. No palco, há ainda mais peso, com a adição do guitarrista Doug Gillard, ex- Guided by Voices e The Oranges Band. “Ele é ótimo.”

 

O álbum é o primeiro de inéditas desde “Lucky”, de 2008. “Chegamos ao estúdio com todas as (dez) canções quase prontas, o que é completamente fora do meu estilo”, brinca. “Eu tinha muitas músicas, mas só usamos um quarto delas.” As letras, mais introspectivas, precisam ser ouvidas com atenção. Caws canta de frustrações, solidão, rejeição, sonhos. Tudo está debaixo de uma primeira camada de entendimento. “When I Was Young”, single e mais pacata do álbum, evoca saudosismo, mas esconde um desapontamento com o presente.

 

Perguntado se é feliz, Caws despista rápido: “A música é como uma terapia. É melhor do que ir falar com um profissional que fará sempre as mesmas perguntas. As canções são baratas, mais divertidas. Se você tiver um problema, é só colocá-lo lá, como numa caixa, e jogá-lo no sótão e esquecer. Mas você nunca o resolveu. É uma mentira, mas também é uma boa ilusão”, diz o vocalista, que deixou sua amada Nova York, nos EUA, para se mudar para Cambridge, na Inglaterra. Tudo para ficar próximo do filho. “Senti que precisava fazer isso.” A felicidade, para Caws, é tão indecifrável quanto as estrelas.   

Nada Surf – Quarta, às 23h. Show de abertura: Ludov. Cine Joia. Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade. Tel. (011) 3231-3705. Site: www.cinejoia.tv/ingressos. Ingressos: R$ 80 a R$ 120.

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