Band of Horses lança 'Mirage Rock' com ajuda de lendário produtor do Zeppelin

Estadão

04 de dezembro de 2012 | 17h00

JOTABÊ MEDEIROS – O Estado de S.Paulo

No mundo estelar do rock’n’roll, há poucas bandas que podem tocar o rock mais refinado e em seguida descer do palco e ir beber uma cerveja no bar, entre seus fãs, porque acabam de ter assegurada ali a sua condição terrena, antimitomania. Band of Horses é seguramente uma dessas raras bandas.

 

Band of Horses - Divulgação
Divulgação – Band of Horses 

Depois de duas passagens-relâmpago pelo Brasil (uma para o Lollapalooza, em abril; outra um mês depois, a pedido dos fãs, para um show indie no Beco 203, na Rua Augusta), o grupo norte-americano acaba de lançar seu novo álbum, o quarto de sua carreira, Mirage Rock (lançamento Som Livre). Uma das canções, Long Vows, foi apresentada pela primeira vez no Brasil, em seu show de estreia no País.

O disco é produzido pelo lendário Glyn Johns, que trabalhou com Led Zeppelin, Rolling Stones, The Who, Joe Cocker e Eric Clapton, entre outros. Johns potencializou o elemento de southern rock, mas também burilou mais as melodias e até colocou um climão orquestral em uma das músicas, a cortante Heartbreak on 101, última do disco.

Evocando experiências das mais honestas e profundas do rock, como Crosby, Stills, Nash & Young, Eagles, Tom Petty, John Denver e até mesmo um esquecido Lobo (codinome de Roland Kent LaVoie, bardo que a banda declara não conhecer, mas seu interlocutor insiste na ilação), o grupo reinveste de sentido o termo “alternativo”. E seu álbum é uma espécie de Exile on Main Street do indie rock, um novo sopro de sinceridade e punch.

Esta semana, rodou o mundo uma imagem do guitarrista Jimmy Page, um dos monstros sagrados do rock, aplaudindo com um sorriso maravilhado a apresentação da canção inédita A Little Biblical, do Band of Horses, nos bastidores do programa de TV de Jools Holland. Page não foi o primeiro megastar a chapar: antes dele, Dave Grohl, dos Foo Fighters, já tinha eleito o Band of Horses como um de seus prazeres privados.

“Nós todos voamos com eles (o Foo Fighters). O Foo Fighters tem um jato, um Boeing 747, e convidou todos nós, incluindo as equipes, incluindo o grupo de Joan Jett, para voar com eles no mesmo avião pela América do Sul durante nossa turnê. Eles demonstraram real gentileza e hospitalidade, não foi só uma carona. São gente pé no chão, sem afetação, e nós ficamos realmente agradecidos pelo conforto que nos ofereceram, de forma espontânea, sem querer nada em troca. São muito cavalheiros”, comemorou, modestamente, o cantor Ben Bridwell em maio, durante a última visita ao Brasil.

Bom, o fato é que o Band of Horses não está muito preocupado com a eternidade. Bridwell (vocais, guitarras e letras), Creighton Barrett (bateria), Tyler Ramsey (guitarra e letras), Ryan Monroe (tecladista e multiinstrumentista) e Bill Reynolds (baixo) são low profile e gostam mesmo é de fazer um bom barulho. “É uma ampliação da visão das gloriosas paisagens americanas”, tascou o site Clash.

Essa é a palavra-chave: é uma banda que se orgulha de ser norte-americana, sem no entanto se embebedar de patriotadas nem soar xenófoba. Sua meta parece ser abastecer-se de alguma poeira dos cânions, da amplidão territorial. Falando há alguns dias ao Estado por telefone, Ben Bridwell, frontman da banda, comentou uma a uma as canções do seu novo álbum, e deu uma pista para a elucidação do seu som: disse que a música Long Vows é um tributo a um de seus heróis do country, o músico Gram Parsons (1946-1973), que integrou The Byrds e Flying Burrito Brothers.

Parsons batizou o tipo de música que criava como “cosmic american music”, e tinha como ambição fundir de tal modo o country e o rock que ambos se tornassem “indissociáveis um do outro”. Poucos lograram êxito nessa seara, mas certamente uma das bandas contemporâneas que chegou lá é o Wilco.

“O bom rock é como uma miragem: quando você chega muito perto, ele já não está mais lá”, disse Ryan Monroe, que toca quase tudo no palco. Em cena, para quem os viu no Lollapalooza, a sensação é de que o grupo de Bob Dylan fugiu da concentração de Mr. Zimmermann e veio fazer um show sem o chefe. Dão a mesma sensação de jam permanente, improvisação e guitarras em brasa.

O nome era para ser só Horses, mas aí eles se deram conta de que já houvera uma banda nos anos 1970 com esse nome e que isso traria problemas de copyright. Viraram então Band of Horses. Vieram da Carolina do Sul e de Minnesota (mais especificamente de Minneapolis). Barbudinhos e aparentemente desencanados das agendas fashion, trabalham uma lírica meio beat, desregrada. “Para mim, essa garrafa de vinho/é para chapar minha mente/e fazer esquecer as coisas que eu sabia, eu sabia”, dizem, na canção Evening Kitchen.

Vivem numa fronteira difusa. Parecem hillbillies, mas são urbanoides. Ouvem muita coisa que todos ouvimos, mas também outras de que poucos de nós ouvimos falar. “Carolina Chocolate Drops? Eu os conheço, são fantásticos, sou fã deles. Qualquer comparação com eles é uma boa comparação”, brinca Bridwell.

No ano passado, disputaram um Grammy na categoria álbum alternativo (perderam para os Black Keys) e também foram enquadrados na categoria country-rock com seu disco Infinite Arms (2010). Mas definitivamente não é uma banda country. Suas baladas fazem uma fusão celebratória do folk, do country e do rock, mas com condimentos muito particulares. O som é tão reconhecível quanto novo. Sua chegada é tão digna de fogos de artifício quanto sua indisposição para o estrelato.

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