Backstage comemora 25 anos de persistência e resistência – parte 2

Estadão

04 de maio de 2013 | 21h50

do site Wikimetal

W (NM): Acabamos de ouvir agora Children Of The Grave com o grande Ronnie James Dio nos vocais do excelente disco ao vivo do Black Sabbath Live Evil, escolha do Vitão Bonesso como a música que melhor representa o Heavy Metal nos anos 70. Vitão, já que estávamos falando daquela época do Black Jack e tal, mais ou menos anos 80. Como você analisa o apoio que o publico dava as bandas naquela época nos anos 80 e hoje em dia o que você acha que mudou?

VB: Acho que era tudo mais artesanal né? Troca de demos. Correio, né? Usava o correio para mandar uma fita, então eu achava que era artesanal, amador. Talvez sim talvez não, muita gente se tornou profissional mediante a essa cultura de troca de demos e tudo mais. E tínhamos algumas revistas aqui, teve nos anos 70 a Historia e a Glória do Rock que era como se fosse um background da Roadie Crew numa edição só, mas muita coisa errada, realmente faltava informação. Nós tínhamos o jornal Rolling Stone. Acho que era bem artesanal, mas era legal. Existia aquele contato na hora que você queria trocar um disco, comprar um disco, ir na galeria, marcar uma ponta na galeria do rock, era muito legal.

W (NM): Hoje marcar uma ponta é outra coisa, né?

VB: Marcar uma ponta é outro papo.

W (RM): Vitão, pensando nesse tempo de Black Jack, tinham muitas bandas cover, a sua também que tiravam as músicas com qualidade. Era muito legal porque trazia pra gente uma coisa que era impossível de ter, algumas bandas que não pisavam por aqui. Hoje em dia, que o Brasil é um solo sempre visitado por muitas bandas, como você coloca as situações das bandas covers? Ainda tem espaço? Elas tocam, elas se dedicam para tirar com qualidade? Como você trás para hoje em dia?

VB: Eu acho o seguinte, muita gente mete o pau “pô cover?” Tem que tocar música autoral e tudo mais, mas tem muita gente que faz música autoral e faz cover para sobreviver, então temos que respeitar o músico nesse sentido. Não é o meu caso, eu sou calhorda, eu gosto de tocar Black Sabbath, não quero saber de compor, não quero ter banda, já tenho o meu trabalho que já me toma espaço, se eu tivesse que fazer uma banda autoral, isso, aquilo, eu teria que me dedicar de uma forma, que talvez eu não teria esse tempo. Então tem as bandas covers, algumas que foram legais, eu fiz parte dos Beatles 4 Ever que foi considerada a primeira banda cover, propriamente dita, no visual, né? Eu fiz parte deles de 80 a 84 eu fiz parte da banda. Depois veio U2 cover, Stones, Rock Memory, o Páscoa era o John Lennon do Beatles 4 Ever. Então se ganha dinheiro com isso, se o músico quiser sobreviver e não passar fome ele tem que dar seus pulinhos, muita gente vê o lado cover como meio pejorativo, eu vejo pejorativo a partir do momento em que o cara sobe lá e destroça a música alheia e acaba com a música, existe de monte, aos montes, entendeu? Mas até ai o público sabe dizer isso é uma porcaria e é “tchau e bença véio”, paga a comanda e não volta mais, bom essa banda é porcaria. O Electric Funeral vai fazer 25 anos no ano que vem, a gente esta mais velho que o Black Sabbath, cara. A gente ultrapassou eles, cara. Se a gente tá aí até hoje, vai uma galera legal assistir, acho que a gente oferece um detalhe: guitarra Gibson SG, o Soneca tocando com os Rickenbackers dele, sabe? É uma experiência. Usando batera com dois “bumbão”, é um saco levar aquilo, é um trambolho, tem que ter pick up para levar aquilo. Vou colocar num corsa?

W (NM): E outra coisa, tem gente que quer ouvir o Black Sabbath ao vivo e o Black Sabbath não vai vir para cá, ou pelo menos não tem previsão.

VB: Exatamente, então na hora que você vai tocar um Black Sabbath você tem que ter um Marshall lá atrás, você não tem um cubinho da Voxman. Então a gente se dedica a isso, a gente não ganha dinheiro suficiente nem para pagar esse tipo de coisa, se eu rachar um prato Paiste da minha batera é um barão. Você sai do bar com 200 paus no bolso. Duzentos paus é a pele de um bumbo. Entendeu? Mas a gente faz por tesão. Então existe o lado do cara que sobrevive, ele tem que dar seus pulinhos e tocar em 20 bandas cover, mas se ele faz a coisa direitinho vamos levar em conta a sobrevivência do cara.

W (DD): E Vitão, qual que você acha que foi um elemento que faltou para as bandas que tocavam autoral, as bandas de Metal que surgiram nos anos 80. Tinham tantas bandas boas naquela época, coisa tão excelente assim que além do Sepultura que realmente estourou e tudo mais, o que você acha que faltou? Qual é o elemento que faltou para elas atingirem sucesso comercial no nível que o Sepultura atingiu?

VB: Dar um pé na bunda da mulherada. Se você pegar a maioria das bandas se desfez por causa das mulheres “ou eu ou a banda!”. Parece brincadeira isso cara, eu adoro mulher, mas pera aí? A mulher que você tem precisa te acompanhar, entendeu? É difícil, mas ninguém chegou lá de uma hora para outra, né?

W (NM): A gente entrevistou Andreas Kisser outro dia e ele falou isso.

W (DD): Ele falou do apoio que receberam das famílias que foi fundamental.

VB: Está vendo como que é? O cara ficou lá fora levando disco de porta em porta em gravadora, ficou 2 meses nos Estados Unidos comendo cachorro quente, até que uma hora ele bateu em uma porta certa, não é assim de você chegar e “tã”.

W (DD): E a porta se abre…

W (NM): A porta da esperança?

VB: É não é assim, não vira. Então se você não tem uma companheira que aguenta acontecer e mesmo se não acontecer ela fala assim “mas você tentou”, legal. Então o grande contingente de bandas que não deram certo no passado, pode ter certeza que 80 % foram por causa de mulher chata. E o pior é que os caras não estão com elas hoje. Eles vão ver a merda que fizeram “porra deixei minha banda por sua causa baranga desgraçada”” e não está com ela. O pior é isso véio.

W (NM): Vitão, quais são, na sua opinião, as grandes bandas de rock do Brasil e quais foram as mais injustiçadas??

VB: Cara, o Overdose, acho que foi uma banda que poderia ter tido uma sorte melhor, o Korzus foi uma banda que não teve uma sorte melhor, mas que voltou a ver o sol, agora com um belo álbum, maravilhoso, uma produção suprema, muito legal. Acho que o Torture Squad é uma banda que eu acho que merece muito mais atenção do que esta tendo, o Krisiun tem uma exposição legal, mas o Metal extremo é muito confinado a um nicho e isso talvez vá contra eles, mas são uns caras reconhecidos lá fora.

W (RM): E o último disco também ficou demais.

VB: Demais, eu me sinto orgulhoso de falar do Krisiun em particular que eu lembro quando eles foram no Backstage ainda na Kiss FM, não, na 97 ainda, sem nada, eles não tinha onde dormir naquela noite, entendeu? Eles falaram “nós vamos ficar debaixo do viaduto ai”. Então foi um negócio de você ver os caras crescendo e mantendo aquela postura “e aí, e aí Metal extremo imperando, Metal melódico tem que morrer tudo”. Eu acho que é isso aí, é a praia deles e eles como ninguém sabem surfar nessas ondas. Tem o Nervo Chaos também, que esta em turnê, inclusive lá fora e o Angra que é uma ótima banda, mas os caras brigam mais do que tocam! Lançam um disco e o pau fecha, sabe, é muito ego, eu já falei para eles “vocês tem uma puta de uma carreira maravilhosa, vocês têm nome, ainda tem muitos fãs. Dá para parar de brigar “caralho”, vamos tocar, vamos fazer alguma coisa para gente? Meu, a gente esta ficando velho, vamos procurar chegar em um ponto de ganhar uma grana legal e se aposentar?” Não, briga.

W (NM): E daquela época de A Chave, Golpe, Centúrias, Vírus?

VB: Ah, era legal também, eu lembro do Golpe, eu fiz alguns shows com o Golpe, quando o Paulão estava com problema de pedra no rim, era outra pedra. Eu toquei com o Golpe de Estado, conheço o Helcio, conheço o Paulo desde 1977, éramos colecionadores de coisas do Deep Purple, era ele, o Nelson e o Andre Cristovão. Eu vi o Golpe de Estado nascer e foi muito legal ver essas bandas. O Centúrias que era legal também e que está de volta, eu acho muito legal, saudável para caramba. Vírus, nossa tinham várias bandas, Harppia, era mais “troncudona”, mas era legal.

W (RM): Vitão, vamos seguir ouvindo mais um som. Seguindo a cronologia, você escolheu uma música dos anos 70, agora dos anos 80?

VB: Véio, anos 80? Mais uma do Black Sabbath pode ser? Hot Line do Born Again, vai fazer 30 anos em 2013.

W (NM): Único disco do Black Sabbath gravado com Ian Gillan nos vocais.

VB: E é bom hein? Quiseram arrancar o meu pescoço. Tem uma história: Eu fiz aquele Road Collection da Roadie Crew e eu botei lá Black Sabbath: Volume 4 e Born Again, “como é que você não colocou Heaven and Hell?” “como não colocou o Paranoid”, eu falei “tá escrito ali, é pessoal”, e ai falaram “esse cara não conhece nada de música, esse Born Again é uma porcaria” e ai começaram a chegar os emails “eu queria me desculpar com o Vitão Bonesso, eu jamais tinha ouvido o Born Again, ouvi por causa da matéria e o disco é do caralho”.

W (DD): Meu, Trashed é demais.

W (NM): E Zero the Hero…

W (DD): Essa foi a Hotline do Black Sabbath, mais uma escolha de Vitão Bonesso.

VB: Eu juro que eu vou parar com o Black Sabbath.

W (DD): Não, pode continuar! Aqui é você que manda hoje.

W (RM): Não, a gente adora.

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