Backstage comemora 25 anos de persistência e resistência – parte 1

Estadão

04 de maio de 2013 | 15h00

da equipe Combate Rock

O programa de rádio criado por um fanático tem mais tempo de vida do que a maioria das bandas brasileiras que fazem ou já fizeram sucesso. Na verdade, é uma das instituições roqueiras brasileiras mais antigas em atividade – perde para o Sepultura, para a Cogumelo Records e para o Made in Brazil( a Rock Brigade não tem mais periodicidade definida e virou site burocrático, infelizmente, então não conta).

O programa Backstage comemora 25 anos de fundação, virou web rádio 24 horas e um site bancana, tudo graças à persistência de Vitor Bonesso, o Vitão, ex-gerente de transportes de uma empresa no ABC paulista que convenceu os donos da então 97 FM, de Santo André, que tinha de haver um programa de heavy metal. A emissora então era voltada ao rock, e rivalizava com a 89 FM.

Desde então o radialista fez do Backstage a sua vida, virou a sua ocupação principal e conseguiu realizar o sonho de ter uma rádio na internet que transmite rock por 24 horas em dois canais, um de heavy rock e outro de classic rock, além do tradicional horário do domingo à noite, por duas horas, na Kiss FM, de São Paulo.

Em homenagem a este visionário de um mercado hostil e inóspito, o Combate Rock republica uma entrevista de Bonesso ao ótimo site Wikimetal no mês de abril, onde ele relembra alguns fatos importantes de sua carreira e dá a sua opinião sobre o mercado atual do rock no Brasil. A entrevista será dividida em partes. (Marcelo Moreira)

Wikimetal (Daniel Dystyler): Estamos aqui com um dos personagens mais importantes da historia do Heavy Metal brasileiro, apresentador e produtor do Backstage, no ar desde 1988. Baterista do Electric Funeral, banda cover do Black Sabbath, colunista da Roadie Crew, colaborador de uma série de outras coisas, além de ter uma coleção pessoal de mais de 10 mil álbuns. Vitão Bonesso, bem vindo ao Wikimetal.

Vitão Bonesso: Muito obrigado pelo convite e antes de mais nada, parabéns pelo trampo que vocês vem fazendo que é maravilhoso, acho que a gente esta precisando de gente que nem vocês para impulsionar essa máquina do Heavy Metal que é bacana. Estou à disposição de vocês.

Wikimetal (Nando Machado): Valeu Vitão, muito legal ouvir isso de você, é uma honra para gente ter você no programa, uma das pessoas mais importantes nessa árdua tarefa de divulgar e promover o Metal, Hard Rock, o Classic Rock no Brasil. Eu queria saber, para gente começar Vitão, lembrando lá no comecinho como é que foi que você começou a se interessar por rock, como o rock entrou na sua vida, o Metal em especial e como é que foi o começo da sua carreira?

VB: Bom, eu comecei a gostar de rock pelo meu pai, em 1964 para 65 meu pai já ouvia Beatles, começou bem. Tinha Ventures também, tinha muita coisa, tinha a Jovem Guarda, que era o primeiro respiro rockeiro brasileiro. E quando meu pai foi ver a copa do mundo em 66 na Inglaterra ele trouxe coisas dos Beatles, isso e aquilo, ai lascou, dali até o final dos anos 60 era Beatles, no começo dos anos 70 era Beatles, mas aí um vizinho me mostrou o Fireball do Deep Purple, ai era Beatles e Deep Purple, aí veio o volume 4 do Black Sabbath e aí a história foi caminhando até que em 86 eu comecei a dar uma força lá na 97 FM, na época em Santo André, levando algumas novidades que eu sempre comprava em geral, até que em 88 recebi o convite para fazer o que hoje é o Backstage, substituindo um programa que já estava no ar que era o Riff Raff , um programa que chamava Riff Raff, eles quiseram tirar o cara e botar eu, eu falei “não, não quero, eu quero produzir alguma coisa, eu não sou legal de locução, não sei falar caramba”, o meu inglês era macarrônico total. Ele falou “legal que você aceitou, domingo você estreia”.

W (NM): Isso foi depois da Sessão Rocambole??

VB: Foi, o Rocambole foi o primeiro.

W (NM): E ai?

VB: Depois veio o Fuck Off, Riff Raff e junto com o Overshock, que era uma coisa mais para o Hard, quiseram tirar, era o Richard Nassif que fazia e foi assim. Foi em uma segunda-feira a proposta, domingo eu estava no ar, ou seja, eu não dormi, eu tive que criar um programa em 7 dias praticamente, foi terrível cara, mas, daquele jeito “vai aí e te vira véio”.

W (DD): E que começo também, com Beatles, Deep Purple, Black Sabbath, né?

VB: É uma trinca bacana.

W (DD): Orra.

W (Rafael Masini): Vitão, eu vou fazer uma revelação aqui para você e todos os ouvintes.

W (NM): Eu já sabia.

W (DD): Nós já sabíamos.

W (RM): Já fiz muitas revelações, mas desde 87 mais ou menos, que eu tinha uns 16 anos, até 90, eu trabalhei moleque, escondido quando chegava o juizado de menores, no Black Jack Bar, com Paulinho, com o Fernando.

VB: Nossa, Eu toquei lá nessa época.

W (RM): É isso que eu ia falar, eu presenciei ali como garçom, sempre nas escondidas, porque chegava o juizado a gente subia no telhado.

VB: Sim, sim.

W (RM): O Paulinho, o Fernando escondiam a gente no telhado, e eu presenciei um monte de “jams”, mas uma em especial que foi uma noitada em 88, que baixou…

VB: Um monte de gente: Edu Ardanuy, Helcio Aguirra, Cachorrão…

W (RM): Você!

VB: Isso, e foi ali que nasceu o Electric Funeral.

W (RM): Pois é, era isso que eu ia falar. Foi dali que veio a ideia? Pois tocaram muitos “Sabbaths”.

VB: Sim, sim. Foi ali que o Helcio chegou para mim e falou assim: “Orra meu, vamos montar um Black Sabbath cover?” Fechado.

W (RM): Depois nos vamos perguntar da banda, eu queria falar do espaço. Você acha que hoje em dia existe um lugar?Porque ali no Black Jack iam pessoas de varias gerações, as pessoas falavam, as pessoas tocavam, as pessoas pensavam sobre Rock and Roll. Você acha que isso hoje em dia existe? Com pensamento inteligente? Não só criticar, xingar?

VB: Eu acho que faz falta realmente aquela interação, in loco, da molecada naquela época. Vamos lá para saber? Ou você trouxe aquele vinil que eu te pedi emprestado? Trouxe esse aqui para você levar para casa. Na outra semana se destrocava, gravava fita, levava fita, os “cassetinhos” e tudo mais, então era muito bacana. E hoje, eu acho que a internet, a parte de rede social, distanciou as pessoas, tem gente que fala “porra Vitão tu ta cabeludo ainda hein cara?”, só que o cara nem imaginava que eu com 51 anos estaria ainda cabeludo, entendeu? Então eu acho que a internet foi a grande responsável pelo distanciamento das pessoas. Eu acho que falta sim, um bar, casa de show, mesclado né? Para sentar bater papo e sem aquele desfile de moda, sem aquele “porra meu sou novo no pedaço”, entendeu?

W (DD): Que fosse um lugar para confraternizar, para trocar ideia.

VB: Isso. Igual a gente esta fazendo agora, estamos aqui sentados, batendo um papo. Antes de começar o programa a gente já relembrou tanta coisa e estar relembrando isso, isso é muito saudável você mexer com o passado de uma certa forma. Eu tive um passado legal, você também deve ter tido um passado, todo mundo, então acho que isso é muito saudável para gente.

W (DD): Bom, além de todo esse papo que a gente ainda vai bater, estamos só começando agora Vitão, a gente também ouve música aqui no Wikimetal e hoje você vai nos ajudar na seleção musical que vai rolar né?

VB: Opa! Lindo.

W (DD): Eu queria que a gente fizesse uma espécie de viagem no tempo. Você que acompanhou tanto de Heavy Metal desde o começo, você acabou de comentar, antes realmente do movimento começar ou bem na época que começou.

VB: Antes era rock pesado, rock pauleira.

W (DD): É rock pauleira. Você pegou toda essa época, todas essas décadas. Então a gente vai pedindo, vamos avançando no tempo. Para começar, queria que você escolhesse uma música que para você foi muito importante ou que você acha que representa a década de 70. Uma música de Metal que para você foi muito importante ou que você quer rolar ela agora aqui no Wikimetal?

VB: Tem duas, mas vou escolher uma. Para mim Children Of The Grave do Black Sabbath que eu acho que é aquela levada, aquela “tannnn”, sabe aquelas puxadas do Iommi para mim, quando eu ouvi isso eu falei gente do céu: “quando eu crescer eu quero ser o Bill Ward”, alguma coisa desse tipo. Outra também é a Highway Star na versão ao vivo do Made In Japan que faz 40 anos agora em dezembro e continua sendo tão atual, tão referencia nos dias de hoje.

W (NM): É a melhor música ao vivo dos tempos na sua opinião?

VB: Eu acho cara, porque só tem um overdub, na Child in Time que é confesso e o Purple até hoje quando eles gravam, eles não fazem overdub, mas o Roger Glover falou “só tem um overdub”, vão crescendo da voz do Gillan que precisou. O resto é tudo ao vivo mesmo, tudo in natura, sabe? E até hoje é referência, mas o Children Of The Grave é uma música que quando escuto as tripas mexem aqui dentro.

W (NM): Em qual versão?

VB: Eu gosto do Live Evil.

W (NM): Live Evil com o Dio?

VB: É.

 

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