Autoramas injetam simplicidade e descontração no rock nacional

Estadão

23 de janeiro de 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

Quanto o trio Autoramas surgiu no Rio de Janeiro, muita gente não entendeu a proposta da banda de fazer música barulhenta e bem humorada repisando alguns clichês do rock nacional e agregando sons distintos e diferentes do cenário nacional.

Tachados de punks por algumas tribos e por jornalistas que queriam se mostrar mais antenados do que realmente eram, o Autoramas acabou sendo considerado muito rock e punk para ser pop, e pouco punk e pesado para ser realmente punk.

Não que isso realmente tenha importância, porque a obstinação do guitarrista e vocalista Gabriel Thomaz foi mais forte e ele manteve a banda na ativa, no underground, sem depender de rótulos ou de aceitação prévia. Não faz nada de revolucionário, mas desde sempre seu pop rock mais para o rock era realmente diferente do que o mercado oferecia.

Se não havia espaço no mercado brasileiro, então o exterior era a saída. Cantar em português era o que menos importava. A música chamou a atenção de diversos selos europeus e lá foi o trio para uma série de apresentações em rápidas turnês nos últimos anos na Europa.

Tamanho desprendimento e insistência fizeram com que o Autoramas alcançasse um patamar raro entre bandas underground brasileiras: ter cacife e fãs suficientes para que conseguisse lançar o novo álbum, “Música Crocante”, o sexto da carreira, com financiamento próprio e do público.

Legítimo produto independente e em grande parte financiado por fãs, o novo trabalho é um resumo da carreira do Autoramas, só que com uma produção melhor e com 13 músicas que reforçam as características de sempre: uma mistura doida de surf music, um pouquinho de punk e psychobily, new wave e pop nacional dos anos 60 e 70, com destaque para Roberto e Erasmo Carlos, como destacou o baterista Bacalhau em recente entrevista à revista Billboard Brasil.

Qualquer resenha estrangeira sobre um show da banda ou músicas mais antigas costuma destacar que o trio tem um “som único e definido, soando bastante original”. Exageros à parte, Thomaz, Bacalhau e a baixista Flávia Couri parecem acreditar nisso – e com esse espírito lançaram um álbum bastante interessante.

Gabriel, Flávia e Bacalhau formam o Autoramas

“Música Crocante” merece uma audição atualmente porque transpira descontração. Nada ali parece forçado ou premeditado. A gravação é de boa qualidade, mas simples, sem invenções na produção, o que remete diretamente ao clima underground onde a banda foi criada. O bom astral domina todo o disquinho.

“Verdade Absoluta e “Tudo Bem”, que abrem o CD, mostram a banda afiada e certeira: rápidas sem ser aceleradas, com boas harmonias e melodias bem pegajosas, com bateria marcada que lembra bastante o pop americano sessentista.
“Lugar Errado” é uma pérola pop com os vocais principais de Flávia Couri e segue na mesma toada, só que remetendo ao rock nacional dos anos 80, embora com um solo bem interessante de guitarra – coisa rara nas bandas daquela época.

O lado surf music reaparece na instrumental “Guitarrada II”, com uma interessante mistura de Dick Dale e ritmos brasileiros, com destaque para a performance inspirada de Thomaz.

Também merece destaque outra faixa instrumental, que aparece como bônus algumas edições, a reinvenção de “blue Monday”, do New Order, mais rápida e com baixo marcante, com adição de elementos eletrônicos – estes dispensáveis, mas que, não há como negar, deram um aspecto diferente para a música. No YouTube há uma versão ao vivo para esta canção, no show de lançamento em novembro do ano passado, e que ficou bem melhor, já que ganhou mais peso.

“Música Crocante” é um sopro de vida no quase morto rock nacional, não só pela música em si, que foi bem feita e traz bastante descontração, mas pelo despojamento da produção e pela forma de como foi financiado, mostrando que existe um caminho interessante a ser trilhado e que bandas como Autoramas, Baranga, Motorocker, Cracker Blues e muitas outras podem aser alternativa ao som plastificado, massificado, artificial – e ruim – de bandas como Restart e seus clones.

O Autoramas começou em 1997 quando Gabriel Thomaz (guitarrista e vocalista), ex-integrante da banda Little Quail and the Mad Birds,  mudou-se de Brasília para o Rio de Janeiro e, junto com os amigos Bacalhau (baterista) e Simone Dash (baixista), começou a fazer um som batizado de “rock para dançar”. Em 2010, já com a nova e elogiada baixista e vocalista Flávia Couri, foram escolhidos na Espanha como terceiro melhor show internacional do ano, só perdendo para Mark Lanegan e Alice Cooper.

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