Até que o Nirvana serviu para alguma coisa

Estadão

09 de setembro de 2011 | 16h00

Roberto Capisano Filho

Para mim sempre foi difícil entender o porquê de tanta gente adorar o Nirvana. Nunca vi nada no som dessa banda. Na minha visão, não passou de uma tentativa de se fazer uma reedição do punk, aliás, uma reedição fora de época já que no início dos anos 90 o punk já não tinha a menor razão de ser.

Nunca consegui ver nada interessante no som do Nirvana. As músicas têm todas o mesmo formato. Começam calmas para explodir em um refrão no qual o vocalista grita ensandecidamente para, em seguida, voltar àquela calmaria inicial.

Os solos são de uma pobreza que dá pena. Kurt Cobain não parecia ser capaz de fazer algo além de repetir a melodia da música. Muito pouco para um solo de guitarra de uma banda de rock. No pop talvez isso funcione, mas mesmo assim, não dá para repetir essa fórmula toda hora, como ele fazia.

O baixista Chris Novoselic também nunca empolgou e me faz lembrar as primeiras aulas de química na escola quando aprendíamos o que era insípido, incolor e inodoro.

Antes que as viúvas de Cobain (e ele tem muitas que, neste exato momento, devem estar usando bermuda e camisa de flanela xadrez) comecem a me xingar, planejar como vão me pegar na saída ou me jurar de morte, quero deixar bem claro que essa é apenas minha opinião, gostem ou não. Ninguém precisa concordar, não faço a menor questão disso. Não estou aqui desenvolvento um tratado acadêmico definitivo sobre o Nirvana. Tudo bem, o grupo tem lá sua importância na história do rock. Mas isso não me faz deixar de considerar a banda uma enorme chatice.

Então por que resolvi falar de uma banda de que não gosto? Porque tenho que admitir que o Nirvana serviu para pelo menos uma coisa: foi o  trampolim perfeito para o baterista Dave Grohl se lançar na cena musical mundial. Ele sempre foi a única coisa que valia a pena no grupo. Tocava – e toca – bateria com vontade, era o único que empolgava ali. Enquanto  Novoselic matava qualquer um de tédio e Cobain maltratava a guitarra com sua falta de técnica e o público com seu astral depressivo, Grohl fazia valer a pena ter pago ingresso para o show.

Prova de que ele é indiscutivelmente o mais talentoso da banda é sua carreira pós-Nirvana. Basta ouvir o Foo Fighters. E olha que eu tenho não um, mas os dois pés atrás com bandas surgidas na década de 90 em diante. Principlamente bandas que vieram do malfadado grunge.

As músicas falam por si. Ouça The Pretender, No Way Back, Wheels, Long Road to Ruin, Generator, Breakout, Monkey Wrench, Big Me e White Limo, só para citar algumas. Passam longe da fórmula estrofe calma, refrão gritado, estrofe calma. O Foo Fighters faz um rock honesto, com energia, com boas melodias e sem se repetir o tempo todo. E passa longe daquele clima de desgosto com a vida que Cobain impunha ao Nirvana.

Não que Grohl não curtisse  o que fazia, mas tenho certeza que agora ele está muito mais satisfeito. Ele assumiu a linha de frente da banda, canta muito mais que Cobain (desculpe, mas a comparação é inevitável) e faz uma música que chama a atenção. O Foo Fighters merece respeito. Ou será que Jimmy Page e John Paul Jones, do Led Zeppelin, e Lemmy Kilminster, do Motorhead, e Tom Petty, piraram? Eles já estiveram em algum momento envolvidos com Grohl.

Não bastasse as qualidades de Grohl como músico, ele e o Foo Fighters têm um senso de humor que tem de ser ressaltado. Basta ver os vídeos da banda. Completamente diferentes daquela coisa sombria do Nirvana. E não me venha dizer que o mérito disso é do produtor do clipe, porque se os vídeos seguem essa linha é porque Grohl quer assim. O cara tem talento. Em meio a tantas bandas que sobem no palco com ar de quem está lá contra a vontade e fazem vídeos que estão mais para velórios, o Foo Fighters carrega o verdadeiro espírito do rock and roll.

 

 

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: