As vaias ao NX Zero e as tendências autoritárias de parte do público jovem

Estadão

28 de setembro de 2011 | 06h40

Marcelo Moreira

A bola já cantada há meses: as bandas emo do Rock in Rio 2011 seriam massacradas pelo público e os artistas do rock nacional dos 80 sairiam por cima – se não consagrados, pelo menos seriam ovacionados, como ocorreu com Capital Inicial.

A vaia estrondosa que NX Zero levou no segundo dia, assim como ocorreu com o Gloria (que se salvou um pouco no final com músicas mais pesadas e versões de canções do Pantera), lembrou os bons e velhos tempos em que o público deixou claro o equívoco na escalação absurda.

Só para lembrar: Erasmo Carlos no dia do metal em 1985, Lobão em 1991, também escalado entre os metaleiros e alvejado por milhões garrafas de água, latinhas, chinelos e muitas outras coisas, e Carlinhos Brown, o peixe fora d’água em 2001.

É claro que o massacre desses artistas pode ser visto como um atentado à liberdade artística (o que é um absurdo), ou como uma legítima manifestação da liberdade e vontade do público, ou seja, uma manifestação legítima da insatisfação dos espectadores.

O que me espanta na repercussão de casos como esse é a mente autoritária de parte expressiva do dito “público musical” brasileiro.

O Combate Rock já tem mais de ano no ar no www.jt.com.br e já publicou textos com críticas a artistas de vários calibres, desde os superestimados e com talento duvidoso, como Mutantes, Raul Seixas, Legião Urbana e Los Hermanos, até coisas reconhecidamente ruins e, dependendo do ponto de vista, execráveis, como Nirvana e toda a porcaria grunge dos anos 90.

NX Zero no Rock in Rio 2011: até agora, a maior vaia do festival (FOTO: JF DIORIO / AE)

A tônica dos “protestos”, parte deles raquíticos e desprovidos de bom senso e argumentos, recai na perigosa tendência de desqualificar quem critica e partir para o confronto autoritário: “quem são vocês para criticar?”, “ícones da música não podem ser criticados”, “a vaia deveria ser proibida”, “quem não quer assistir ou ouvir em de ir embora em vez de ficar vaiando” e milhares de outras “pérolas” da idiotice humana.

Quando muita gente apoia coisas do tipo “vaias deveriam ser proibidas”, como alguns acéfalos e analfabetos culturais escreveram por aí nos últimos três dias, é sinal de que é necessária uma análise mais cuidadosa a respeito do que ocorre no mundo cultural.

A julgar pelas bobagens que essa gente expele por aí, temos uma parcela expressiva do público que teoricamente consome cultura que não tem pudores em defender a censura e o autoritarismo.

Esse lixo de abordagem e de pensamento já vem sendo disseminado há mundo tempo no mundo do futebol, mas nunca foi levado realmente a sério, dado o baixo nível que domina os fãs atuais de futebol e ao degradado meio profissional, onde técnicos de gabarito chegam ao cúmulo de dizer que “jornais e jornalistas deveriam somente se preocupar em relatar apenas, e não ficar analisando e criticando, dando opinião” – indo na linha do que disse no ano passado um ex-presidente da República recente com totais tendências autoritárias e que defende censura e controle da imprensa.

Quando vemos alguns expoentes de uma geração que supostamente tem informação, ou tem acesso a ela, defendendo que “vaia deveria ser proibida”, fica claro que o problema educacional no Brasil é um pouco mais grave do que sempre foi. Nem ao menos os valores democráticos e o simples respeito à opinião dos outros é tolerada.

Isso pode ser amplamente observado nos textos que o Combate Rock publicou neste ano a respeito de aspectos das carreiras e trabalhos de Mutantes e Raul Seixas.

Por trás da indignação de parte do boçais que se manifestaram nos comentários dos textos estava a tendência autoritária e a postura intolerante de não aceitar críticas aos seus artistinhas prediletos.

 

Gloria foi mal recebido e sofreu para ao menos cativar por algum tempo o público hostil, mas se salvou no final com músicas mais pesadas (Foto: EVELSON DE FREITAS/AGENCIA ESTADO/AE)

E neste casos temos gente que não leu e não gostou, mas assim mesmo se achou no direito de “questionar” e “protestar”; gente que leu e não entendeu uma linha sequer (sem comentários), mas assim mesmo achou que tinha condições intelectuais de reclamar e não admitir as fragilidades de seus “ídolos”; e gente que leu, até entendeu, mas no final se recusou a entender e a xingar, ofender e destilar palavrões.

Quase todos exalavam aquela raiva hidrófoba que acomete os fanáticos religiosos e que os cega, deixando-os incapazes de entender o contexto dos textos e intolerantes a ponto de não admitirem o diferente, de não aceitarem o contrário, o oposto e a discordância.

E foi novamente esse tipo de comportamento infantil, mas perigoso, de certa forma, que tem dominado parcela expressiva do público que se manifesta a respeito das análises das apresentações do NX Zero e do Gloria no Rock in Rio 2011.

É justamente o público jovem das bandas emo que tem se mostrado o mais intolerante do que os notórios intolerantes do metal extremo. É esse povo que tem escrito bobagens do tipo “vaiar deveria ser proibido”. Ou então essa suprema pérola, postada em um dos textos do Combate Rock sobre as fortes vaias ao NX Zero: “pra mim ninguém tem direito de vaiar nenhuma banda , por que eles apenas tão fazendo o trabalho deles . E quem vaiou devia ter vergonha do que fez !!”

NX Zero é uma banda muito fraca e muito ruim ao vivo. As vaias foram pertinentes antes, durante e depois, gostem seus fãs ou não. Gloria também é fraco, mas ao menos conseguiu embutir um certo peso em sua música, ainda que de forma forçada.

E não adianta protestar por aí e esbravejar contra as críticas. Elas vão existir, assim como as vaias. Coisa ruim tem de ser criticada e vaiada mesmo. E qualquer tendência autoritária tem de ser varrida para o lixo, assim como qualquer apoio a todo tipo de censura.

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