As preciosidades do baú do bluesman André Christóvam

Estadão

03 de dezembro de 2012 | 06h50

Marcelo Moreira

O guitarrista André Christóvam decidiu abrir o seu baú de raridades, embalado pela boa receptividade de três de seus trabalhos reeditados pela Substancial Music e pela surpresa em relação ao lançamento do álbum ao vivo “André Christóvam Trio With Hubert Sumlin Live in POA”. O próximo projeto fonográfico, aproveitando o bom momento, deverá ser um pacote com CD e DVD de uma apresentação realizada ao lado de Taj Mahal no Brasil, em 2000, no festival Heineken Concerts.

Depois de um período recluso, desde meados da década passada, – que coincidiu com nascimento dos dois filhos –, o músico retoma o gosto pelo mercado musical desde que acertou o relançamento de sua discografia por um novo selo.

“Mandinga” (1989), “The 2120 Sessions” (1991), gravado nos Estados Unidos, e “Banzo” (2002), seu último trabalho com músicas inéditas, já voltaram às lojas, enquanto que “Catharsis” (1996) e “A Touch of Glass” (1990) aguardam o trabalho de remasterização e devem ficar para o ano que vem.

“As negociações com antigas gravadoras para que eu conseguisse relançar o meu trabalho foram satisfatórias, o que me proporcionou um contrato interessante com a Substancial Music, que demonstra um interesse grande em meu trabalho”, diz o músico.

André Christóvam e seus novos lançamentos

O lançamento do álbum ao vivo com Taj Mahal seguirá os moldes do CD com Sumlin, no formato simples e com apresentação gráfica semelhante ao dos bootlegs (CDs ou LPs piratas, geralmente com gravações ao vivo não autorizadas).

O trabalho ainda depende de um acordo com a TV Cultura, detentora dos direitos de imagem e de áudio daquele festival. “Assim como a apresentação com Hubert Sumlin, a vinda Taj Mahal representou um momento mágico em que um grande artista internacional foi acompanhado por um time de músicos brasileiros de primeira.”

Acompanhando o músico norte-americano e Christóvam na casa noturna paulistana Bourbon Street estiveram o guitarrista Mozart Melo, o baixista Celso Pixinga e o gaitista Flávio Guimarães (Blues Etílicos), entre outras feras da música brasileira.

Enquanto divide o seu tempo atualmente entre alguns trabalhos de produção de shows, a reedição de sua obra e uma média de três a cinco apresentações por mês, ainda encontra tempo para escrever um livro de memórias, ainda sem previsão de lançamento.

“Tenho algumas boas histórias para contar de mais de 30 anos de carreira ao lado de artistas como Rita Lee e Roberto de Carvalho, Rádio Táxi, Kid Vinil, Bruce Ewan e muitos outros. Serão histórias curtas que considero interessantes e engraçadas, e que deem a ideia de como são alguns aspectos da vida na estrada e nos estúdios”, relata o músico com empolgação.

O mergulho em seu baú de preciosidades tem a ver com as mudanças que o que guitarrista observou em sua vida nos últimos 15 anos. Há dez anos longe dos estúdios – “Banzo” é de 2002 -, continua estudando com afinco diariamente, e descobriu que o palco é o local onde conseguiu realizar seus melhores trabalhos.

Assim, é compreensível que dê especial atenção a duas gravações ao vivo que considera históricas. E vai mais além: prevê que eventuais novas composições, se um dia forem registradas, serão em novas gravações ao vivo. “A energia e a troca intensa de informações no palco, entre os músicos e entre músicos e plateia, é um componente cada vez maios valorizado por mim, assim como as performances em si. Hoje, para mim, é a maneira adequada de registrar o meu trabalho.” 

Registro soberbo

O guitarrista sempre se destacou como um dos mais originais músicos brasileiros. Virtuoso, técnico e refinado, estudou em escolas de música norte-americanas e fez parte do boom do rock nacional dos anos 80 com a banda Heróis da Brasil, até se encontrar no blues com cara bem brasileira.

Reconhecido internacionalmente e frequentemente requisitado por artistas de vários calibre, Christóvam estranhamente tem se mantido longe dos estúdios, aparentemente desgostoso com o mercado atual. 

Com seu primeiro álbum ao vivo, ao lado de Hubert Sumlin, gravado em Porto Alegre em 2002 durante o festival Natu Nobilis, Christóvam preenche um espaço vazio que existia em sua discografia e contenta amigos e fãs que sempre cobravam a edição de um registro ao vivo. Mal sabem eles que este será o primeiro de uma provável série de shows que serão editados.

O show com Sumlin, bluesman norte-americano morto em 2011, também tem a a presença de outro amigo, o excelente guitarrista Coco Montoya, que já tocou com a lenda inglesa John Mayall. Entre clássicos do blues e canções mais obscuras, o que se vê é uma execução fervilhante e vigorosa de uma banda afiadíssima e uma performance cativante do convidado principal. 

No baixo e na bateria, outras feras: Mário Fabre (baterista que toca com os Titãs hoje) e o virtuoso Fábio Zaganin. É uma preciosidade que demorou demais para chegar às lojas.

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