As preces de Joe Cocker

Estadão

29 de março de 2012 | 12h00

Jotabê Medeiros

Num quarto de hotel em Porto Alegre, o homem hospedado como Robert Clark é, na verdade, uma das maiores e mais trágicas vozes que o blues e o soul já tiveram em seu time: Joe Cocker.

Ele esteve na lendária primeira edição do Festival de Woodstock, emprestando sua voz à versão sanguínea de With a Little Help from My Friends, dos Beatles. Como Janis, insinuou que uma canção fundamental seria aquela que consumisse o artista no palco, como num incêndio.

Mas Janis morreu e Joe Cocker sobreviveu, aos trancos e barrancos. “Não havia ‘rehab’ na minha época. Ninguém chegava para mim e dizia: Joe, você precisa parar com isso”, ele disse ao Estado de S. Paulo, comentando o destino de Amy Winehouse (que admirava). Ele canta hoje em São Paulo.

Você está vindo com um disco novo na bagagem, Hard Knocks (2012), certo?

Eu fiz esse álbum com a Europa na mente. Eu tive boas passagens pela Alemanha, tenho muitos fãs lá. Então fiz esse disco com a Sony da Alemanha, é uma coleção de canções mais do tipo “para tocar no rádio” do que meus três álbuns anteriores. No show, eu canto duas canções desse novo disco, Hard Knocks e Unforgiven. Para não chatear as pessoas com muitas coisas desconhecidas.

Como você define uma música “tipo para tocar no rádio”?

Bem, o produtor do disco, Matt Serletic, ele tem uns 40 anos de idade e andou por uma banda chamada Collective Soul anos atrás. Ele tinha algumas boas ideias do que poderia ser um som moderno. Devo confessar que ele pareceu doido demais para mim. Mixamos algumas coisas no meio do caminho, e o resultado é o que eu chamo de som de rádio.

Você tem lembranças da última vez que cantou no Brasil?

De uma certa forma, não foi tão bacana, porque eu fiquei chateado com o assédio. Eu não podia caminhar pelas redondezas, sempre ficava cercado de garotos. Não podia ir a lugar nenhum sem ser sequestrado. Mas agora está mais tranquilo, posso ir a todo lugar. Nós fizemos agora shows no Peru, pela primeira vez passei pela Argentina. Está sendo ótimo.

E Porto Alegre? O que está achando?

Muito boa a comida. Fui almoçar hoje, eles têm um jeito diferente de preparar a carne aqui. Eu pedi um steak gigante, e a apresentação é diferente daquela da Argentina. Muito boa. Não tenho reclamações. Foi um pouco surpreendente na Argentina para mim, porque eles não reagem muito às canções. Pareciam muito sérios. Espero que seja diferente aqui, no Brasil, um pouco mais quente. Ao menos em canções como You Can Leave your Hat On (risos).

Desde que você surgiu em 1968, poucos atingiram um nível de interpretação tão trágico. Surgiram alguns, como Jeff Buckley e Anthony Hegarty, mas é difícil.

Você fala do soul natural. É raro. Eu nunca escrevi muitas canções, até escrevi algumas com um pianista de minha cidade natal, Sheffield, Chris Stainton. Foi no começo. Eu me dediquei a encontrar boas canções que eu pudesse deixar na memória das pessoas. Quando interpreto canções como You’re so Beautiful, minha proposta é reinventá-la a cada noite. Isso é interpretação, trazer emoção à sua voz. Eu tenho uma boa banda, que sabe o que eu quero. Se estou ainda cantando após 45 anos, é porque talvez eu possa transformar uma canção em algo especial. Tento comunicar um sentimento por meio de uma canção, o que não é fácil.

Você é inglês, mas é muito mais natural para você cantar o american songbook.

É verdade. Eu nunca tentei entender isso, mas sou do Norte da Inglaterra. Quero dizer, os Beatles eram de Liverpool, que não é tão distante de Sheffield. Ali, nós fomos muito influenciados pelo blues de Chicago. Acho que eu carreguei aquilo comigo em minha voz. Eu amo Ray Charles, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson. Eu sou um “bluesband guy”.

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