As novidades estão sumindo cada vez mais de seu rádio

Estadão

30 de julho de 2013 | 06h42

Marcelo Moreira

O rock parou quando surgiu o grunge. É o que dá para concluir quando se escuta as duas únicas rádios dedicadas ao rock na Grande São Paulo – e que retransmitem para outras regiões do Estado e cidades de outros locais do Brasil. Escutar alguma novidade ou alguma coisa diferente de artistas já estabelecidos é um desafio e tanto à paciência do ouvinte.

Uma das melhores coisas do mercado musical, nos últimos meses, foi o retorno da 89 FM ao rock, agora com o portal UOL, o maior da internet brasileira, dando suporte e emprestando o nome à emissora. Alguns meses depois, a decepção: a programação escolheu o caminho fácil de tocar somente hits e massificá-los à exaustão – como se já não estivessem massificados o suficiente. Um caminho perigoso também trilhado pela única concorrente, a Kiss FM.

Quem quiser ouvir artistas novos ou sons novos de artistas já estabelecidos pode esquecer, as duas rádios não são o melhor caminho. O Combate Rock ouviu as duas emissoras na semana passada por quatro horas diárias, durante cinco dias úteis. Foram toneladas de flashbacks, repetições exaustivas e um deserto de novidades.

A Kiss FM pode justificar informando a que a sua linha de “classic rock” exige que se toque somente sons antigos de bandas antigas – ok, é o DNA da rádio.  O que não justifica o fato de a emissora só executar as mesmas quatro músicas do Deep Purple, as mesmas três do Black Sabbath e as mesmas cinco dos Rolling Stones e três do Queen. Parece que essas bandas só gravaram as tais músicas e mais nada.

O Deep Purple está com CD novo no mercado, e excelente, com músicas legais e inspiradas. Mas seu novo trabalho solenemente ignorado. A programação da Kiss toca quase que diariamente “Smoke on the Water”, “Highway Star” e “Burn”. A 89 FM só toca a primeira, e olhe lá.

O Black Sabbath teve duas de suas músicas mais novas do álbum “13” executadas por dois dias, e poucas vezes, nas duas duas rádios, e mais nada. E tome doses cavalares de “Paranoid”, “War Pigs” e “Iron Man”. Por que será que e tão difícil variar as músicas de artistas como os citados, que gravaram mais de 400 canções cada? Qual é o medo? Será que os ouvintes das duas emissoras são tão desleais e desinformados que só aceitam ouvir até  fim da vida as mesmas cinco canções?

A 89 FM acha que o grunge é a melhor coisa que já surgiu na face da terra. Por dois dias seguidos, à tarde, lançou mão de sequências recheadas de Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Screaming Trees. É lógico que houve abuso de “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, “Alive” e “Even Flow”, do Pearl Jam, e “Them Bones”, do Alice in Chains.

Sons novos? Só na sexta-feira, com “Praça da Árvore”, a nova de Nando Reis – e que está sendo apoiado pela emissora, em uma promoção -, e a promessa de tocar no início da noite um som da banda de metalcore/emocore Asking Alexandra. E muito pouco – quase nada.

A Kiss FM também não arrisca e se apoia nos mesmos hits de sempre das bandas já citadas. Qualquer variação ou lado de B de um artista importante ou famoso é ignorada, talvez pelo medo de a banda não ser reconhecida e o ouvinte mudar de estação. Ao fazer isso, a emissora subestima a inteligência de seus ouvintes e  desrespeita, ao privilegiar as mesmas músicas todos das, todas as semanas, e incentivar que os ouvintes escolham as mesmas de sempre nos indefectíveis horários das “dez mais”. É m verdadeiro teste de paciência.

Novidade na Kiss FM? Coisa rara durante a programação normal. Coisa diferente? Surpreendentemente, “Bag of Bones”, a nova música da banda sueca Europe, que foi tocada na noite de sexta-feira – e repetida na noite de domingo. na quarta passada à tarde, o que pareceu um escorregão, “Silent Man”, uma bela balada do Dream Theater.

Não é possível que os ouvintes das duas rádios se contentem em ouvir as mesmas coisas o tempo todos os dias. Duvido que haja pesquisas de mercado que digam isso. Duvido que os ouvintes não queiram ouvir coisas novas e diferentes de vez em quando. Hoje, nas duas emissoras, praticamente não ouvem nunca.

Paralamas, Legião, Ultraje, Ira!, Raimundos, Titãs, sempre as mesmas. Não que sejam  ruins e que não mereçam ser tocadas. Merecem. Mas só elas? Então pop rock brasileiro se limita às bandas dos anos 80 que estão há 30 anos na estrada? Será que não tem nada novo que mereça ser destacado?

Scarcéus, Kiara Rocks, Máquina, Fábrica de Animais, O Terno, Cachorro Grande, Vanguart e muitas outras não merecem ao menos uma vezinha só no dial? Será que essa zona de conforto de enfiar sempre as mesmas coisas vai durar para sempre? O suposto “mercado” vai continuar dando as cartas sempre, enterrando qualquer vestígio de ousadia?

A banda The Winery Dogs, novo projeto de Mike Portnoy (ex-Dream Theater), lançou um álbum que provavelmente figurará nas listas de melhores do ano. Não bastasse isso, o CD será lançado por aqui em breve e a banda acabou de realizar shows em São Paulo. E as duas emissoras simplesmente ignoraram a passagem do trio por São Paulo.

Este é só mais um exemplo de como os programadores e as linhas editoriais estão dissociadas do verdadeiro mundo musical, que vai bem além dos mesmos hits de sempre do Black Sabbath e do Nirvana. Que a preferência seja pelo comodismo e pela repetição de hits, vá lá, mas ignorar quase que totalmente as novidades? Será que a solução mesmo são as web rádios?

Será que Nando Reis é mesmo um felizardo por ter sua música nova veiculada na 89 FM? Ou será que estará amarrado a algum tipo de promoção envolvendo empresas maiores do ramo – e só por isso consegue o espaço?

Duas emissoras que já foram a vanguarda do rádio brasileiro a partir dos anos 90 enfrentam um suposto “dilema” de agradar um ouvinte pouco exigente, que supostamente é a maioria, e de satisfazer a necessidade de coisas novas e diferentes de outro ouvinte, mais bem informado – e mais crítico.

Há espaço para os dois nas programações, mas ousadia dá trabalho e exige profissionais mais qualificados e, eventualmente, mais em remunerados.

As web rádios e os serviços tipo streaming já são realidade e progressivamente “roubam” ouvintes cansados dos jabás das rádios mais populares e comerciais e do conservadorismo desnecessário das emissoras segmentadas, em especial as rádios rock.

Aparentemente, duas das quatro melhores emissoras de rádio da Grande São Paulo caminham para irrelevância e para o mesmo destino que soterrou – e está soterrando – os jornais impressos. E não há indícios de que os responsáveis pela 89 FM e Kiss FM esteja preocupados com isso ou menos pensem em alguma estratégia, mesmo que rasa, para mudar o quadro. E a internet vai vencer mais uma vez.

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