As novas caras do pop rock nacional

Estadão

15 de abril de 2013 | 06h48

Marcelo Moreira

Submerso em um mar de porcarias sertanejas e pagodeiras, o pop rock nacional custa a ressuscitar. Ainda tem gente que tenta, e com afinco, mas o esforço tem sido insuficiente. Críticos e especialistas garantem que hoje nada é mais pop do que o tal sertanejo-brega-romântico-universitário que empesteia os ouvidos dos brasileiros desde 2010. “É isso o que o povo quer ouvir e gosta de ouvir, dizem alguns  dos especialistas. Então é assim? Vamos assistir inertes e acomodados a mediocrização compelta do mercado musical nacional?

Os adversários são fortes, com poderosos esquemas de marketing e muito dinheiro para a promoção de CDs, DVDs e turnês grandes e lucrativas. Mas tem gente que ainda tenta furar esse bloqueio. Quem são os visionários?

Matuto Moderno – São Paulo – Só agora o grupo começa a conhecer o reconhecimento que deveria ter vindo muito tempo atrás. Com shows lotados e letras inspiradas, os “caipiras urbanos” lançam o seu quinto álbum, “Matuto Moderno 5”, com uma sonoridade mais próxima do rock. Há uma profusão de solos de guitarra e arranjos um pouco mais pesados, especialmente em algumas levadas de baixo. Uma primeira audição pode causar uma estranheza aos roqueiros, já que domina ainda a moda de viola e a música caipira do interior paulista, mas aparecem boas ideias que podem deixar animados os amantes da guitarra. A influência roqueira talvez seja uma contribuição ainda mais intensa da dupla Ricardo Vignini e Zé Helder, dois dos melhores violeiros da atualidade. Além de integrarem a banda, mantém um projeto paralelo, o duo Moda de Rock, que recria clássicos do rock e do heavy metal na viola, em duetos imprevisíveis e fantásticos, já registrados nos CDs “Moda de Rock – Viola Extrema” e “Moda de Rock – Viola Extrema Ao Vivo”, sendo que este virou também DVD. “O Escuro” abre, por exemplo, com uma guitarra progressiva muito bem tocada, evocando o Pink Floyd da fase “Atom Heart Mother”, enveredando por um um rock agressivo pontuado pela mesma guitarra etérea e pesada. É a melhor faixa do álbum para os roqueiros. “Rio Sepultado” é uma homenagem ao rio Tietê, que nasce na Serra do mare e corta todo o Estado de São Paulo. Conta com um trabalho de violas extraordinário e uma guitarra simples mas eficiente. “O Tombo” começa com uma guitarra de hard rock, para emendar com um emaranhado de ritmos brasileiros e voltar ao groove pesado do início. “Recorte do Abater” inicia com uma bateria ao estilo “We Will Rock You”, do Queen, para depois cair numa engraçada catira recheada com uma guitarra distorcida.

Divulgação

Matuto Moderno

Fábrica de Animais – São Paulo – Grata surpresa com seu álbum homônimo, lançado no finalzinho de 2012. A sonoridade setentista pesada é misturada com timbres mais modernos que remetem ao U2 em alguns momentos. A influência do Golpe de Estado está presente nos vocais fortes da também atriz e produtora teatral Fernanda D’Umbra, às vezes com letras declamadas de forma exagerada, assim como ecos de da melhor fase do Velvet Underground, não só no timbre vocal como também nos temas, ora abordando o underground paulistano, ora tecendo loas à vida decadente da boemia decadente da mesma metrópole caótica. Em “Tô Cansada”, todas os maneirismos de Rita Lee em carreira solo aparecem, e de forma positiva, em rock básico à Barão Vermelho. No restante do álbum, o mesmo rock básico esbarra com vontade no hard rock, embora a timbragem das guitarras tenha ficado mais tímida, provavelmente por conta da mixagem. Outros bons momentos são “Ano Novo em Bagdá”, “But Not Today” e “Sua Esposa Ligou”.

Kiara Rocks – São Paulo – Rolling Stones anabolizado, quase esbarrando nos Guns N’Roses. A banda Kiara Rocks não teve a menor preocupação em esconder as suas referências e influências no seu novo álbum, o recém-lançado “Todos os Meus Passos”. A música “Meu Melhor Caminho” é o cartão de visitas, um rock nervoso, energético e com guitarras muito bem trabalhadas. “Marcas e Cicatrizes” vai na mesma linha. É hard rock feito como dever ser feito, com força, criatividade e certa dose de sacanagem. A banda é uma das boas surpresas de 2012 e será um concorrente de peso para bandas importantes como Tomada, Motorocker, Baranga e Bando do Velho Jack, entre outras.

Letrac – Pará – Rock pesado por excelência, na linha do Carro Bomba. Mistura de hard rock, stoner rock e heavy metal, não abusa das firulas: é pedo direto na cara, com execução competente, às vezes lembrando o próprio Carro Bomba (mas sem o mesmo brilhantismo nas letras) e outras a banda norueguesa Chrome Division, que veio ao Brasil no ano passado. O grupo aposta sem muita originalidade em temas do submundo, com vastas referências a bebedeiras, brigas, bordéis e botecos de beira de estrada. Puro rock’n’roll. Altamete indicado para fãs de AC/DC, Kiss, Motorhead, Down, Baranga, Matanza, Motorocker…

 Glória – São Paulo – Não chamem o Glória de emo. “Quem diz isso não conhece o nosso som e nunca nos ouviu”, gritam todos os integrantes em qualquer entrevista. Surgido um pouco depois da safra CPM 22 e Fresno, acabou jogado no mesmo saco por conta das letras passionais e pessoais, embora o instrumental apresentasse um peso muito maior. O novo álbum, “(Re)Nascido)”, comprova o que muitos viram no Rock in Rio 2011: música rápida e muito pesada, chegando muito perto do new metal norte-americano. É uma boa surpresa para quem esperava mais choradeira emo…

– Cinco Rios – Minas Gerais – Pop clássico e sofiscado, com letras intimistas e arranjos bem elaborados. O Cinco Rios mira alguns exemplos ro rock inglês, lembrando em algumas passagens Coldplay e Keane, mas faz questão de remeter timbres e vocalizações bem típicas de artistas que integraram ou gravitaram no Clube da Esquina, na melhor tradição mineira. Piano e teclados muito presentes e como condutores da melodia são um diferencial, assim como as letras bem acima da média. É um grupo que merece atenção, epsecialmente por conta de seu mais recente álbum “Todas as Janelas do Dia”.

– Máquina – Rio de Janeiro – O trio carioca é ambicioso e ousado, o que por si só já o credencia a ter o trabalho ouvido com atenção. Teclados e sintetizadores dão o tom em quase todo o álbum de estreia, auto-intitulado, assim como diversos elementos eletrônicos. As influências eletrônicas são clássicas e explícitas: Killing Joke, Depeche Mode, ecos de Duran Duran, synth pop oitentista e pitadas de U2 pós-“Achtung Baby”, mas com personalidade. Soa datado, vão dizer alguns à primeira audição. Mas será que não é essa a intenção? Sem dúvida é um trabalho bem interessante e diferente dentro do panorama nacional. A produção é simples, mas usou com parcimônia e inteligência os recursos eletrônicos disponíveis. Falta guitarra? Falta, mas ainda assim é um trabalho diferente que merece alguma atenção.

 

Máquina

– Scarcéus – Minas Gerais – À primeira vista, parece uma banda “emo”, mas não no sentido clássico. Letras românticas e confessionais dão o tom em algumas músicas, mas de qualidade milhões de vezes melhor do que qualquer coisa já produzida pelos verdadeiros emos. Os arranjos vocais e de guitarra são bem feitos, com destaque para o ótimo trabalho de Henrique Papatella. O instrumental é outro ponto positivo, demonstrando que o Scarcéus tem um diferencial em relação à concorrência: os timbres são refinados, assim como os arranjos de cordas e teclados. Também abusam dos backing vocals, outro diferencial. A abertura do CD “Assim Como Vocês”, com as boas “Seu” e “Não Era Pra Ser” remetem, em um primeiro momento, ao começo de carreira dos conterrâneos Jota Quest, mas fica evidente que este trabalho vai além até mesmo dos trabalhos mais recentes da banda de Rogério Flausino. “Assim Como Vocês” é mais criativo, embora não apresente nada de novo. Apesar de ser uma cara nova no mercado, o Scarcéus já tem seus méritos, como apresentações em programas da TV Globo.

Scarcéus

 

– Strike – São Paulo – O visual emo engana à primeira vista. O instrumental é bem trabalhado, com bastante guitarra e indo além, em relação ao peso, de Jota Quest e Charlie Brown Jr, as referências mais próximas possíveis. No exterior, vê-se em músicas como “Fluxo Perfeito” e “Fora da Lei” ecos de Sublime, Rancid e pitadas de Offspring. As faixas estão no álbum recém-lançado “Nova Aurora”, que teve produção caprichada de Tadeu Patolla. Como curiosidade, a participação especial de Rodolfo Abrantes, ex-vocalista do Raimundos e hoje dedicado a fazer música de orientação gospel. Esse trabalho nada tem de especial, mas pelo menos tem o mérito de fugir da tendência emo e apostar em um outro nicho pop, como fez o Glória.

Strike

– Mazzaropi Contra o Crime – São Paulo – O trio de Piracicaba já é veterano, existe desde 1998, com três CDs no currículo, mas decidiu agora retomar para valer a divulgação de seu trabalho e está relançando, ainda que de forma tímida, “MCC”, seu trabalho de 2004. O som do grupo é bastante divertido, misturando punk rock com rockabilly e música caipira. A doideira funciona, com letras muito bem humoradas e uma tosqueira instrumental proposital. “Cão Irracional”, “Interior Paulista” e “Mardita Cachaça” são os destaques.

– Cine Flórida – São Paulo – O trio faz um rock básico, quadradinho e reto, calcado no pop paulistano dos anos 90 e com ecos do rock sessentista – lembra muito, na faixa “Replays”, do EP “Por Aí”, os hits da banda fictícia, The Wonders, do fime homônimo dirigido por Tom Hanks anos atrás. Tem potencial para emplacar.

– Pink Big Balls – São Paulo – Outra banda do interior do Estado surge com um trabalho autoral que chama a atenção. O EP “Em Paz” traz um pop rock mais sofisticado, na linha do Ludov, em temos líricos, e Cachorro Grande, em termos sonoros. As referências são os anos 60 e 70, com timbres que remetem ao melhor pop inglês daquelas décadas. A produção é bem simples, mas bem eficiente, em especial nas músicas “Em Paz” e “Cabocla em Frente ao Mar”. Um trabalho bastante interessante, em especial as guitarras.

– Transmissor – Minas Gerais – Formado por músicos veteranos da cena mineira, o grupo aparece em “Nacional”, seu último álbum, com um soft rock sofisticado e com letras bem acima da médida, embora predominem os temas românticos. Até pela origem dos músicos, é mais uma banda com forte influência do Clube da Esquina, em especial das melodias de Lô Borges. “Bonina”, “Sempre” e “Dois Dias” são os destaques.

– HNT – São Paulo – Pisando em terreno perigoso, o HNT investe em um hard rock poderoso com guitarras furiosas e letras irônicas e bem humoradas. O terreno perigoso fica por conta do hard rock em português, seara onde poucos se deram bem, como o Golpe de Estado. Aliás, a letra de “Parado a Mil por Hora”, do EP “Som Pra um Novo Dia”, caberia perfeitamente em um disco do Golpe. As guitarras bem tocadas e afiadas são o destaque do EP. Grata surpresa.

 

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