As letras corrosivas de Ry Cooder

Estadão

06 de novembro de 2011 | 16h02

João Marcos Coelho – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

No auge da crise econômica de 2008, o governo norte-americano armou uma mega ajuda de centenas de bilhões de dólares aos grandes bancos à beira da falência. “Recuperados”, seus executivos continuaram se atribuindo ganhos estratosféricos, como se nada tivesse acontecido.

O jornalista Robert Scheer escreveu no início de 2010 no site www.truthdig.com o artigo No banker left behind, ou nenhum banqueiro será deixado pra trás. E abriu fogo já na primeira frase: “Eles têm licença para roubar”, referindo-se aos 20,3 bilhões de bônus distribuídos em 2009 aos executivos de Wall Street.

Naquela manhã de 24 de fevereiro do ano passado, o guitarrista Ry Cooder acordou, tomou seu café da manhã e leu no computador o artigo de Scheer. Baixou nele o espírito de Woody Guthrie, o notável folk singer famoso pelas canções políticas de protesto (deu a sua guitarra o apelido de ‘máquina de matar fascistas’).

O título da primeira canção Ry já tinha: No banker left behind. Depois de um ano de trabalho intenso, Ry Cooder lançou, em setembro passado, pelo seu selo Perro Verde, distribuído pela Nonesuch, o CD Pull up Some Dust and Sit Down, algo na linha do sacuda a poeira e sente-se para ouvir: 14 canções de protesto que falam da imigração, dos banqueiros, da crise financeira e do preconceito racial (US$ 11 no site www.nonesuch.com).

Hoje com 64 anos, Cooder ficou famoso nos anos 90 pelo Buena Vista Social Club, que transformou em superstars planetários os geniais e esquecidos cubanos da velha guarda como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Ruben González e a cantora Omara Portuondo, com direito até a documentário dirigido por Wim Wenders.

Afiadíssimo, cutuca os grandes problemas de seu país. No banker left behind tem tudo para ser um legítimo hino do movimento ‘Ocupem Wall Street’, iniciado há mês e meio atrás no coração do centro financeiro de Manhattan.

Também, com uma letra como esta: “Meu telefone tocou uma noite, meu camarada me ligou / Disse que os banqueiros estão partindo, é melhor você vir ver / Isso começou a revelação, eles roubaram livremente a nação / Eles estão lá na estação, nenhum banqueiro ficou para trás (…) / Bem, os banqueiros convocaram uma reunião, à Casa Branca eles foram um dia / Eles iam visitar o presidente, de uma maneira calma e sociável / A tarde estava ensolarada e o tempo muito bom / Eles contaram todo nosso dinheiro e nenhum banqueiro ficou para trás (…) / Ouço bem soar o apito, ele toca uma alegre canção / O condutor está chamando todos a bordo, partiremos em breve / Com champanhe e coquetéis de camarão e isso não é tudo que você encontrará / Há um bônus de 1 bilhão de dólares e nenhum banqueiro foi deixado para trás.”

 Em sua cruzada, Ry Cooder, com sua guitarra slide e um vocal sujo como deve soar o canto do blues, convoca mitos como o lendário pistoleiro Jesse James e o genial bluesman John Lee Hooker. James ingenuamente pede de volta sua arma, “para que eu possa ir até Wall Street e resolver a parada.”

E lança a candidatura de Hooker, morto há dez anos, em JLH for President. A letra, quase falada, mastigada no estilo de Hooker, começa assim: “Sou John Lee Hooker, I sing the blues. Eles disseram que o presidente não tem tempo para o blues. Eu disse, saca, cara, todo mundo tem direito ao blues. Decidi concorrer à presidência. (…) Tenho um novo programa para a nação. Será o tempo do groove. Cada homem e cada mulher terá direito a um scotch, um Bourbon e uma cerveja três vezes por dia, desde que permaneçam ‘cool’. (…) Quero nove belas mulheres na Corte Suprema. Elas me ligarão dizendo ‘Johnny, não chegamos a uma conclusão sobre qual de nós você mais gosta’. E eu vou dizer: Doçuras, vocês são igualmente gostosas perante a Lei. (…) Jimmy Reed será vice-presidente e Little Johnny Taylor o secretário de Estado. (…) Não se deixem enganar pelos republicanos, não tenham pena dos democratas, votem John Lee Hooker.”

Metralhadora giratória, Ry encarna Deus para fuzilar os deprimentes políticos na TV em Humpty Dumpty World. Em Christmas time this year, evoca a guerra: “Nossos filhos voltarão pra casa em sacos plásticos.” E transforma num réquiem a reação do pai quando o filho lhe diz que foi recrutado pelo exército em Baby Joined the Army.

Alerta, em If there’s a God, que “os ‘republiklans’ (mistura de republicanos com Ku Klux Klan) estão ficando cada vez mais fortes.” Uma delícia de consciência política. Estamos mesmo precisados de alguns Ry Cooder.

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