As lendas dos 'convites internacionais' estão de volta

Estadão

22 de novembro de 2011 | 06h39

Marcelo Moreira

Sempre me incomodou o fato de músicos brasileiros trombetearem por aí que foram convidados a fazer parte de bandas de rock norte-americanas ou inglesas, sendo que alguns solenemente recusaram tais deferências para manter “independência artística”, “foco no trabalho autoral” e outros eufemismos gastos e falaciosos.

As lendas são várias no meio artístico nacional, envolvendo gente como Robertinho do Recife, Pepeu Gomes e mais alguns eleitos por aí. O que realmente incomoda é que as histórias carecem de confirmação por outras fontes. Aí fica difícil separar a lenda da realidade.

Pepeu Gomes, guitarrista virtuoso e bastante conceituado na MPB, está prestes a completar 60 anos de idade. Além da carreira solo, fez parte do cultuado grupo Os Novos Baianos, ao lado de gente como Moraes Moreira e Paulinho Boca de Cantor. O grupo gravou aquele que especialistas dizem ser o melhor álbum de MPB de todos os tempos, “Acabou Chorare”.

Pepeu Gomes em foto recente (DIVULGAÇÃO)

Não bastasse isso, o guitarrista arrancou aplausos e surpreendeu roqueiros e metaleiros fanáticos no Rock in Rio I, em 1985, ao fazer uma apresentação praticamente instrumental, com diversas referências roqueiras nos solos e na estrutura das “quase” jams. É um músico que, a despeito do tipo de música comercial que fez nos anos 80, merece respeito como instrumentista.

E não é que ele resolve alimentar as lendas em torno de si em uma entrevista à revista Rolling Stone Brasil, edição de novembro de 2011? Relembrou a época em que teria recebido um convite para entrar no Megadeth, nos anos 90, além de outro, para substituir Vernon Reid no Living Colour…

A coisa foi além. Pepeu Gomes disse que foi convidado para “substituir Dave Mustaine (só o dono da bandas)”, mas recusou porque “teria que mexer em muita coisa no que eles fizeram e gravaram, ou iriam gravar”…

Em relação ao Living Colour, também disse que foi convidado, mas que recusou porque teria de bater de frente com o vocalista Corey Glover, “um músico de personalidade forte”. Ao recusar os dois convites, disse que preferiu se concentrar no sucesso da trilha sonora de uma novela da Globo, um dos remakes de “Mulheres de Areia”.

Pepeu com o seu visula mais roqueiro, na capa do álbum 'Masculino e Feminino'

Por mais que se pesquise bastante, em tempos de internet, não se acha uma confirmação desta história, não se encontram outras fontes que possam corroborar os convites. As lendas são conhecidas desde os anos 80, mas sempre faltou aquele algo mais que pudesse confirmar de forma singela que Pepeu, por exemplo, tivesse recebido tais convites.

Apesar da desconfiança, manterei a elegância de não desqualificar totalmente as lendas. Da mesma forma que há dificuldades em confirmar as histórias, não se pode afirmar categoricamente que Pepeu Gomes seja um mentiroso ou um lunático. Portanto, deixo abertas as portas para que a confirmação surja de algum ponto que não seja o próprio músico garganteando os convites que diz que recebeu.

Outra história que merece uma checagem é o suposto convite do Whitesnake, de David Coverdale, a Paulo Zinner para integrar a banda, isso também nos anos 80, quando a banda inglesa vivia no entra-e-sai de músicos, em especial de bateristas.

As conversas no meio musical davam conta de que houve um convite formal, já que Tommy Aldridge, um monstro das baquetas, estava deixando o grupo. A coisa não foi para frente porque haveria complicações de ordem “legal e trabalhista”, já que Zinner não possía visto de trabalho.

Paulo Zinner

Mais tarde, a lenda mudou um pouco e o que era convite se transformou na possibilidade de o baterista brasileiro realizar um teste para substituir provavelmente Aysley Dunbar, que entrou lugar de Cozy Powell e que antecedeu Aldridge. O teste, arranjado por gente do meio roqueiro nacional com amizade com a equipe de produção do Whitesnake, não ocorreu devido a problemas de documentação e visto…

Seja como for Zinner, que eu me lembre, nunca tocou no assunto em público. Nas poucas vezes em que estive com ele o assunto não surgiu, até porque havia muito mais coisas importantes a perguntar e conversar, como o seu trabalho com o Golpe de Estado, com Rita Lee, com o Fickle Pickle e o seu projeto Rockestra.

A diferença neste caso é que o baterista se mantém discretíssimo sobre o assunto, embora a lenda tenha crescido nos anos 90. Seja como for, não para cravar que sela lorota, mas ainda faltam pontos a serem ligados para que a história deixe de ser lenda. As portas do Combate Rock estão igualmente abertas para que haja tal confirmação.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.