As boas novidades em CD do primeiro semestre

Estadão

11 de julho de 2013 | 06h52

Marcelo Moreira

O primeiro semestre terminou com uma surpresa: o número grande de lançamentos de boa qualidade, em número superior ao do mesmo período do ano passado. Parece que artistas e as poucas gravadoras que sobraram decidiram retomar os primórdios, quando a música era o mais importante (até certo ponto, claro). Black Sabbath e Deep Purple decidiram colocar novos álbuns na praça e ganharam elogios inusitados – mas que se justificam, diante da boa qualidade de seus trabalhos. David Bowie saiu da hibernação e mostrou-se revigorado. Ben Harper ganhou pontos importantes com o ótimo trabalho ao lado de Charlie Musselwhite. E, de forma grotesca, surgiram dois Queensryche nos últimos seis meses, com a briga entre o vocalista Geoff Tate e o resto da banda – cada facção lançou seu álbum, sem muito sucesso até então. O Combate Rock aproveita para analisar algumas boas novidades do semestre.

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The Winery Dogs – The Winery Dogs – O incansável e workaholic Mike Portnoy, ex-baterista do Dream Theater, passou por São Paulo em junho com a sua banda Adrenaline Mob, que montou ao lado de Russell Allen (Symphony X). Mas informou na véspera que seria sua última apresentação com a banda. ainda integrante do Liquid Tension Experiment e do Transatlantic, Portnoy sentiu que não poderia dar continuidade ao Adrenaline Mob porque seu novo xodó é o trio The Winery Dogs, ao lado de Ritchie Kotzen (guitarra e vocais, ex-Mr. Big) e Billy Sheehan (baixo, Mr. Big e ex-David Lee Roth). Power trio dos bons, optou com um hard rock moderno com os dois pés nos anos 70. Pesado, denso e versátil, o trio resgata em seu primeiro álbum os melhores momentos de Led Zeppelin, Free, Bad Company, Faces, entre outras bandas. O resultado é muito interessante, com guitarras afiadas, vocais corretos e maduros de Kotzen e um surpreendente Portnoy moderado, sem os espalhafatos comuns e as viradas impossíveis. Um dos grandes lançamentos do ano.

– Planet of the Abts – Planet of the Abts – Outro trio fabuloso que mergulha nos anos 70, mas de forma mais profunda. Despojado e despretensioso, o grupo liderado pelo baterista do Gov’t Mule, Matt Abts, decidiu por trilhar o hard rock progressivo com altas doses de psicodelia. O som é pesado e virtuoso, com o baixo de Jorgen Carlsson, companheiro de Abts no Gov’t Mule, ficando bem à frente. Nas duas partes da música instrumental “Planet”, por exemplo, o instrumento hipnótico fornece a base perfeita para os devaneios do ótimo guitarrista T-Bone Andersson. Abts e o guitarrista dividem os vocais principais sem comprometer, mas a base instrumental é o destaque, com o toque sujo e abafado, em algumas músicas, típico das gravações pesadas do início dos anos 70. A lista de referências é imensa: Humble Pie, Bad Company, Uriah Heep, Deep Purple, Black Sabbath, Pink Floyd, Atomic Rooster, The Who, Cream, Grand Funk Railroad, Funkadelic Parliament, Sly and the Family Stone… O lançamento deste álbum é surpreendente porque, apesar de ser de 2012, foi colocado no mercado brasileiro recentemente por um pequeno selo paulistano, o Rock Company , em uma aposta bastante arriscada, mas muito bem-vinda.

– Ghost B.C. – Infestissumam – A sensação do heavy metal europeu atual, que vai abrir para o Iron Maiden no Brasil em setembro, nem é lá tão inovadora assim. A banda sueca abusa do marketing e faz um som competente, mas nada que justifique a bajulação com que está sendo tratada pela imprensa internacional. Entretanto, sua música deve ser ouvida com atenção. Deliberadamente retrô e com os pés fincados na NWBHM (New Wave of British Heavy Metal) do início dos anos 80, o Ghost também bebe na fonte do stoner rock, bem ao estilo Black Sabbath. Mascarados e fantasiados, seus integrantes não revelam suas identidades verdadeiras. O vocalista se chama Papa Emeritus II (que substitui Papa Emeritus I). Veste-se como se fosse um bispo da Igreja Católica, mas com um chapéu de papa. Os demais integrantes se autodenominam Nameless Ghosts, e usam fantasias de monges e máscaras. As letras um pouco ingênuas investem contra  a religião e o moralismo pernicioso (na visão deles), entre outras coisas. a banda teve o mérito de chacoalhar o rock pesado da pasmaceira dos dois últimos anos, quando houve excesso de bandas de black metal e de thrash metal ao estio oitentista. É algo diferente no cenário atual.

– Spiritual Beggars – Earth Blues – Veterana banda sueca que deu a largada para a enxurrada de boas bandas de stoner rock e stoner metal da Escandinávia nos anos 90, adota timbres mais modernos em seu heavy metal soturno e rápido em seu novo álbum. E mais uma vez reedita a sua estratégia de sempre: CDs duplos, com o segundo contendo registro de um show. A banda não é a principal atividade de seus integrantes – o guitarrista Michael Amott, por exemplo, é líder do grupo alemão Arch Enemy, de thrash/death metal – , o que pode explicar, em parte, o clima descompromissado com que o álbum foi registrado. Nem a troca constante de vocalistas afetou o bom nível que a banda exibe desde 1994. O som do Spiritual Beggars soa mais honesto que o do Ghost B.C., embora as diferenças de estilo e de conceito sejam bastante significativas. É música direta, rápida e crua, sem frescuras. Um dos grandes lançamentos do ano.

Gary Clark Jr. – Blak and Blu – O novo gênio da guitarra blues do momento está mantendo o nível de qualidade de sua estreia em álbum, no começo dos anos 2000. Frequentemente comparado a Jimi Hendrix e a Eric Gales (prodígio guitarrístico negro nos anos 90), Clark tomou a decisão arriscada de diversificar seu som para tentar escapar da acomodação. O resultado no mais recente álbum, lançado recentemente no Brasil, das misturas com hip hop e com música eletrônica não funcionou muito bem, mas é no blues que o guitarrista mostra toda a sua classe e sua pegada forte e cheia, além de mostrar técnica exuberante. Ao lado de Joe Bonamassa, é o grande nome da guitarra blues da atualidade.

– Geezer – Handmade Heavy Blues – Muita gente pensou que esse seria mais um álbum solo do baixista do Black Sabbath, Geezer Butler. O trio norte-americano estreia em CD com muita personalidade, escancarando as referências ao ZZ Top, ao Lynyrd Skynyrd, aos Allman Brothers e mesmo ao Grand Funk Railroad, mas tudo isso muito mais pesado e insano. A timbragem da guitarra lembra um pouco o trabalho do ótimo grupo escandinavo Chrome Division e, de certa forma, o Corrosion of Comformity. É rock pesado, duro, tenso, na veia, mas com letras divertidas.

– Brazilian Blues Bash – Brazilian Blues Bash Live at the Delmark House – Novo empreendimento do gaitista e cantor brasileiro Ivan Marcio e seu companheiro Giba Byblos, dois dos mais conceituados bluesmen brasileiros. Gravado em Chicago ao lado da lenda americana Merle Perkins (bateria), consegue mostrar um pouco da tradição urbana do blues daquela cidade. A principal característica é a espontaneidade de uma banda totalmente entrosada e disposta a se divertir. Marcio adora o papel de crooner e dá uma aula de gaita diatônica, enquanto que Byblos é tecnicamente impecável e bastante criativo.

 

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