As almas do soul – a nova geração

Estadão

18 de janeiro de 2011 | 08h26

Lauro Lisboa Garcia

Ele tem perfil de nerd, conta em tom de deboche que já foi confundido com o Homem-Aranha do cinema contemporâneo (Tobey Maguire), combina gravata, terninho e óculos de Clark Kent com tênis coloridos e é do tipo faz-tudo.

Compositor, produtor, arranjador, DJ de hip-hop, multi-instrumentista, engenheiro de som e entertainer, entre outras qualidades, Mayer Hawthorne leva jeito de roqueiro britânico dos anos 80, mas é uma das caras do neo soul americano, emergente da década dos 2000.

 Novidade nos palcos brasileiros, como Amy Winehouse e Janelle Monáe, o múltiplo músico de Michigan não é fenômeno isolado entre artistas (brancos e negros) que vêm renovando a soul music desde meados da década de 1990.

Mesmo que soe um tanto retrô – alguns preferem vintage, para não soar pejorativo, ele diz que seu som é atemporal –, criadores como ele devolvem ao mercado saturado de armações, ídolos descartáveis e inutilidades sonoras um pouco da genialidade prazerosa de seus inspiradores, como Marvin Gaye, Curtis Mayfield e outros ícones da gravadora Motown, que estão entre as influências de Mayer. Sua proximidade com Detroit, meca da soul music sessentista e sede da Motown, não é meramente geográfica.

Mayer Hawthorne e sua banda (DIVULGAÇÃO)

 Tendo Amy Winehouse, Joss Stone e Duffy como contrapeso feminino no novo século, e ao lado de Jamie Lidell, John Mayer, Eli “Paperboy” Reed & The True Loves e Robin Thicke, ele é um dos expoentes masculinos de maior evidência na corrente blue-eyed soul atual.

A expressão (que tem a variante white soul) vem dos anos 1960, para rotular espécies de “brancos de alma negra” que beberam das fontes do blues e do rhythm ’n’ blues. Como a soul music, o rock ’n’ roll e o reggae também se desenvolveram a partir daí.

A imensa lista dos brancos que trouxeram influências afro-americanas para sua música inclui Etta James, Elvis Presley, Janis Joplin, Dusty Springfield, David Bowie, The Who, Eric Burdon (The Animals), Joe Cocker, Steve Winwood, Simply Red, Lisa Stansfield, George Michael, Annie Lennox, Hall and Oates, Joan Osborne.

Britânicos fortemente influenciados pelo blues americano no início da carreira, os Rolling Stones gravaram vários covers do gênero. Antes de emplacar repertório próprio, os Beatles propagaram pelo planeta clássicos da Motown, como Please, Mr. Postman e Twist and Shout.

Entre românticas e dançantes, canções do álbum de estreia de Mayer, Strange Arrangement, que sai agora no Brasil, lembram clássicos do sweet soul forjado pelo poderoso trio Lamont Dozier, Brian Holland e Eddie Holland, que viraram hits com The Supremes, Stevie Wonder, Four Tops, Gladys Knight & The Pips, The Temptations. Sua música também tem elementos do rock, sem surpresas.

Amy Winehouse canta em Florianópolis (FOTO: HERMES BEZERRA/AE)

Apropriação cultural. Nos primórdios do rock, o rhythm ’n’ blues saiu do gueto ao ser apropriado pelos brancos. Entre outras questões sociais, a restrição daquele tipo de música se estendia ao conteúdo sexual explícito das letras de muitas canções, que eram vetadas nas rádios.

A mistura café-com-leite aproximou subculturas e o gênero passou então a ser reconhecido como elemento de grande significado musical e socioeconômico para a comunidade afro-americana. Trazendo para o pop a pungência e a técnica vocal cheia de melismas desenvolvida na black o gospel music, Ray Charles e Sam Cooke inauguraram a era da soul music no final da década de 1950.

You Send Me, de Cooke, está para o soul como Rock Around the Clock está para o rock e suas influências respingam no neo soul contemporâneo. Não é à toa que um dos mais requisitados covers de Amy Winehouse é Cupid, de Cooke.
A apropriação continua e, como nos primórdios do rock, o novo soul só chegou às multidões pela interferência dos desprovidos de melanina.

Amy é a figura de ponta dessa “nova” onda. Foi com ela que o gênero voltou a bombar nas rádios e despertou o gosto no público jovem, mas é a sensacional Sharon Jones a grande batalhadora dessa história.

Discriminada por uma série de motivos (peso, idade etc.), ela levou muita porta no nariz e só chamou a atenção da mídia no final da década de 2000, já na casa dos 50 anos. Influenciada por Aretha Franklin e Tina Turner, Sharon tem porte de rainha black. Com toda propriedade, Sharon disse certa vez que tentou imitar uma cantora de soul: “Eu sou uma cantora de soul”, ironizou.

O mestre Maarvin Gaye (ARQUIVO OESP)

Em agosto de 2010 Sharon fez um show memorável no Prospect Park, no Brooklyn, Nova York, acompanhada dos não menos espetaculares Dap-Kings, que usam até equipamentos analógicos para melhor soar como nos anos 1960. Tomara que sua esperada vinda ao Brasil se concretiza em 2011.

É inegável que Amy, também escolada no jazz, é um fenômeno importante. Na era do download grátis em que pouca gente compra discos, seu antológico álbum Back to Black (2006) vendeu 32 milhões de exemplares. Ou seja, ela (com ajuda de seu esperto produtor Mark Ronson) abriu as comportas com uma sonoridade retrô, tomando “emprestada” a banda de Sharon, The Dap-Kings, para acompanhá-la em Back to Black.

Esse suposto “revival” é apenas estético. Embora Amy adore fazer covers em seus shows (o que ela apresenta hoje em São Paulo tem vários), ela e seus contemporâneos têm o mérito maior de injetar no cancioneiro soul ótimo material inédito.

Donos de grandes vozes, como Cee-Lo Green, a futurista Janelle Monáe, Raphael Saadiq, John Legend (que lançou em 2010 um ótimo de CD de covers de canções obscuras de soul), Black Joe Lewis e outros já dão passos adiante, mesclando elementos do soul tradicional com eletrônica, hip-hop, rock e psicodelia. A nova década promete.

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