Anos 90 para sempre – um resgate da sonoridade de uma década 'alternativa'

Estadão

10 de setembro de 2011 | 17h00

Roberto Nascimento

Relembrar a música de 20 anos atrás tem sido, na última década, um mecanismo eficaz para compreender as sonoridades que influenciam o presente. Foi assim com a estética econômica do pós-punk do início dos anos 80, que ressurgiu nos anos 2000 no som de bandas como The Strokes, Franz Ferdinand e LCD Soundsytem – e no de tantas outras, de forma mais velada.

 E tem sido assim com uma crescente onda de novos grupos que, em 2011, se identificam tanto com padrinhos do indie noventista como My Bloody Valentine e Pavement (que junto a Guided by Voices, Dinossaur Jr. e Weezer tem voltado a tocar) quanto com o punk pop de Green Day e o rock alternativo mainstream de Smashing Pumpkins, Nirvana e Soundgarden.

O grunge, aliás, tem sido ressuscitado por festivais internacionais (o Reading, na Inglaterra, acaba de passar, como uma de suas atrações principais, a íntegra do reverenciado show do Nirvana por lá em 92) e também em festivais nacionais (vide a manada de veteranos do grunge que passam pelo País até o fim do ano).

No indie rock contemporâneo, o vírus do retrô noventista se alastra rapidamente com boas bandas como Yuck, No Age, Big Troubles e The Pains of Being Pure at Heart.

O Pains, a mais recente a receber o aval da crítica, vem ao País para tocar no Clash Club, dia 15 de setembro, na segunda edição do antenado Fourfest, que traz também Ariel Pink, incensado herói do pop nostálgico, e a banda brasileira Some Community.

A banda The Pains of Being Pure at Heart (FOTO PAVLA KOPECNA/DIVULGAÇÃO)

 “Existem coisas que fazem uma boa canção ressoar além de seu tempo”, conta ao Estado Kip Berman, do Pains of Being Pure at Heart. “Os elementos que nos atraem a uma música dos anos 60 são os mesmos que nos atraem a uma música dos anos 90. Nunca perdem a força”, completa o vocalista, que compõe, em suas próprias palavras, “canções curtas de pop barulhento e enfático”.

Em resenhas do Pains, aparecem nomes como Jesus and Mary Chain, além dos mencionados acima. As canções de Berman têm melodias que lembram o Cure do início dos anos 90.

Para o segundo disco, o bom Belong, a banda chamou o produtor Alan Moulder, responsável por discos de Depeche Mode, Nine Inch Nails, U2, Smashing Pumpkins e outros gigantes da era Clinton. Berman, no entanto, nega que exista uma estratégia nostálgica.

 “O processo em si é inconsciente. Comecei a banda com meus colegas de trabalho. Gostávamos das mesmas músicas, resolvemos compor e fizemos o grupo. Ouvimos Smashing Pumpkins, Exploding Hearts, Yo La Tengo, mas também tantas outras coisas”, explica.

Talvez os mais explicitamente noventistas desta nova sejam os ingleses do Yuck, cujo disco de estreia evoca heróis de outrora como Pavement e Sonic Youth. O vendaval de guitarras escrachadas e os vocais entorpecidos destas e outras como My Bloody Valentine e Dinossaur Jr., já mencionados, são o ponto de partida para o pop contagiante do Yuck.

Já o Big Troubles envereda pela barulheira estudada do shoegaze, gênero que tira seu nome “olhar para o sapato”, de tanto que os músicos olham para os pedais.

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