Anna Calvi: estreia viajante, de Edith Piaf a Hendrix

Estadão

14 de agosto de 2011 | 10h35

Pedro Antunes

O cinema do diretor americano David Lynch (O Homem Elefante, 1980, Veludo Azul, 1986, e Cidade dos Sonhos, 2001) é caracterizado pela busca da imagem perfeita. Um tanto surreal, ainda que o rótulo seja velado. Ele nunca ganhou um Oscar, mesmo com quatro indicações, mas levou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, por Cidade dos Sonhos. Seus filmes são, em suma, uma viagem ao desconhecido.

A inglesa Anna Calvi, de 33 anos, sempre se dividiu entre a coleção de vinis dos pais, que ia de ópera italiana a rock clássico, como Beatles e Rolling Stones, e os filmes de Lynch, do americano Gus Van Sant (Gênio Indomável, 1997) e Wong Kar Wai (Amor à Flor da Pele, 2000). Encontrou um equilíbrio ao acrescentar algumas labaredas de guitarra, herdadas dos anos aprendendo a tocar com o incendiário Jimi Hendrix. Resultado disso, o álbum Anna Calvi, lançado agora aqui, foi indicado como o melhor álbum britânico.

Ela compete, por exemplo, com a veterana PJ Harvey, que lançou Let England Shake, e com a jovem fenômeno Adele, com 21. Não deve sair vencedora, até porque sua estreia é, como um filme de Lynch, algo que deva ser digerido aos poucos e aproveitando-se ao máximo suas nuances, mudanças de andamento, violinos, órgãos, pianos e percussões que vão e vêm. Além da própria entrega da cantora e compositora nas suas músicas. Aí entram referências a Edith Piaf e Nina Simone, que “cantavam com sentimento”.

  

Tímida ao telefone, falando de Londres, Anna Calvi diz que todas essas influências chegaram aos poucos. Foram entrando em seu inconsciente de uma forma que ela só foi percebê-las ao ouvir sua própria música. “Não foi de forma direta, entende?”, diz. “Acho que tudo isso saiu como uma forma de sentimento. Vejo filmes desses autores, por exemplo, e me inspiro. Mas não é por uma cena específica ou algum personagem”.

Anna possui uma voz contralto forte, que pode atingir nuances suaves, sussurradas, como na sensual No More Words, ou nervosas, na canção seguinte, Desire, que encantou o produtor e compositor inglês Brian Eno. Ele definiu Calvi da seguinte maneira: “A próxima grande coisa desde Patti Smith”, relembrando que desde o surgimento da poetisa do punk nenhuma outra mulher foi tão importante. O elogio é valioso, mas a cantora inglesa desconversa. “Acho que é fruto de muito entusiasmo. Também não acho que eu tenha muito em comum com a Patti (Smith)”, completa.

O produtor inglês participou da estreia da cantora, colaborando em duas canções, Desire e Suzane & I. “Foi muito excitante trabalhar ao lado dele nessas canções”.

 

Brian Eno não foi o único a apostar na beldade tímida dada a solos arrojados de guitarra. A rede inglesa BBC destacou a cantora como uma das promessas do ano. Isso só de ouvir uma performance promissora de Jezebel, canção do americano Wayne Shanklin, sucesso na voz de Edith Piaf.

Quando o disco saiu, todo o agito em torno do nome de Anna Calvi só se confirmou. Ela entregava para fãs e crítica um disco envolvente, sensualíssimo, com guitarras viajantes, alguns momentos grandiosos e outros pretensiosos demais. Uma estreia que já colocou muito hype sobre a cantora, que diz não se importar: “Fico feliz que as pessoas tenham gostado. Isso me completa”, diz. “Sempre fui muito sonhadora”, finaliza ela. Como se isso não fosse perceptível no seu disco. Ou nos filmes de David Lynch.

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