Amy Winehouse: os últimos suspiros de uma diva

Estadão

14 de janeiro de 2012 | 07h00

Pedro Antunes

Amy Winehouse deixou o mundo de maneira precoce, em 23 de julho do ano passado. Uma estrela que se extinguiu antes, talvez, de atingir seu brilho máximo. Uma luz que, muitas vezes, foi ofuscada por seu comportamento autodestrutivo, regado a drogas e álcool. E, como é de praxe no mercado fonográfico o lançamento de discos póstumos quando alguém de grandeza nos deixa, com Amy não foi diferente. Depois de chegar aos EUA e Europa no fim do ano passado, agora está sendo lançado por aqui o álbum Lioness: Hidden Treasures.

Tudo não poderia ser mais oportuno e, a princípio, dá a sensação de ter sido mais uma manobra mercadológica do que em honra à maior voz feminina dos anos 2000. Amy morreu em julho e, às vésperas do Natal, no dia 2 de dezembro, o disco saiu oficialmente no exterior. A dúvida é: em pouco mais de quatro meses, foi possível encontrar os tais “tesouros escondidos”, como diz o título do trabalho?

Primeiro, é preciso entender que este não é o tão falado terceiro disco que foi recusado pela gravadora. O sucessor de Frank (2003) e Back to Black (2006) não foi aceito, na época, por contar com uma mudança muito drástica em sua sonoridade: Amy havia deixado o soul e o jazz e desbravava o ska e o reggae.

A cantora posando para fotos em 2007, em uma rara fase boa nos últimos cinco anos ((AP Photo/Matt Dunham, File)

Trata-se, então, de um disco de achados dos produtores, com gravações alternativas aos sucessos da cantora. São raspas do tacho de talento deixadas por Amy em estúdios em Nova York e Londres, nos computadores dos dois produtores que a acompanharam sempre. Ouvindo o disco como um todo, é possível perceber o esforço de Mark Ronson e Salaam Remi em manter o padrão de qualidade dos outros dois discos de Amy.

Like Smoke, quinta faixa, é quase um milagre dos estúdios. Com apenas alguns versos cantados por Amy, foi chamado o amigo da cantora, o rapper Nas, para versar sobre uma base e misturou as duas partes. É também a canção menos significativa para a obra de Amy como um todo.

O disco começa com Our Day Will Come, canção em que fica evidente o flerte com o ska. Between The Cheats, a música seguinte, também seria do tal terceiro disco, mas ela se volta para um soul datado de antes do Motown, com mais suingue.

É quando chega a primeira preciosidade de Lioness, a primeira versão de Tears Dry On Their Own, sem os retoques de Remi que transformaram a canção em um hit. É ali o talento puro e bruto de Amy. Na versão que ela sempre quis, na sua levada. E a música faz valer todo o resto.

Valerie, outro megassucesso que se ouve aqui, é o resultado apenas de alguns ensaios. É cru, meio no improviso, no melhor estilo jazzy que Amy era capaz de criar. Para os brasileiros nacionalistas, ainda é possível curtir The Girl From Ipanema, versão da bossa nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Seja uma bela homenagem póstuma ou oportunista, o disco vale pelo talento de uma diva. Ou pelo o que sobrou dele.

 

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