Álbuns de Maestrick e Santarem revigoram o metal paulista

Estadão

13 de janeiro de 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

As reclamações contra a falta de apoio a bandas de heavy metal brasileiras continua, mas começam a surgir aqui e ali bandas que desdenham dessa suposta invisibilidade e vai à luta, camelando bastante para marcar shows e juntar trocados para fazer uma gravação minimamente decente.

Duas bandas de São Paulo que estão trabalhando há muito tempo trilham por este caminho, seguindo o exemplo do Torture Squad, por exemplo, e estão obtendo resultados interessantes no mercado, com a parceria mais do que bem-vinda da Die Hard Records, selo/loja de CDs paulistana. São elas Maestrick e Santarem.

O Maestrick é uma banda de São José do Rio Preto e acaba de lançar seu novo álbum, “Unpuzzle!”, a estreia do grupo após sete anos ralando bastante. É uma surpreendente peça de metal progressivo na linha do ótimo Mindflow – outra banda paulistana de qualidade apadrinhada pela Die Hard.

A obra é conceitual e relata as impressões de visitantes durante uma exposição de artes plásticas em um museu. Tudo é muito caprichado e os arranjos são dignos de uma banda experiente do gênero – trabalho precioso realizado pelo produtor Gustavo Carmo (VersOver, Imago Mortis, Hamlet).

A faixa de abertura é uma pancada digna do Dream Theater. “H.U.C.” alia peso e velocidade com uma técnica instrumental invejável, preparando o terreno para o bom trabalho que segue por 72 minutos.

O grande destaque é a grande suíte “Lake of Emotions”, dividida em oito partes, onde o quinteto passeia pelo heavy metal, pelo jazz, pelo blues, pelo rock progressivo e por alguns rimos brasileiros – neste aspecto, tendo como clara inspiração o ótimo trabalho “Holy Land”, do Angra, ainda com André Matos nos vocais.

Se o Angra não foi tão fundo na adição de elementos de música regional brasileira, o Maestrick mergulhou de cabeça, não só nem “Lake of Emotions”, que fecha o álbum, mas na interessante faixa “Aquarela” e em “Pescador”.

E é neste mergulho nas raízes brasileiras que o grupo escorrega, às vezes de forma feia. O grupo fez uma opção clara – e acertada – pelo idioma inglês, mas decidiu por misturar português ao longo do álbum. Não funcionou.

“Pescador” é toda cantada na língua portuguesa, e é a faixa menos (ou nada) rock do álbum. “Yellown of the Ebrium” começa em inglês, com um intermezzo em português, para depois voltar ao inglês. Ficou confuso, até mesmo para tentar acompanhar a história com o encarte maravilhoso em mãos.

Outro pequeno pecado foi abusar da bossa nova em uma das passagens de “Lake of Emotions”. Destoou bastante do restante do trabalho.
De qualquer forma, o Maestrick, escolhido pelo ótimo site Whiplash, o melhor sobre rock em português, como a melhor banda paulista de 2011, é uma grande novidade no heavy metal nacional.

Os músicos são ótimos e “Unpuzzle!” é um CD de muito boa qualidade, que vale ser ouvido com atenção. Formam a banda Fábio Caldeira (vocal e piano), Renato “Montanha” Somera (contra baixo), Danilo Augusto (guitarra), Maurício Figueiredo (guitarra) e Heitor Matos (bateria).

O Santarem é uma banda mais experiente e é parceira antiga da Die Hard. Surgiu em São Paulo em 1998, transitando entre o heavy metal tradicional e o metal progressivo e também coloca no mercado mais uma remessa de seu terceiro álbum, “No Place to Hide”, trazendo um novo vocalista, o competente Thiago Scataglia.

A produção está bem mais limpa e som mantém uma pegada agressiva, embora caindo mais para o hard rock. Entretanto, as guitarras foram muito bem gravadas e mixadas, mostrando extremo profissionalismo e bom gosto na escolha dos timbres.

A qualidade de gravação também é excelente, tendo sido o álbum produzido, mixado e masterizado por Ricardo Confessori (baterista do Angra e Shaman), que deixou o som do disco bem encorpado e forte – e o melhor, a bateria é bem gravada, este que é um ponto fraco de quase todas as produções nacionais de heavy metal.

É de longe o melhor dos três álbuns do grupo, com destaque para as faixas “Faraway – Escape from the Haze”, “No Words to Say”, “No Place to Hide” e “Reason”.  Outro álbum que precisa ser ouvido por quem quer se manter atualizado em relação ao heavy metal nacional atual.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.