Alabama Shakes, o grande nome da música em 2012

Estadão

01 de julho de 2012 | 18h31

Jotabê Medeiros

Em seu primeiro show em Londres, no pequeno club Boston Arms, há alguns meses, eis quem estava na plateia: Robert Plant, David Byrne, Alex Turner, Jamie Oliver, Adele, Russel Crowe, Bon Iver, Jack White. Todo mundo atrás da nova sensação do rock americano, o grupo Alabama Shakes, liderado pela voz poderosa da cantora Brittany Howard, uma ex-funcionária dos Correios de uma cidadezinha de 20 mil habitantes no Alabama, “tipo uma parada de caminhões entre Birmingham e Nashville”, como diz a artista.

Turbinado por uma mistura de southern rock, soul e gospel, o som da banda é irresistível. Brittany é uma dessas vozes que podem levar meio século para dar o ar da graça, mas não é só isso que faz o Alabama Shakes.

A pesquisa musical que embala o baixo de Zac Cockrell (ex-técnico veterinário) evoca lendas como James Jamerson e Rick Danko. O baterista é Steve Johnson, que trabalhava numa usina nuclear. “Os caras e eu só queríamos compor música juntos, mesmo que ninguém fosse ouvir”, disse a cantora. “Estamos focados no que dizer, não no hype.”

A melhor banda de 2012 já é uma unanimidade: Alabama Shakes. Simples, sem frescura, com uma cozinha saborosa e uma vocalista que está sendo comparada com… Janis Joplin. Heresia?

Bom, vá ao YouTube e ouça Brittany Howard, de 23 anos, cantando apenas Hold On. Depois diga se há algo do porte na cena atual do rock. A gravadora Lab344 acaba de despejar no mercado brasileiro o disco de estreia do Alabama Shakes, Boys & Girls.

“Temos tido algumas ofertas para ir ao Brasil e estamos decidindo qual é a melhor hora para ir. Tenho um pressentimento que será em 2013, mas não estou 100% certa. Estamos genuinamente animados para ir aí. O mundo é um lugar enorme e é geralmente muito difícil abarcá-lo inteiro. Mas posso te dizer que o Brasil me entusiasma. Eu amo o Brasil”, disse a revelação do ano.

Você já disse que aprendeu a cantar no quarto, sozinha. E ama ouvir Bon Scott, Otis Redding, Sharon Jones. Mas, ouvindo seu disco, é possível sentir uma grande influência gospel também. Você não chegou a cantar em igreja na adolescência?

Nunca cantava na igreja a menos que fosse obrigada. Sempre gostei de ouvir a voz dos outros, e quando eu canto eu fico absorta. Amo Mahalia Jackson. Minha canção favorita dela é How I Got Over. O canto de Mahalia e Etta James vem das profundezas. É isso que eu chamo de soul.

Sua voz é um dom natural. Você sabe, houve muitas artistas com grandes vozes que inauguraram uma tradição meio trágica, como Janis Joplin, Nico, Amy Winehouse. Vejo você como o oposto, é uma artista que parece mais solar. Como se define?

Apenas tento encarar tudo como uma pessoa normal. Não posso dizer que o sol brilha sobre mim o tempo todo, mas eu sei que no fim tudo vai ficar bem. Aprendi muito da estratégia da tentativa e erro. Perguntei a mim mesma se queria ser uma pessoa cansada ou alguém em contínuo movimento. Não é fácil, mas essa é a vida.

Era inevitável: as pessoas estão comparando o Alabama Shakes a Janis Joplin and The Big Brother and the Holding Co. Ou seja: uma cantora extraordinária acompanhada por músicos não tão especiais. Como vê esse tipo de crítica?

Quando comecei a cantar, não fui ouvir alguém e dizer: é isso que eu quero ser. Respeito todo cantor que é sincero. Se sou comparada a Janis, só posso tomar isso como um elogio. Entretanto, ela nunca foi uma influência para mim, e acho que ela cantava para fazer feliz a si mesma. E isso é algo que eu posso compreender.

Seu disco Boys & Girls tem aquela sonoridade típica da Stax Records. Como vocês chegaram a esse tipo de som vintage?

Começamos a gravar essas canções no meu casarão em Athens, no Alabama. Mas nunca chegamos ao som que estamos procurando ali. Então, começamos a buscar um estúdio com instrumentos analógicos baratos e achamos um em Nashville, Tennessee. Foi a primeira vez que entramos num estúdio de verdade e pudemos expressar totalmente as coisas que amamos em disco. Foi realmente excitante caminhar para dentro do estúdio Bomb Shelter, em Nashville, e encontrar toda aquela parafernália antiga que só tínhamos visto até então em velhas fotografias.

Velhos MCI mixing consoles, gravadores, compressores e microfones vintage. Alguns dos amplificadores que usamos eram originais de rádios da Segunda Guerra Mundial. Sabíamos que ali poderíamos alcançar aquela sonoridade que procuramos em minha casa velha. Não procurávamos pela perfeição, mas nos divertimos um bocado aprendendo ali. E ainda estamos longe de aprender tudo.

Suas letras são, em geral, românticas, diretas ao coração. Imaginam-se algum dia fazendo letras políticas ou canções de protesto?

Quem sabe onde estaremos no futuro, mas eu duvido. Eu prefiro as experiências pessoais da vida como matéria-prima, mais do que a política. Muito mais.

Músicos como Booker T e Patterson Hood já se declararam seus fãs, entre muitos outros. Isso traz mais responsabilidade?

Sou muito orgulhosa de ser reconhecida por alguns dos meus heróis, e o amor é mútuo. Mas, quando estou no palco, tento fazer o melhor para mim e para a banda. Não estou tentando impressionar ninguém.

Sua cidade, Athens, no Alabama, tem 20 mil habitantes e está no meio do caminho entre as grandes cidades. Essa origem torna vocês mais confiantes ou mais tímidos quando fazem turnês mundiais?

Não havia muito a fazer em Athens quando a gente estava crescendo. Por isso, a música tornou-se nosso hobby. Nos deu algo a fazer e nos fez felizes. Mesmo tendo vindo de uma cidadezinha, não tenho medo do mundo. Eu aprendi que a maior parte das coisas permanecem do mesmo jeito, não importa em que lugar do mundo estivermos.

Você tem 23 anos. Quais são suas ambições na música? Está querendo conquistar o mundo ou sofisticar cada vez mais sua música?

Tenho um monte de ideias e nem sempre sei como expressá-las musicalmente. Quero me manter aprendendo. Procuro por um espaço para compor com liberdade e que traga consigo o objetivo, que está a léguas de distância de mudar o mundo.

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