Agora o rock é acusado ter iniciado jovem delinquente no neonazismo

Estadão

06 de junho de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

“Ele é alagoano e filho de nordestinos. Meu bisavô era neto de escravos. É um menino calmo. Quer fazer faculdade de administração. Só pode ter sido o rock. Eu preferiria que ele tivesse morrido num acidente a passar por tudo isso. Estou vendendo até o carro para pagar o advogado.”

Essa pérola de imbecilidade foi vomitada pelo pai de um garoto carioca integrante de uma gangue neonazista do rio de Janeiro. Foi publicada no dia 28 de maio pelo jornal O Globo. Philipe Ferreira Ferros de Lima e mais quatro jovens foram presos em Niterói acusados de várias agressões a homossexuais, nordestinos e negros. Nas casas dos acusados foram encontrados farto material de alusão ao nazismo e publicações de teor racista.

Não bastasse a quantidade de idiotas e descerebrados – geralmente religiosos – que ainda consideram o rock como coisa do diabo e responsável pelo desvio de comportamento, agora querem culpar o gênero musical por ter “iniciado” jovens delinquentes e criminosos no neonazismo.

Não são raros os ataques ao rock ainda em pleno século XXI. No ano passado houve uma mobilização em uma cidade do interior do Mato Grosso do Sul para proibir o gênero musical na cidade, de autoria de grupos religiosos evangélicos, “assustadíssimos” o como o perigoso ritmo.

O que eu lamento é que a reportagem do jornal O Globo, correta, deixou escapar a oportunidade de perguntar ao alucinado pai do neonazista como é que o rock foi capaz de influenciar seu filhinho tão querido a ponto de ele resolver sair batendo nas pessoas em nome de uma ideologia criminosa.

Nos anos 80 houve segmentos do movimento punk na Europa e até mesmo no Brasil que enveredaram pelo neonazismo, especialmente as gangues dos chamados skinheads, que adotavam lemas contra estrangeiros e judeus, no caso europeu. E estes segmentos tinham suas bandas preferidas que reverberavam essas bobagens.

Com o tempo o movimento punk arrefeceu, e submergiram os subgrupos criminosos, seguidos pelo completo desaparecimento das bandas com a ideologia dita nazista. Entretanto, o extremismo direita ainda assombra a Europa desde os anos 90, com ressurgimento de grupos neonazistas na França, na Alemanha, na Polônia e na Grécia. Ainda são pouco expressivos, mas estão crescendo, ainda que devagar.

Querer relacionar as práticas criminosas do filho nazista ao fato de ouvir rock é o mesmo que tentar culpar o mau desempenho de um aluno na escola por tomar suco de laranja. Infelizmente, esse tipo de pensamento perigoso ainda domina certa parcela da população brasileira que não valoriza a educação e a cultura – muito pelo contrário, fazem questão de ignorá-las.

Enquanto isso, barulhos perniciosos e de conteúdo desprezível, como pagode, axé, funk carioca e sertanejo, continuam tendo as bênçãos dessa mesma parcela iletrada da população, que se recusa a pensar e a raciocinar. Lamentavelmente,. tem sempre alguém para nos lembrar que as trevas estão bem mais perto dos que imaginamos…

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.