Afinal, a Galeria do Rock morreu?

Estadão

03 de novembro de 2010 | 08h18

Marcelo Moreira

O texto sobre a chamada Galeria do Rock Lado B, também no centro de São Paulo, no Espaço Nova Barão, suscitou algumas discussões a respeito das mudanças ocorridas na Galeria do Rock, na avenida São João, com a mudança de perfil de frequentadores e de lojistas, fato que acabou acentuado e explicitado pela novela “Tempos Modernos”, da TV Globo, que usou o local como “personagem”.

Alguns leitores responsabilizaram a novela pela decadência do local, pela mudança de perfil e por ela estar deixando de ser “do rock” para se tornar “fashion” e de “qualquer coisa”. Não creio nisso.

Entrada da Galeria do Rock pela avenida São João (FOTO: PAULO LIEBERT/AE)

Frequento o local há 24 anos, ssou amigo de muitos lojistas e asseguro que as mudanças que hoje verificamos – menos lojas de CDs, menos lojas dedicadas ao rock e muita loja de roupas e acessórios “fashion” – começaram há no mínimo oito anos.

O texto abaixo que reproduzo foi publicado no caderno Variedades do Jornal da Tarde em 16 de maio de 2009, antes, portanto, da novela “Tempos Modernos” ter começado. Ali eu já apontava para a mudança clara de perfil desejado por parte dos lojistas e da administração.

POR FAVOR, ONDE FICA A SAÍDA ?

O mundo da música mudou e a Galeria do Rock está mudando junto. Só não se sabe se para melhor ou para pior

MARCELO MOREIRA

As mudanças foram lentas e graduais. Primeiro, apareceram as lojas de roupas e acessórios focadas nos roqueiros, que chegaram sem muito alarde, no começo do ano 2000. Depois, vieram os estúdios de tatuagem. Mais recentemente, surgiu um novo comércio: o de miniaturas de super-heróis e ídolos do rock, ocupando os lugares vagos pelo tradicional mercado de CDs e DVDs.

A Galeria do Rock, como ficou conhecido o Shopping Center Grandes Galerias, no centro de São Paulo, está se adaptando na marra ao mundo da música digital e gratuita. Enquanto os comerciantes de canções “físicas e palpáveis” ainda buscam alternativas, a galeria se assume definitivamente como um centro multicultural e polo gerador de tendências.

Já os lojistas que não conseguem se adaptar à nova realidade começam a procurar outros pontos fora da galeria. “Não tenho dúvidas: a Galeria do Rock e do Hip Hop (como gosta de frisar) está entre os principais centros de cultura da cidade. A vida é dinâmica e as mudanças são naturais, ainda mais na atual sociedade tecnológica.

Antonio Souza Neto, o síndico da Galeria do Rock (FOTO: PAULO LIEBERT/AE)

Mas uma coisa é certa: o conceito rock jamais será corrompido por aqui”, diz o síndico Antonio de Souza Neto, também lojista e um dos incentivadores do “multiculturalismo” que avança rápido pelos amplos corredores do centro comercial.

Esse multiculturalismo é irreversível e ainda choca os clientes puristas, principalmente aqueles frequentadores mais antigos e ávidos por passar horas nas vitrines e nos balcões em busca de novidades musicais.

“Negar ou reclamar da mudança de perfil dos visitantes não leva a lugar algum. O público é outro, atualmente, ele consome menos música nos formatos tradicionais e gasta com outras coisas. É aceitar, se adaptar e buscar alternativas”, resume Luiz Calanca, dono da loja Baratos Afins, pioneira na venda de LPs na galeria – o estabelecimento se firmou por lá já no final dos anos 70.

Calanca é um dos mais ativos membros do condomínio e foi um dos incentivadores da transformação do espaço em polo de cultura, ajudando a organizar shows no terraço, exposições de fotografia e artes plásticas e até desfiles de moda.

Luiz Calanca, da loja Baratos Afins (FOTO: SEBASTIÃO MOREIRA/AE)

Referência internacional na comercialização de vinil, está se beneficiando de uma nova onda de interesse pelos antigos e fora de moda LPs. O seu imenso acervo conta com nada menos do que 90 mil itens – provavelmente um dos maiores do mundo.

Novas alternativas

O otimismo e o pragmatismo de Calanca não é compartilhado totalmente por outros tradicionais comerciantes de música da galeria. Não por resistir ao multiculturalismo, mas por questões de mercado. Afinal, das 200 lojas de CDs e DVDs que existiam no espaço no final do século 20, restam menos de 100.

“As vendas de CDs no balcão caíram para todo mundo. O público atual não tem o mesmo apreço pela música e se contenta com arquivos simples de áudio no computador”, observa Fausto Mucin, da loja Die Hard.

 Já prevendo um desinteresse maior pelos CDs e o aumento nos custos de se manter um espaço na Galeria do Rock, Mucin e seu sócio, André Mesquita, compraram um espaço comercial na galeria Nova Barão, a menos de 100 metros de distância, que hoje é a meca dos apreciadores de vinis – e onde o aluguel é um terço do que é cobrado na galeria original.

Saguão principal da Galeria do Rock (FOTO: PAULO LIEBERT/AE)

“O destino do CD será o mesmo do vinil: será coisa para aficionados e colecionadores. Hoje, as vendas pela internet da loja Die Hard compensam a queda de vendas no balcão, mas creio que em dois ou três anos migraremos para a Nova Barão, não só pela questão comercial, mas também pela mudança de perfil de frequentadores e de negócio na Galeria do Rock”, afirma Mucin.

Moacir Febraio, que toca a tradicional Aqualung com o irmão Dionísio, o Magrão, não é tão categórico, mas admite que o deslocamento das lojas de CDs para a galeria Nova Barão é uma alternativa viável e interessante. “A venda de música na galeria deixou de ser um negócio importante por aqui. Nossos clientes continuam os mesmos de sempre. No modelo atual, é difícil ampliar os público.”

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