Abe Laboriel Jr, um peso pesado na bateria de Paul McCartney

Estadão

20 de novembro de 2010 | 08h14

Jotabê Medeiros

Ele tinha mão pesada, mas o chefe confiou. E foi assim que o baterista Abe Laboriel Jr. se tornou um dos trunfos da banda de sir Paul McCartney, dono de um dos sets mais aplaudidos do show que o estádio do Morumbi verá nos próximos dias 21 e 22, em São Paulo.

Algumas horas antes de estrear no Estádio do River Plate, em Buenos Aires, na quinta-feira, Abe Laboriel falou por telefone com a reportagem do Estado. Um gentleman, rasgou o verbo para a plateia gaúcha e contou como é a sua relação com o homem do qual, em tese, ocupa o mesmo lugar: Ringo Starr.

Vindo de uma família mexicana de músicos, o baterista é americano formado na tradicional escola de Berklee. Laboriel Jr. , de 39 anos, é filho do virtuose do contrabaixo Abraham Laboriel e irmão de Mateo Laboriel (produtor e compositor ligado ao cinema). Foi aluno de Jeff Porcaro, Bill Maxwell, Chester Thompson e Alex Acuña.

Able Laboriel Junior, baterista de Paul McCartney (Ethan Miller/Getty Images/AFP)

Abe também tem sido um dos mais requisitados bateristas do show biz, tendo tocado com o leque inteiro da música, desde os Hanson e Lady Gaga até Steve Vai e Sting.

Há alguns anos, ele acompanhava a cantora k.d. lang, que abria shows para Sting. O baterista do ex-Police era Manu Katche. “Um grande músico, mas que parecia estar meio desinteressado, sem paixão. A gente nunca sabe o que se passa com uma pessoa no plano pessoal. Aí, quando ele deixou o grupo, Sting, que já conhecia meu trabalho, me convidou”.

Você sabe, Ringo Starr tem uma imensa reputação de ser um baterista medíocre. O que você pensa disso?

Minha opinião é que as pessoas que dizem isso são ignorantes. Ringo é um dos mais prolíficos bateristas da História. Sua abordagem da bateria foi importante para o desenvolvimento de instrumentistas como John Bonham (Led Zeppelin) e Stuart Copeland (Police).

Muitos discordam dessa afirmação, porque a técnica é apenas um dos aspectos da arte de tocar bateria. A técnica é 10% de tudo, os outros 90% são musicalidade, coisa que Ringo domina maravilhosamente bem. É um estilo verdadeiramente fantástico.

Você já o conheceu?

Sim. No início, ele veio a alguns shows nossos. É um sujeito admirável, gentil, e me apoiou muito. Depois, tocamos juntos em alguns shows beneficentes, e estivemos juntos naquele evento organizado pelo David Lynch no Radio City Music Hall.

Não tenho palavras para descrever a emoção que tive, o tanto que me impressionou notar que ele ouvia ao mesmo tempo que tocava. Ele sacou que eu toco diferente dele, e não fez com que eu o acompanhasse, ele se juntou a mim, sorrindo. É um cavalheiro de verdade, e demonstrou camaradagem legítima.

Quando você se deu conta pela primeira vez de que estava ali ocupando o lugar que um dia foi de Ringo Starr, como reagiu?

É interessante. Eu cresci ouvindo Beatles, lembro que dois dos meus primeiros álbuns foram Sgt. Pepper’s e White Album. Mas, depois, ouvi também muito Band on the Run e Wings, e todo o trabalho solo de Paul. Era isso que mais me vinha à cabeça. Não conectei com Beatles imediatamente, mas com o trabalho solo de Paul.

Para mim, nunca foi como “Oh, my God, estou nos Beatles!”. Nada disso: é como se fosse tocar com um velho amigo. Porque é isso que Paul é, um querido amigo. Quando estou a bordo dessa banda, não sinto essa reverência à coisa clássica.

Toco para a plateia, que é diferente daquela que estava na frente dos Beatles naquele tempo. Tenho diferentes gêneros como minhas influências, e essa audiência também tem. Você não pode tocar hoje em dia frente a um estádio lotado, 75 mil, 45 mil pessoas, como se fosse nos anos 1960. Não. É o mesmo espírito, mas com o fogo que John Bonham ensinou. Não posso tocar suavemente. Sou assim: grande e bombástico.

Abe, quais são suas canções preferidas dos Beatles?

Tem muitas. Por exemplo: eu adoro tocar a música Magical Mistery Tour, porque é uma celebração. Adoro também tocar Helter Skelter, porque sempre me impressiona, e é uma pedra de toque. Helter Skelter é a primeira música de heavy metal jamais tocada.

Como é ter Paul McCartney como patrão?

É exigente, mas também amigável e cordato. Quando estamos gravando, no estúdio, é sempre admirável ver como suas ideias são férteis e generosas musicalmente. E não é exclusivista: logo após gravarmos um álbum, tive o convite do Sting e fiquei três meses excursionando com ele. Só exige dedicação.

Seu pai, o baixista Abe Laboriel Sr, foi um mito da música. Qual foi a principal influência que você recebeu dele?

Confiança. Ele me ensinou que é preciso sustentar aquilo que você é, não fingir que é algo que não é. Autocontrole, autoconfiança, amor, apoio.

Esta é sua primeira turnê pela América do Sul?

Sim, é minha primeira vez. Estou muito feliz, encontrei aqui muita gente legal. Em Porto Alegre foi inacreditável, a emoção, a vibração do público. Uma plateia incrivelmente animada. É sem dúvida um recanto muito especial do planeta.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: