A voz do blues carioca foi embora – um adeus a Ricardo Werther

Estadão

19 Fevereiro 2013 | 10h04

Marcelo Moreira

A voz continuava firme, mesmo com as seguidas internações por conta de problemas decorrentes da debilitação pós-cirurgia para retirar um tumor intestinal. Havia preocupação, mas a serenidade dominou a entrevista que Ricardo Werther deu ao Combate Rock em 2012.

Era o início de uma campanha pela internet para arrecadar fundos destinados à continuidade do tratamento, já que as finanças do cantor carioca foram utilizados para cobrir procedimentos e comprar acessórios que não eram cobertos pelo plano de saúde.

Amigos músicos, atores e fãs se mobilizaram em shows pelo Brasil e textos virtuais para ajudar Werther, que morreu na madrugada desta terça-feira em Teresópolis, no Rio de Janeiro, aos 49 anos, em decorrência de problemas digestivos que surgiram após a cirurgia.

Ricardo Werther integrou nos anos 90 a ótima banda carioca de blues Big Allanbik, que revelou ao blues nacional um dos grandes instrumentistas do gênero, Gilson Szrajbman, o Big Gilson, além do baixista Ugo Perrotta, do tecladista Allan Ghreen e do baterista Beto Werther, irmão de Ricardo.

Com o fim da banda, no começo dos anos 2000, o vocalista engatou uma bem-sucedida carreira solo e lançou em 2010 o excelente “The Turning Point”, bastante elogiado no exterior.

E foi durante os preparativos para a turnê brasileira do álbum que o músico descobriu uma obstrução intestinal. Na cirurgia, os médicos constataram a existência de um tumor maligno, que foi extirpado. O tratamento e as várias internações e cirurgias subsequentes interromperam a carreira e drenaram todos os recursos acumulados em quase 20 anos nos palcos.

“Perdi 53 quilos em pouco mais de um ano, os médicos retiraram mais de 40 centímetros do intestino e tive de passar por uma completa reeducação alimentar. A luta tem sido brava, mas estou me recuperando e não vejo a hora de retomar a carreira”, disse Werther em meados de 2012.

O plano de saúde só cobriu uma parte do custos totais do tratamento e ele buscou a ajuda financeira de amigos e parentes.

Gente como Amleto Barboni, Marcos Ottaviano, André Christóvam e banda paulista Fábrica de Animais, por exemplo, arrumaram datas em suas agendas apertadas para fazer shows em prol do amigo doente.

Dois festivais foram criados em novembro passado em homenagem a Werther, com toda a renda destinada ao músico. Um deles ocorreu simultaneamente em pelo menos dez cidades brasileiras, sob a coordenação do jornalista Helton Ribeiro e suporte da revista Blues’n’Jazz.

Músico festejado e agregador, o cantor carioca fazia questão de participar dos shows de amigos e adorava lotar o seu próprio palco de convidados. Não é à toa que seu problema de saúde tenha mobilizado parcela expressiva da comunidade musical brasileira.

“The Turning Point’, o último trabalho de Ricardo Werther

Quebrando a banca no ABC

Conheci o Big Allanbik na primeira metade dos anos 90. Os cinco cariocas estavam meio acanhados no pequeno e estreito palco da extinta casa Jazz&Blues, em Santo André (ABC paulista). O barulho era grande naquela que outrora fora uma sala de estar de uma casa térrea na área mais nobre da cidade.

As pessoas acharam graça do nome do grupo de blues, ao ler um dos inúmeros cartazes espalhados pela entrada do recinto. Na foto, eles faziam cara de maus, em nada parecida com os cinco pacatos músicos tomando água e esperando a hora certa para iniciar os trabalhos – Fábio, um dos proprietários, era rigoroso neste sentido.

Mas eis que, demonstrando certa impaciência, o vocalista resolve subir ao palco, ligar a mesa de som e ignorar as conveniências da casa. “Vamos começar logo, pessoal”, convocou os quatro companheiros. “É hora de tremer esse coisa aqui.”

E o Big Allanbik calou o bar inteiro com um dos melhores blues já produzidos por artistas nacionais naquele inverno de 1994, mesclando o tradicional com pitadas de blues rock e influências de ritmos brasileiros. E Ricardo Werther assombrou os presentes com uma voz rouca e potente, um timbre muito diferente do que as pessoas ali tinham ouvido.

Em outubro do ano passado o programa de web radio Combate Rock, em sua edição nº 60, exibiu um pouco da carreira de Ricardo Werther e do Big Allanbik, aproveitando também à época para divulgar os festivais de blues em apoio ao músico.

Como uma pequena homenagem, colocamos aqui novamente o programa à disposição, que pode ser acessado por meio deste link.

Foto

 

 

Mais conteúdo sobre:

Big AllanbikRicardo Werther