A Vintage Trouble chega desconhecida e sai como gigante

Estadão

14 Setembro 2013 | 19h30

Julio Maria

Um homem de cabelos quase black power no centro do palco. Um trio de baixista, guitarrista e baterista norte-americanos ao seu lado e um microfone ao meio. Todos usando ternos e aparelhos amplificadores da antiga marca Orange, como se estivessem em algum palco dos anos 60. Muito pouca gente no Brasil sabia da existência do grupo Vintage Trouble até ontem, quando o grupo liderado pelo explosivo vocalista e performer Ty Taylor surgiu caminhando pelo Palco Sunset do Rock in Rio.

Taylor é o que se pode chamar de líder, insanamente carismático. É como se tivesse nascido de alguma costela de James Brown, de alguma corda vocal de Sam Cook ou Marvin Gaye. Apesar de ter sido colocado em um horário e em um palco que a princípio pode denotar pouco privilégio, às 16h no Sunset, Taylor conseguiu reverter todos os contras a seu favor e fez muita gente da plateia sair comentando coisas do tipo: “Meu Deus, quem é esse cara?”

A Vintage Trouble recoloca a soul music no berço, tirando todo o aparato tecnológico que ela ganhou dos anos 90 para cá. Investe em uma sonoridade crua, blueseira sobretudo na guitarra de Nalle Colt, e dançante. É, ao mesmo tempo, soul, funk, R&B e blues. Taylor rodopia pelo palco e só não se joga no chão com as pernas abertas porque aí a referência a James Brown seria descarada demais. Seu disco de 2011, The Bomb Shelter, foi a base de um show pensado para erguer ondas de comoção. Sua performance ajuda. Depois de pular no palco, resolver fazer o mesmo na plateia, andando e dançando com seu público como se estivesse em casa. Um ato que seria populismo, não fosse tão engrandecedor em seu contexto. A plateia foi atrás, e Taylor só sossegou quando fez com que todas as mãos estivessem para cima.

A convidada da Vintage foi a cantora Jesuton, algo que cheirava a armação do Rock in Rio com a Globo, já que esta cantora inglesa foi lançada pela Som Livre (braço fonográfico da emissora), com direito a matérias generosas na casa. Mas Jesuton valeu cada nota. Cantou com emoção e chorou sobre o palco. Ela foi descoberta cantando nas ruas do Rio de Janeiro, depois de vir morar no Brasil com o marido. Quando viu o público que cantava ontem com ela, não se conteve. “Gente, eu sonhei muito com isso que estou vendo agora.” Ela, então, enxugou as lágrimas e fez uma belíssima balada, Nodoby Told Me, ao lado de Taylor. Um pouco mais adiante, anunciou que faria uma surpresa. E fez, dentro da proposta de encontros do Sunset. Fez com que os gringos do Vintage Trouble fizessem com ela uma versão soul de Mas Que Nada, de Jorge Ben.

O fenômeno do Vintage foi uma amostra de uma parcela de artistas que podem ser descobertos apenas no palco. Fora das badalações dos mainstream de Ivete Sangalo, Beyoncé, Bon Jovi e Iron Maiden, eles podem fazer o ingresso valer. Antes de seu show, um grupo de street dance chamado Nós da Rua apresentou-se no espaço novo, colocado em frente ao Sunset. Foi um arraso de um grupo de bairro que ninguém conhecia. O Sunset deve voltar a realizar este tipo de façanha algumas vezes até o final desta edição de Rock in Rio. A proposta bancada pelos curadores é difícil e muitas vezes não vira. A abertura do espaço, por exemplo, com os rappers Flávio Renegado e Orelha Negra, não honrou a posição de abre-alas do evento. Faltou energia e o público se dispersou. O som, um calcanhar de Aquiles gigante na edição passada, veio com potência de sobra, apesar de apresentar falhas em apresentações como a de Maria Rita com Selah Sue.

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