A vida de Brian Jones vira ópera-rock nas mãos dos campineiros do Dusty Old Fingers

Estadão

02 Setembro 2013 | 06h35

Marcelo Moreira

O guitarrista inglês Brian Jones conseguiu uma rara unanimidade no rock, em especial no tempo em que ficou vivo: conseguiu desagradar a todos que conviveram com ele. Óbvio que ele não pode mais se defender, mas são abundantes as declarações e petardos disparados contra ele, de ex-mulheres a ex-companheiros dos Rolling Stones, de ex-funcionários a empresários e até amigos que um dia foram mais chegados. Em todas as biografias da banda ou livros sobre fatos específicos da carreira do grupo as referências ao músico, sobretudo no período entre 1966 e 1969, não são nada lisonjeiras. É raro achar alguém que fale bem do cara.

Se já é difícil escrever um livro para falar bem do guitarrista, imagine escrever uma música? Pois uma banda de Campinas (SP) decidiu fazer um álbum inteiro sobre a vida e os momentos finais de Brian Jones. O grupo é o Dusty Old Fingers, que escreveu e gravou a surpreendente ópera-rock “The Man Who Died Everyday”. O título faz referência a uma declaração de Pete Townshend, guitarrista do The Who, no dia seguinte à morte de Jones: “Ele era um cara que morria todos os dias”.

Sem exageros, o grupo tenta recriar, com sucesso, uma sonoridade stoneana bem setentista, em um trabalho bastante honesto e de bom gosto na parte musical – os arranjos são ótimos, especialmente os de teclados de “Blonde Hair, Baby Face”, que tem um clipe simples no YouTube. um instrumental de boa qualidade para o que chama mais a atenção, as letras interessantes das músicas tentando retratar o problemático primeiro guitarrista dos Rolling Stones.

Som datado? De certa forma sim, mas não de maneira negativa. As músicas passeiam do rock’n’roll básico com timbres que remetem aos Faces ao southern rock com levadas de Allman Brothers, alternando para o peso que pode ser facilmente encontrado no Humble Pie (de Steve Marriott e Peter Frampton). Aliás, a voz do cantor e guitarrista Fabiano Negri guarda certas similaridades com o timbre de Marriott.

Duas músicas são poderosas: “My Best Enemy” e “Going to Hell”, esta uma ode à loucura rock’n’roll, mostrando o tenso, caótico e violento relacionamento entre Jones e a modelo alemã Anita Pallenberg – que se tornaria a senhora Keith Richards, com que teve dois filhos, no final de 1967, fato que piorou ainda mais a desintegração emocional do guitarrista louro. Outros destaques são “The World at My Feet”, “Dirty Hands” e o encerramento belo e melancólico com a faixa-título.

O grupo Dusty Old Fingers foi criado em 2012 inicialmente como um projeto de Fabiano Negri e do guitarrista Tony Monteiro. Negri ficou conhecido nos anos 90 por tocar com o Rei Lagarto, banda que encerrou atividades recentemente. Monteiro é jornalista veterano da área musical. A ideia da dupla era fazer um disco que resgatasse gêneros essenciais ao rock, como blues, classic rock e blues rock – tanto que o nome Dusty Old Fingers (“velhos dedos empoeirados”) é uma referência à opinião da dupla de que o rock de antigamente era muito melhor do que o de hoje. Fazem parte da banda também Joni Leite (baixo), Rick Machado (bateria) e Marcelo Diniz (teclados).

Uma alma penada em vida

Brian Jones se considerava o verdadeiro criador dos Rolling Stones, mas na verdade ele foi procurado pela dupla Mick Jagger e Keith Richards no começo de 1962 para formar uma banda. Como já era experiente e tocava na noite de Londres, conhecia muita gente e logo tomou conta do “empreendimento”, autoproclamando-se líder e empresário, pois arrumou um lugar para ensaios e outros músicos para iniciar os trabalhos.

Também foi de Jones a ideia de nomeá-los como Rolling Stones, nome que foi detestado pela banda, em meio ao desespero no momento de agendar o primeiro show, no Marquee Club, em 12 de junho de 1962, substituindo a Blues Incorporated, de Alexis Korner. Não bastasse tudo isso, foi o maior entusiasta da assinatura de contrato com Andrew Loog Oldham, um moleque de apenas 19 anos, mas com o cargo de ex-assistente de Brian Epstein, dos Beatles, no currículo. Oldham foi o primeiro empresário e o mentor da frase “Você deixaria sua filha se casar com um Rolling Stone?”

Ironicamente, foi Oldham que deu o primeiro empurrão para o início da autodestruição do paranoico, ególatra e narcisístico Jones ao trancar Jagger e Richards na cozinha de sua casa no começo de 1965 até que a dupla conseguisse compor uma música, para não depender mais da ajuda de amigos (como os Beatles, que cederam “I Wanna Be Your Man”) e versões do blues. Demorou horas na madrugada, mas a dupla fez uma música, e a partir daí embalou a perpetrar sucessos atrás de sucesso.

Os Stones em 1965: Joes é o primeiro da esq. para a dir.

Como não compunha, Jones ficou para trás. Quando percebeu, tinha perdido a liderança para Jagger e Richards, especialmente no final do ano, com o estouro de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, hit gigantesco até hoje. O guitarrista problemático e irascível já demonstrava um desequilíbrio e fragilidade emocionais preocupantes, agravados pelo tempestuoso relacionamento com Anita e com as constantes visitas de oficiais de Justiça e moças pedindo o reconhecimento de paternidade de seus filhos.

Segundo o escritor Simon Wells em “Encurralados: Os Stones no Banco dos Reús”, aos 17 anos Brian Jones já era pai de dois filhos que ele não reconheceu. Até a sua morte, em 1969, teria outros quatro. Pelo menos três das crianças teriam sido encaminhadas para a adoção em Londres e Cheltenham.

O guitarrista mergulhou na decadência física e artística em 1966, mergulhando de cabeça nas drogas e no álcool – que já usava em doses bastante altas desde 1963. Embora fosse um prodígio nos instrumentos – era capaz de aprender um instrumento novo em horas, como no caso da cítara – não compunha, o que o relegou ao segundo plano nos Stones. Lentamente foi se desinteressando pelo trabalho no estúdio, com suas partes sendo tocadas por Richards. No palco, mostrava desinteresse ainda maior.

Nos álbuns “Between the Buttons” e “Their Satanic Majesties Request”, gravados e lançados entre 1966 e 1967, sua contribuição foi pequena, participando de poucas músicas, piorando ainda mais no clássico “Beggar’s Banquet”, lançado em 1968, coincidindo com Anita Pallenberg trocando por Richards após uma viagem à França e ao Marrocos ocorrida no finalzinho do ano anterior.

Mergulho fatal

O ressentimento e a paranoia aumentaram muito, assim como o consumo de drogas. Jones praticamente desapareceu dos estúdios e teve problemas com a polícia por conta de posse de “substâncias ilícitas”. Por um momento passou a odiar Jagger, a quem culpava por todos os seus males – o maior deles, o de “roubar a minha banda”. Culpava também Richards por seu isolamento na banda e pelo fosso artístico-criativo em que estava mergulhado.

Jones foi levando a situação em estado catártico até o primeiro semestre de 1969, quando passou a se recusar cumprir compromissos com a banda e a gravar novas músicas – na época os Stones estavam tocando pouco ao vivo, mas voltariam às turnês no final do ano nos Estados Unidos. Richards adiou o quanto pôde, mas teve de ceder à ira de Jagger: Brian estava fora da banda e não havia mais como mantê-lo.

A decisão foi tomada em abril, quando Mick Taylor, geniozinho da guitarra da banda de John Mayall, foi convidado a gravar partes do álbum que viria ser “Let It Bleed” (lançado em dezembro de 1969), para pouco depois ser efetivado. Apesar de tudo isso, Jagger e Richards só tomaram coragem de ir ao apartamento de Jones no começo de junho para oficialmente dispensá-lo. Surpreendentemente, o demitido recebeu a notícia de forma serena e resignada, ao menos na aparência.

Dilacerado emocionalmente, passou a consumir toneladas de drogas para aplacar a depressão e a sensação de fracasso, que culminariam na sua morte um mês depois, em 3 de julho de 1969, afogado na piscina de sua casa. É fato que ele estava entupido de drogas e completamente bêbado, mas até hoje persistem versões de que teria sido assassinado por um pedreiro que fazia uma obra no imóvel. Outras versões dão conta de que Jagger teria mandado matá-lo – ou feito com as próprias mãos. As sandices são muitas neste caso.

Dois dias depois, os Stones fizeram o célebre concerto do Hyde Park, em Londres, com abertura do King Crimson e do Blind Faith. O que era para ser a apresentação oficial de Taylor tornou-se um show em memória de Brian Jones, embora Jagger e Richards não tenham comparecido ao funeral dias depois.